Terça-feira, 26 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

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Democracia, controle e escravidão

Por Luli Radfahrer em 31/03/2015 na edição 844
Reproduzido do UOL, 24/3/2015; intertítulo do OI

A efervescência das redes sociais nas últimas semanas é indício de que a internet veio para ficar como forma de manifestação social. Nunca se viram tantos pontos de vista categóricos, simultaneamente atualizados, customizáveis para qualquer plataforma. Se antigamente eram necessários diversos profissionais e um mínimo de conhecimento técnico para se colocar uma mensagem no ar, hoje pode-se dizer que a democracia chegou.

Democracia? Perdão, o termo correto para esse sistema é anarquia. Para a democracia se pressupõe uma decisão em conjunto, em que a voz da maioria reunida propõe uma solução comum a todos, que deverá ser engolida a seco pelos opositores. É tão banal falar em seu nome que às vezes o real sentido é perdido. Ao examiná-la detalhadamente, parece coisa do século passado. Ou melhor, de 20 séculos atrás.

Winston Churchill já dizia que a democracia não é o sistema perfeito, mas o melhor disponível. A ideia que agrade à maioria ser mais importante do que as outras, mesmo que sejam melhores, mais práticas, mais sensatas ou viáveis, provoca desconfiança. Em um mundo digital, conectado e acessível, chega a causar estranheza. Se posso ser feliz com o meu grupo, para quem divulgo abertamente minha opinião formada sobre tudo, por que deveria me contentar com a lerdeza dos tribunais, assembleias e congressos?

No ambiente anárquico proporcionado pelas tecnologias digitais tudo é muito rápido e intenso. Desorientados, muitos acabam por se comportar como crianças hiperativas: cada um fala o que bem entende e não se chega a lugar nenhum, nem é esse o propósito. Em teoria não é ruim. E poderia ser até intelectualmente estimulante.

O problema é que o ser humano é fascinado por controle. Boa parte dos avanços tecnológicos, como boa parte do estrago que fazemos uns aos outros e ao planeta, vem de uma enorme insatisfação que se tem com o estado das coisas e uma vontade imensa de convertê-las às expectativas. Para esse tipo de personalidade, a informação customizada e adaptada às preferências particulares, entregue automaticamente, parece uma bênção.

Novo ritual

Mas não é. Ao mimar o usuário e permitir a ele o consumo de qualquer tipo de informação, Facebook e Google aparam arestas e eliminam confrontos. Nesse processo contribuem para exterminar qualquer espécie de aprendizado. A “conveniência” da mídia fortalece preconceitos e hábitos, uma vez que é tremendamente confortável nutri-los.

Ninguém nasceu gostando de brócolis. Gosto não se discute, mas, como educação, se desenvolve. Para se aprender a ouvir boa música é preciso tempo e paciência. Para se formar cidadania, cultura, senso artístico e estético também. Ao permitir o controle sobre o que se vê e de que forma isso ocorre, as tecnologias digitais fazem seus usuários crer erroneamente que exercitam uma espécie de curadoria, quando o que acontece é exatamente o contrário.

Ao enfatizar a eficiência da tecnologia em vez de se perguntar qual é o processo que ela torna mais eficiente, as perguntas difíceis são evitadas. E qualquer manifestação política, jornalística, cultural, didática ou artística tem seu contexto e significado esvaziados, até que se transformem em um tipo de entretenimento vazio.

Diz-se que o que amarra todas essas tecnologias é o conforto e a satisfação das necessidades. Mas de que necessidades se fala quando se trata de conhecimento e formação? Em um mundo que o usuário pode exercitar um controle sem precedentes sobre o que vê e escuta, é possível evitar conscientemente ideias, sons e imagens com as quais não se concorda ou de que não se gosta.

Na pressa em replicar o novo e atender ao grupo, boa parte do conteúdo se torna conveniente e individualizado, uma câmara de eco que promove o narcisismo e o individualismo vazio.

Até Walter Benjamin ficaria impressionado ao ver que sua proposta de “aura” da obra de arte, composta por sua originalidade, autenticidade e unicidade, reside agora nos aparelhos tecnológicos em que é reproduzida.

O quadro foi substituído por sua moldura.

Esse novo ritual, conveniente, que propõe o consumo desmedido de experiências completamente personalizadas, é uma forma de escravidão. Ao contrário da arte e da cultura, que encorajam seus navegantes a transcender sua própria experiência, os fixa obsessivamente a objetos tão brilhantes quanto um dia o foram os espelhinhos e miçangas.

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Luli Radfahrer é professor-doutor de Comunicação Digital da ECA-USP

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