Terça-feira, 26 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

E-NOTíCIAS > ENTREVISTA / LUIS CAMILLO ALMEIDA

‘O ser humano não foi feito para ficar no computador toda hora’

Por Isabel De Luca em 31/03/2015 na edição 844
Reproduzido do Globo.com, 29/3/2015

Em 2001, o carioca Luis Camillo Almeida, professor e chefe de departamento da Escola de Comunicação da Indiana University of Pennsylvania, nos Estados Unidos, literalmente perdeu o chão: esgotado pelo hábito de só se desligar do computador ao último grau de exaustão, acabou diagnosticado com uma espécie de labirintite causada por estresse que o fez andar de bengala por oito meses e arruinou parte de sua capacidade auditiva. Com base na própria experiência, Almeida – hoje com 41 anos – passou a pregar a desconexão no circuito de palestras americano, incluindo o cultuado fórum de conferências TED. Em menos de uma década, acredita, estaremos em meio a uma epidemia de ansiedade global. “Tem que haver uma mudança de comportamento, ou vamos pagar um preço muito alto na nossa saúde”, diz. “O ser humano está se robotizando, e o único jeito de interromper esse processo é o esgotamento.”

Fale um pouco da experiência pessoal que o levou a pregar a desconexão.

Luis Camillo Almeida – Uso o computador desde os 11 anos. Quando minha família se mudou para os Estados Unidos, em 1998, a prática se intensificou: recorri à tecnologia para agilizar o aprendizado do inglês, enquanto também descobria as redes sociais. Em 2001, recém-promovido a chefe de departamento na universidade, passava dia e parte da noite no computador, e fiquei muito doente, não conseguia ficar em pé. Foi quando, de licença em casa, comecei a escrever a teoria The Almeida computer behavior, que foi inclusive publicada. Percebi que a situação piorava quando eu olhava para o computador. Quando imprimia o que queria ler, era mais fácil. E comecei a pensar: será que estou virando uma máquina? Eu li Marshall McLuhan, vi que estava acontecendo comigo. Comecei a prestar atenção ao comportamento das pessoas na universidade, sempre teclando no celular, mesmo no meio de uma conversa. E o que eu estava escrevendo começou a fazer sentido… É um processo que acontece em fases. A pessoa vai ficando robótica, o que não é muito diferente do que McLuhan falou. Mas minha teoria difere da dele porque o ser humano não foi feito para ficar no computador toda hora. Quando o computador quebra, a gente troca. Se a gente quebrar, não tem como. Então tem uma hora que a Síndrome do Humano Robótico vai reverter de volta para o humano, não tem como.

“O ser humano vai ficar neurótico”

Explique as diferentes fases de sua teoria.

L.C.A. – O ser humano, quando muito conectado, entra num estado de desequilíbrio, mas ainda é mais humano do que máquina. Depois começa o que chamo de Síndrome do Homem Robótico, quando a pessoa começa a se comportar mais como máquina do que como humano. Acho que a gente está chegando lá. Mas o ser humano não é uma máquina, e a população global vai sentir isso na pele. Não tem como transformar o ser humano em máquina. A tecnologia vai nos mostrar como nós somos limitados, e aí vamos passar por outra fase, que batizei de Reversão Humana, em que passaremos por um processo de volta ao equilíbrio, vamos ter que nos recondicionar. Mas, como a tecnologia veio para ficar, o ciclo vai continuar.

Como assim?

L.C.A. – A tecnologia está nos transformando em robôs, que é o princípio de McLuhan. Mas a longo prazo acho que a tecnologia vai fazer com que fiquemos mais conscientes de como somos limitados, somos mais humanos do que robóticos. Vai chegar um momento em que as pessoas não terão como processar tanta informação, cedo ou tarde o ser humano vai passar por uma epidemia de ansiedade, e só então realizar que a tecnologia não é extensão de ninguém. Aconteceu comigo e com muitas pessoas com quem me encontrei desde então.

O esgotamento físico seria a única forma de promover uma mudança?

L.C.A. – Exato.

A tecnologia está subvertendo seu próprio sentido de facilitar a nossa vida?

L.C.A. – O uso excessivo de tecnologia vai nos fazer lembrar que somos humanos, não máquinas. Foi aí que eu me descolei de McLuhan. Ele viveu no século passado, estamos passando por outra realidade hoje. A sociedade já passou do ponto de adição tecnológica, estamos na fase de condicionamento tecnológico, em que as ferramentas tecnológicas estão nos condicionando a usá-las cada vez mais. Previ, em 2013, que a população ia viver uma epidemia de ansiedade em nível global em dez anos.

Quais serão as consequências a longo prazo?

L.C.A. – Teremos uma sociedade mais burra, vamos regredir. O ser humano vai ficar neurótico, completamente ligado à computação, sempre passando por um ciclo vicioso entre homem e máquina. Não vai parar, só vai piorar. Achamos que passar o dia no computador é igual a ser produtivo, mas nem sempre. Ficar no Facebook contando que deu banho na filha é perda de tempo, a sociedade está perdendo tempo demais.

“A baixa produtividade já é um sintoma”

Essa desconexão não tem seu preço? O funcionário que demora a responder um e-mail, ou o amigo que demora a responder uma mensagem, não está perdendo?

L.C.A. – A princípio pode perder. Mas a longo prazo ganha. A questão é: a que preço? Por isso o uso de tecnologia com moderação é crítico. Quando você envia um comando para um computador, ele imediatamente te dá um comando de volta. O ser humano está adquirindo esse comportamento de máquina. Eu hoje filtro o que vou responder de imediato.

Como foi parar no TED?

L.C.A. – Com a ideia de que o ser humano está se robotizando e o único jeito de interromper esse processo é o esgotamento. A ideia de que ficaremos robóticos não é minha, isso o Marshall McLuhan falou na década de 1960, mas a ideia de que as pessoas vão ter que adoecer para acordar é um movimento novo. Quando o computador quebra, a gente troca. Se a gente quebrar, não tem como. Quanto mais o ser humano usa a máquina, vai começando a se comportar como um robô, sem entender que o único jeito de reverter esse processo é o esgotamento. E tem que viver o estresse para perceber que não é uma maquina. Mudei 100%, mas só porque experimentei o lado negro da tecnologia. Perdi parte da minha audição por causa disso.

Como promover a desconexão quando o número de celulares no mundo supera a população?

L.C.A. – Tem que haver uma mudança de comportamento, ou vamos pagar um preço muito alto na nossa saúde. Hoje, ando com óculos escuros, que boto para descansar os olhos quando estou muito ligado ao computador ou ao celular. Precisamos de um sistema de autorregulamentação.

Como saber que se está passado dos limites?

L.C.A. – Um profissional deve trabalhar oito horas por dia. Se a gente está no computador por 14 horas, alguma coisa está acontecendo. E tem mais: no trabalho, quantas horas as pessoas passam em redes sociais e quantas horas estão realmente trabalhando? A baixa produtividade é um sintoma que já estamos vendo. De qualquer forma, não se trabalha 80 horas por semana sem efeito colateral. E isso tem um custo também financeiro, se analisarmos a quantidade de profissionais doentes nas empresas. Não é só o caso de realizar que o uso excessivo da tecnologia tem efeitos colaterais, isso já sabemos. Para as empresas, não é bom financeiramente.

“Que se use a tecnologia, mas com moderação”

E como educar as crianças?

L.C.A. – Tenho uma filha que vai fazer dois anos. Limitamos muito celular, iPad, que ela usa com moderação. Outro dia, na fila do supermercado, ela estava esperneando e, em vez de dar meu celular, como a maioria dos pais faria hoje, eu dei um abraço nela e comecei a cantar uma música de ninar. E ela parou. Nem todas as soluções para os problemas que temos hoje são baseadas na tecnologia. As coisas que nossos avós faziam também funcionam, e bem. A moça que estava atrás da gente chegou a bater palma.

Fale da pesquisa que desenvolveu com alunos da sua universidade.

L.C.A. – Depois de adoecer, preparei com um psicólogo um questionário de 94 perguntas que submetemos a cem estudantes. O resultado confirmou a minha hipótese. Por exemplo, 44% responderam que só se desconectam diante de exaustão mental e física; 72%, que pensamento impulsivo é um fato da vida; 74% executam tarefas rapidamente; 85% dizem que “respondem a comandos”. A maioria diz que está sempre procurado decisões imediatas e fazendo várias coisas ao mesmo tempo, que são atributos do computador. Mas só 13% acreditam que estão se robotizando!

Explique o movimento “Esc the Machine”, que acaba de lançar.

L.C.A. – É um chamado para que se use a tecnologia – que, claro, é uma coisa boa e deve ser celebrada – com moderação. Começamos há poucas semanas, abordando gente na rua, e já temos centenas de fotos de pessoas que pararam tudo para posar com o logo do movimento. Tecnologia é muito bom, posso falar com minha família no Brasil, a medicina se aprimorou, não há dúvida de que muita coisa melhorou, mas por que preço? O preço que estamos pagando é muito alto.

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Isabel De Luca, do Globo

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