Terça-feira, 26 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

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Linchamentos virtuais

Por Jordi Soler em 31/03/2015 na edição 844
Reproduzido do El País, 28/3/2015; intertítulo do OI

Alicia Ann Lynch, uma jovem norte-americana de 22 anos, publicou no Twitter uma fotografia onde aparecia fantasiada para uma festa de Halloween. A fantasia era de uma simplicidade que teria consequências imprevisíveis; aparecia vestida com roupas esportivas, com o rosto e os membros lambuzados de tinta vermelha, como se tivesse sangrando abundantemente, e uma legenda que rapidamente lhe garantiria um linchamento nas redes sociais: “Vítima da maratona de Boston”. A referência daquele gracejo era a bomba que, em abril de 2013, interrompeu violentamente a famosa corrida, causando três mortos, 282 feridos e a mancha indelével de um atentado terrorista na cidade. A inconsciência e o mau gosto de Lynch e a péssima ideia de publicar essa fotografia dispararam a morbidez de seus escassos seguidores no Twitter e as republicações destes fizeram com que em algumas horas a jovem recebesse milhares de insultos e mensagens de uma dureza que não admitia nenhuma réplica, como este enviado por uma vítima da trágica maratona: “Você deveria estar envergonhada. Minha mãe perdeu as duas pernas e eu quase morri.”

O linchamento virtual logo ganhou consistência real e a jovem teve que trancar-se em casa, e alguns dias mais tarde o chefe do escritório onde ela trabalhava, constrangido pela pressão das redes sociais, a despediu. Usar tal fantasia não tem nenhuma graça e publicar a fotografia é um gesto depreciável, mas o que teria acontecido com Alicia Ann Lynch se tivesse feito a mesma brincadeira, com a mesma foto, em 1970, antes da Rede? A foto teria sido vista somente por seus amigos e seu chefe dificilmente a teria despedido por essa brincadeira de mau gosto, mas de alcance exclusivamente doméstico. O caso é interessante, pois evidencia como as redes sociais aumentam situações que, sem essa difusão massiva, teriam sido muito menos importantes.

Em 1932 foi sequestrado o bebê de Charles Lindbergh, o célebre piloto que cruzou pela primeira vez em seu avião, em 1927, o Oceano Atlântico. Lindbergh era um herói nacional e o sequestro de seu filho deixou a sociedade norte-americana apreensiva por dois meses; até que em um dia trágico o cadáver do garoto foi encontrado. Alguns meses mais tarde, quando o bebê Lindbergh continuava sendo um tema recorrente, o pintor Salvador Dalí, que havia inaugurado com muito sucesso uma exposição em Nova York, foi convidado para uma festa à fantasia na qual compareceu a fina flor da sociedade de Manhattan. Dalí e Gala, sua mulher, compareceram fantasiados, para escândalo dos convidados, de bebê Lindbergh e seu sequestrador. Aquela violenta brincadeira não foi além de aborrecer os convidados e os leitores dos jornais que publicaram a última excentricidade do pintor. Na biografia de Dalí, o incidente da festa à fantasia é um episódio menor, uma brincadeira de mau gosto que se parece com a situação da jovem que se fantasiou de vítima da maratona de Boston, com a diferença de que na época de Dalí não existiam redes sociais e televisão para aumentar sua imprudência e sua brincadeira ficou nisso, em uma boutade; mas se isso tivesse acontecido neste século, Dalí provavelmente ficaria sem galeristas, teria sofrido um severo boicote e teria de agir para que sua carreira não afundasse.

Na fotografia publicada por Alicia Ann Lynch no Twitter, é preciso separar o fato de sua difusão massiva, de sua multiplicação exponencial na Rede. Mas isso, por enquanto, é complicado, porque os internautas adoram o linchamento e, sobre esta penosa pulsão tão própria do século 21, ninguém teve tempo de criar alguma lei.

Apareceram recentemente em inglês dois ensaios sobre esse inquietante tema, que é outra dessas zonas escuras deste luminoso invento que é a internet: So You’ve Been Publicly Shamed (Então Você Foi Envergonhado Publicamente), de Jon Ronson, e Is Shame Necessary? New Uses For An Old Tool (A Vergonha é Necessária? Os Novos Usos de uma Velha Ferramenta), de Jennifer Jacquet. Os dois ensaios tratam da dimensão contemporânea da vergonha, do desprestígio e do escárnio, que saem de proporção quando são amplificados nas redes sociais; qualquer descuido, deslize ou bobeira, que há quarenta anos teria produzido um pouco de incômodo ou um momento de rubor, hoje, esta mesma bobeira aumentada pelo Twitter ou pelo Facebook pode gerar um linchamento que arruinará a vida do engraçadinho.

Um marco civilizado de convivência na internet

Os casos de linchamento virtual, de vergonha pública massiva abundam; a todo momento os internautas lincham políticos, cantores, jogadores de futebol e banqueiros, personagens que estão permanentemente expostos ao olhar público e que, portanto, estão habituados a lidar com o ódio e o desprezo da massa tuiteira; mas o assunto muda quando o linchamento é dirigido a uma pessoa normal, que torna-se subitamente famosa como a jovem que se fantasiou de vítima da maratona de Boston, ou como o caso de Justine Sacco, um episódio emblemático que Jon Ronson esmiúça em seu livro. Sacco viajou à África do Sul para visitar alguns parentes e, enquanto embarcava no avião em Nova York, deu asas à sua loquacidade tuiteira e começou a publicar mensagens, algumas muito ofensivas, para sua modesta paróquia de 170 seguidores. Em sua escala em Londres publicou uma infeliz mensagem que mudaria sua vida: “Vou para a África. Espero não contrair Aids. É brincadeira. Sou branca.”

Sacco passou as onze horas seguintes voando até seu destino e, quando aterrissou na Cidade do Cabo e conectou seu celular, recebeu um dilúvio de mensagens, insultos, e também condolências escritas por seus conhecidos; enquanto tentava assimilar o que estava acontecendo, recebeu uma ligação de sua melhor amiga que lhe disse que sua mensagem sobre a Aids era trending topic mundial, ou seja, a mensagem mais reproduzida no Twitter nas últimas horas. Imediatamente depois seu chefe ligou e, pressionado pelo escândalo nas redes sociais, sobre essa executiva que acabava de demonstrar sua ignorância e seu racismo ao mundo, não teve outro remédio a não ser demiti-la da direção que ocupava em uma importante empresa de comunicação de Nova York. Enquanto Sacco voava até a Cidade do Cabo, uma etiqueta, uma hashtag, sobrevoava o Twitter:#justinejáaterrisou? Dezenas de milhares de pessoas esperavam o momento em que Justine, que tinha somente 170 seguidores quando saiu de Londres, aterrissasse na África do Sul e visse a encrenca na qual havia se metido. Uma pessoa foi ao aeroporto, fotografou Sacco, com vistosos óculos, incrédula, olhando a tela de seu telefone e a publicou no Twitter com a seguinte mensagem: “Sim, Justine já aterrissou no aeroporto da Cidade do Cabo. Decidiu disfarçar-se com óculos escuros.”

A vida de Justine Sacco ficou em pedaços. Jon Ronson conta em seu livro, a partir de uma série de conversas que teve com ela em sua volta a Nova York, os detalhes de sua descida ao inferno. Sacco publicou um comentário racista e idiota, mas a penalização imposta a partir das redes sociais parece excessiva. Talvez, para começar a estabelecer um marco civilizado de convivência na internet, seja necessário aposentar a ideia de que o que acontece no ciberespaço é realidade virtual, e que, apesar de sua natureza intangível, deve ser considerada, tratada e legislada da mesma forma como é feita na dura, e bem tangível, realidade.

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Jordi Soler, do El País

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