Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

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A aceleração das tecnomudanças

Por Carlos Alberto Teixeira em 02/03/2010 na edição 579

Cena 1 – Bastou que o pai começasse a fazer perguntas demais sobre os recados que a filha recebia no Facebook e sobre as pessoas que apareciam nas fotos que ela publicou em seu perfil, para ela tomar uma decisão drástica: bloqueou seu velho no Facebook.

Cena 2 – Em sua inocência de criança, que acredita que o mundo tecnológico sempre foi do jeito que hoje é, o filho pergunta: ‘Pai, quando você era criança, qual era o seu site preferido?’

Nesses tempos informatizados, as relações entre gerações, e mesmo entre irmãos separados por poucos anos de idade, são pontuadas por pequenas diferenças de hábitos e até conflitos.

As novas gerações estão mais velozes. A turma conectada está exigindo respostas imediatas dos amigos, colegas, pais, professores e de quaisquer pessoas se comunicando com eles. O motivo é que, no mundo eletrônico, as respostas que os jovens obtêm das máquinas são instantâneas. Habituadas a isso, eles têm cada vez menos paciência para aguardar qualquer coisa que seja no mundo analógico, eletromecânico e… humano. Contudo, um dos efeitos dessa impaciência é que, selecionando mais severamente as opções disponíveis, os jovens têm mais controle sobre como usam seu tempo dedicado ao entretenimento. Com isso, já não são tão passivos diante da tela da TV como eram os jovens da geração anterior.

Dinheiro, mercado e comércio

Crianças muito novas que passam muito tempo envolvidas com jogos on-line e mundos virtuais voltados para o público infantil muitas vezes têm dificuldade em distinguir seus amigos reais de seus amigos virtuais. Isso pode torná-las potencialmente mais criativas do que as crianças de outrora e, ao mesmo tempo, menos suscetíveis às propagandas comerciais convencionais.

Selecionamos quatro ambientes familiares, um no Canadá e três aqui no Brasil onde todo mundo é plugado e surgem os tecnoconflitos.

Até o mundo dos mitos e da fantasia foi afetado pela internetização. Matheus Missick Guimarães, nove anos, mandou dois anos atrás uma carta de Natal a Papai Noel, por meio de um site.

‘Isso deixou a mim e minha mulher em uma situação complicada, pois ficamos sem saber qual tinha sido o pedido’ conta Gustavo Guimarães, pai de Matheus. ‘Deu vontade de matar o desenvolvedor que não colocou como campo obrigatório o email do responsável, para enviar a ele uma cópia da cartinha da criança.

A grande rede, em muitos casos, serve de ponte entre até duas gerações consecutivas.

‘Os avós do Matheus, quando não conseguem achar uma informação na internet, chamam o meu filho, que logo de cara abre o Google e o YouTube, encontrando rapidamente o que eles buscam’ orgulha-se Gustavo.

A internet serve também para as crianças aprenderem o valor do dinheiro e noções básicas do mercado e do comércio.

Um momento histórico

‘O que o meu filho mais gosta de fazer na internet é usar o aplicativo Colheita Feliz, do Orkut’, conta Gustavo. ‘Lá ele tem esses bichinhos de que precisa tomar conta. Só que ele faz isso com tanto afinco que este mês ele me pediu que desse sua mesada inteira em dinheiro do Colheita Feliz. Só para poder comprar comida para bichos, fertilizantes e outros insumos virtuais.’

Gustavo mantém um blog contando coisas sobre o Matheus. Mas num dado instante, surpreendeu-se autocensurando os posts.

‘O fato é que meu filho está crescendo e eu sei que chegará o dia em que ele pedirá que eu não mais continue este registro’ preocupa-se o pai. ‘Até lá, vou tentar não dividir com o mundo a parte da vida dele que for excessivamente particular. Caberá a mim a responsabilidade de filtrar, infelizmente cada vez mais, os aspectos de sua vida pessoal que ele poderia querer manter somente entre nós dois.’

A cena 2, lá no início da matéria, foi protagonizada por Matheus perguntando qual era o site preferido do pai quando era pequeno. Segundo Gustavo, o pior foi o olhar de incredulidade do menino quando ouviu a resposta de que naquele tempo ainda não existia a grande rede.

É um momento histórico. A geração de Matheus será a última cujos pais não tiveram internet em sua infância.

Capacidade multitarefa

Fred Rego tem uma firma de desenvolvimento de sistemas no Canadá. Mudou-se para lá há 22 anos. Casou-se e teve duas filhas Cristiana e Bianca, hoje com seis e 15 anos respectivamente. Ambas estão enfronhadas até a alma no clima high-tech do país.

‘A Cristiana é muito mais acessível. Quanto à Bianca, sempre mantenho contato com ela através do celular, principalmente à noite e nos fins de semana. Mas pelo SMS é muito mais efetivo, ela sempre responde’ relata Fred. ‘Quando brigamos; ela ameaça desligar o telefone e eu de cancelar a conta.’

Um ponto que chama a atenção é a destreza das crianças mais novas no manuseio dos gadgets mais modernos. O iPhone tornou-se exemplo clássico.

‘A Cristiana sempre pede o meu iPhone para escrever no `Notes´ e para jogar alguns joguinhos. Nunca precisei ensinar nada para ela. Ela pega e sai usando. O mesmo com o nosso laptop e desktop‘, diz Fred. ‘Ela começou aos três anos, quando colocávamos o browser no site PBS Kids ou no da Disney e ela saía jogando sem ensinarmos nada.

Cristiana não está nem aí para mensagens de texto via celular, mas Bianca envia uns dois mil SMS por mês e recebe mais ou menos a mesma quantidade. O pai teve que fazer um plano mais caro para a família.

‘Já cheguei a pagar US$ 1 mil só de conta telefônica da Bianca’ diz Fred.

A capacidade multitarefa dos jovens informatizados também tem aumentado muito, provavelmente como efeito da própria característica dos sistemas operacionais modernos, que permitem várias janelas de processamento simultâneas em um mesmo computador.

‘Bianca fica no SMS, no laptop e assistindo DVDs, tudo ao mesmo tempo’ diz o pai.

Distorções que preocupam

Mas já se nota uma clara diferença entre a geração internet, nascida na década de 80, e a chamada ‘i-generation’, nascida na década de 90 ou nos anos 00. No departamento televisivo, são flagrantes as diferenças nos hábitos entre as irmãs. Bianca fica bastante no computador e só assiste na TV a filmes e ao seriado Gossip Girl. Já Cristiana assiste à TV a maior parte do tempo, superando de longe o tempo que passa no computador.

Lanika Rigues, designer carioca morando em São Paulo, é mãe de Gabriel Assumpção, 11 anos. Ela tem plena consciência de seu papel na educação de seu filho e no cuidado com a divulgação de informações pessoais.

‘Se você não ensinar à criança que privacidade é uma coisa importante, ela não vai se preservar. É preciso ensinar e reforçar, e explicar porque ela deve cuidar disso’ declara Lanika.

Às vezes, os mais velhos trocam de lugar com os mais jovens no uso das tecnologices.

‘Eu e o meu marido, ambos com mais de 30, praticamente só nos falamos via IM ou SMS no dia-a-dia, diz a mãe do Gabriel. ‘Mas meu filho prefere telefonar.’

Com a popularização dos gadgets entre os jovens, tais itens já representam símbolos de status. Só que o peso dado a essas posses dá margem a aberrações.

‘Na escola do Gabriel, a professora começou a fazer um trabalho para diminuir a disputa e o juízo de valor do tipo `eu tenho, você não tem´, lembra Lanika. ‘Já vi um menino numa festinha de aniversário me dizer que era pobre porque só tinha um PlayStation 2 (o aniversariante tinha um Wii na sala e um Xbox no quarto). Essas distorções me preocupam.’

Grande revelação é o YouTube

Mas, conflitos à parte, maquinetas eletrônicas também podem servir para promover harmonia e bons momentos na família.

‘Leio livros, vejo filmes e jogo no notebook. Não é raro que Gabriel deite do meu lado para ver algum DVD comigo no laptop, normalmente fazendo perguntas sobre o filme: `Viu só? Por que ele fez isso? O que isso quer dizer?´ e coisas assim. São momentos deliciosos’ baba Lanika.

Vírus e outros malwares são uma constante preocupação.

‘O micro do Gabriel tem filtro de conteúdo impróprio, mas há anos eu já conversei com ele que, se ele entrasse num site procurando por jogos e encontrasse pornografia, então era pra sair porque aquele site provavelmente ia passar vírus para o computador dele’ conta Lanika. ‘Ele não tem autorização para instalar nada na máquina dele sem o meu conhecimento e normalmente quem analisa se algo presta e instala sou eu.’

E-mail, para os mais jovens, é uma ferramenta arcaica e absolutamente desinteressante. Gabriel já tem e-mail há anos, mas nunca os lê.

‘E ele pede para que eu entre na conta dele e leia os e-mails para ele. Ele não tem paciência para ler correio eletrônico’ conta. ‘Tenho a senha e o login de cada serviço que ele usa e monitoro o que ele está fazendo de vez em quando. Ele sabe disso e não se importa. Muitas vezes ele me pergunta o que pode ou não fazer ou divide comigo o resultado de um jogo, uma piada que um amigo virtual contou etc.’

No departamento musical, a grande revelação é o YouTube, que funciona para os mais jovens como a MTV funcionava há dez ou 20 anos.

Tecnologia ajuda a manter controle

‘É no YouTube que o Gabriel vai descobrindo músicas de que gosta, normalmente rindo de paródias feitas usando Bob Esponja ou Alvin e os Chipmunks’ relata. ‘E dali a pouco ele está me pedindo para baixar `We Will Rock You´, do Queen, ou a última do Black Eyed Peas para tocar no MP3 player dele.’

Se com 10 anos Lanika dormia com um rádio de pilha embaixo do travesseiro, ouvindo Blitz e Legião, Gabriel dorme ouvindo as músicas que coloca no iPod.

‘Ele estava todo feliz outro dia porque dormiu na casa de um amigo e voltou com o celular recheado de MP3 novas que eles trocaram via Bluetooth’ orgulha-se Lanika.

O Skype tem mostrado ser um traço de união até entre avós e netos, servindo de motivação para gente mais idosa perder a cerimônia de mexer com engenhocas modernosas.

‘Minha mãe, que tinha medo de computador, hoje adora tecnologia’ conta Lanika. ‘Uma das coisas para as quais ela usa o micro é conviver com os netos. Em vez de falar com meu irmão e comigo pelo telefone, ela usa conversas por vídeo para ver meu sobrinho Cauã (três anos) e meu filho Gabriel.’

Layse e Wilson, músicos, têm dez filhos, de dois a 19 anos, e a tecnologia ajuda a mantê-los sob controle. Na verdade, ‘apenas’ cinco deles moram com o casal. Lucas, o mais novo, com um ano e meio, já escuta músicas no iPhone e sabe ver fotos nele, arrastando o dedinho na tela para passar as imagens.

Afastamento de atividades tradicionais

‘Nossos filhos usam o Skype para se comunicar comigo e com meu marido, já que, por conta da profissão, passamos quase todos os fins de semana fora do Rio’, explica Layse.

Por dispor de uma amostragem filial bem mais ampla em termos de idades, Layse percebe claramente as diferentes experiências de seus filhos com relação à tecnologia.

‘Meu filho mais velho (Danilo, 20 anos) tem muito menos prática nos aparelhos do que os outros’, observa. ‘Noto também que os interesses dos meus filhos são diferentes, em relação aos aparelhos. Quanto mais nova é a criança, mais ela quer saber, aprender e tentar coisas novas. Diante de um desafio, insistem até vencer. Já o Danilo prefere ficar naquilo que já domina, como MSN, Orkut e email.’

Os hábitos televisivos da família de Layse também já foram alterados pela banda larga e a febre dos downloads já se instalou. A internet se tornou unanimidade entre os jovens como fonte de consulta. Qualquer programinha, ferramenta ou utilitário pode ser destrinchado graças a dicas encontradas na própria rede. ‘As crianças pesquisam tudo na internet. Meu filho Paulo Henrique, de 16 anos, aprendeu na internet a usar softwares para manipular sons e já faz gravações em áudio em programas como ProTools e Logic’, diz Layse.

Mas toda essa aptidão tecnológica tem seu preço. Muitos pais reclamam do afastamento de seus filhos de atividades tradicionais, tais como esportes, passeios e contato com a Natureza.

‘Na nossa família é muito fácil perceber este afastamento, já que moramos em frente à praia e os meninos às vezes passam semanas sem nem mesmo colocar os pés na areia, mesmo no verão’, conta.

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