Terça-feira, 25 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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A bola de cristal: crítica ao ciberespaço

Por Firmino Geraldo de Oliveira Júnior em 10/08/2010 na edição 602

Saudosismo à parte, ao fazer uma releitura da série de ensaios do médico e dramaturgo alemão Bertold Brecht, dedicada a compor uma nova teoria para a radiodifusão, a ‘Teoria do Rádio’, de 1932, foi possível perceber o quanto aqueles textos se denotam contemporâneos. Os escritos foram produzidos em caráter sugestivo. Sem muito rigor acadêmico, Brecht dá dicas para quem tem o poder da radiodifusão nas mãos. Parece que podemos usar a mesma dose cavalar de remédios que o médico Brecht prescreveu para o rádio, para automedicar a nossa rede virtual, sobretudo brasileira.

Vejamos pelos menos dez dos principais remédios prescritos pelo dr. Brecht: 1) O rádio é um ‘triunfo técnico colossal’; 2) A burguesia não pode dominar o rádio para ele funcionar efetivamente; 3) O rádio precisa ser democrático; 4) Deve haver proximidade dos acontecimentos; 5) A legislação vigente emperra muitas possibilidades; 6) O rádio pode dizer tudo a todos, mas parece não ter nada para dizer; 7) O rádio imita outros meios; 8) O rádio deve comunicar, e não simplesmente distribuir; 9) O rádio deve emitir e receber, não apenas o primeiro; 10) A informação real é indispensável.

Eis que muito daquilo que Brecht queria para o rádio é o que precisamos para a nossa rede (e isso se reforça em tempos eleitorais). De fato, tantas possibilidades são um triunfo inigualável. Conquista maior seria se cada vez menos os grandes conglomerados se apoderassem da rede. Olha só: posso criar um blog, mas concorrer com a potência midiática dos mais abastados da mídia não passa de utopia. A democracia na web parece chegar apenas para menores de idade que fazem um strip tease no Twitter ou esposas traídas que filmam e publicam a briga com a desavisada amante.

Uma rede de hipertexto cooperativo

Democracia virtual, acredito (e Brecht também, tenho certeza, se vivo ele estivesse), passa também pela necessidade de divulgação da arte e do conhecimento. Onde estão os canais de divulgação cultural e popular? Temos aí bons exemplos, sim, como Overmundo, CMI, Observatório da Imprensa e outros poucos que de fato se aproximam dos acontecimentos. Quer dizer então que para o meu blog fazer sucesso devo plantar bananeira? Fazer o inusitado? A competição, inclusive na rede, ainda é bastante desleal. Infelizmente, é insano pensar que temos uma rede puritana, livre, democrática.

Assim como o rádio podia dizer tudo a todos, mesmo parecendo não ter nada a dizer, a internet nos dá também essa sensação. Dizem por aí a infâmia de que ‘qualquer um pode publicar o que quiser na rede’. E daí? O que representa isso? Praticamente nada, cara pálida. Temos milhões de blogs e outros espaços por aí dizendo tudo sem nada a dizer. E pior, muitos que têm algo a dizer acabam relegados à periferia dessa rede chamada de libertária. Brecht chegou a afirmar que pior que um homem que não encontra ouvintes, só um ouvinte que não encontra um homem que tem algo a dizer.

‘É tenso’, como dizem meus alunos. Mas quero uma rede descentralizada, que consiga eliminar bordas e centros e se torne multifacetada, reticular mesmo. Os interlocutores (usuário não, pelo amor de Deus) devem ser construtores de um webjornalismo cidadão que congregue a realidade de cada um, numa colossal e verdadeira informação coletiva. Assim como o petróleo: a rede é nossa! Vamos participar e emitir também. Ah! Quando falo em participação, não trato de ligar e oferecer uma música, ou postar um comentário. Participar é fazer junto uma rede de hipertexto cooperativo.

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Jornalista e mestre em Comunicação Social pela PUC/MG e professor da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG), Bambuí, MG

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