Segunda-feira, 18 de Fevereiro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1024
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A concentração das informações na internet

Por Gustavo Hofman em 19/12/2005 na edição 360

A internet, a cada dia que passa, se confirma como um dos mais importantes e influentes meios de comunicação. A confluência dos tradicionais meios de comunicação que proporciona torna-a ferramenta extremamente atrativa e de multiuso por seus usuários. A velocidade em que gera as informações é outro fator determinante em sua consolidação na sociedade e em sua capacidade de criar opiniões sobre determinados assuntos. Outro fator preponderante é a interatividade que permite aos usuários. Esses internautas, cada vez mais, buscam aumentar essa interatividade e participar mais dos processos, visto o constante aumento de recursos como blogs, sites de relacionamento, chats e programas de mensagens instantâneas.

Por outro lado, as grandes mídias broadcasting, ou seja, grandes centros de empresas de comunicação, já perceberam há muito tempo a importância da internet no mundo da comunicação. Com isso, suas redes de influência já atingem os grandes portais da net no Brasil. A concentração das informações nesses sítios faz com que sejam geradas pouca variedade de visão ou compreensão sobre determinado assunto pelos formadores de opinião, visto que a maioria dos internautas provém das classes mais altas da sociedade.

O Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br) promoveu, em parceria com o Instituto Ipsos-Opinion, pesquisa sobre a penetração e o uso da internet no país. O levantamento de dados sobre o uso das tecnologias da informação e da comunicação (TIC) em domicílios e empresas brasileiras foi feito entre os meses de agosto e setembro de 2005. A metodologia seguiu o padrão internacional da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) e da Eurostat (Instituto de Estatísticas da Comissão Européia), o que permite a comparabilidade internacional. As amostras probabilísticas de cada pesquisa foram desenhadas de forma a apresentar uma margem de erro de no máximo 1,5% no âmbito nacional e de 5% regionalmente.

Maior renda, mais acesso

A pesquisa constatou que o acesso e o uso do computador e da internet no país dependem, quase que unicamente, do nível socioeconômico do indivíduo, da renda familiar e da região onde vive. A penetração da posse e do uso do computador e da internet nos diversos segmentos sociais se concentra nos indivíduos de famílias mais ricas que moram em regiões mais ricas.

Os números mostram que 55% da população brasileira nunca usaram um computador; 16,6% da população brasileira têm um computador em casa; 30% da população brasileira usaram computador nos últimos três meses (agosto, setembro e outubro); e 13,8% da população brasileira usam computador diariamente. No que se refere ao uso da internet, a pesquisa constata que 68% da população brasileira nunca acessaram a internet; 24% da população brasileira acessaram nos últimos três meses a internet; 9,6% da população brasileira acessam diariamente a internet.

Os dados mostram que o uso da rede está claramente ligado às classes econômicas. Quanto maior a renda, mais acesso esse indivíduo terá. No que se refere ao que esses indivíduos procuram na rede, constata-se que 41% da população brasileira usam a internet para atividades educacionais; 32% da população brasileira usam a internet para fins pessoais; e 26%, para trabalho.

Democracia em xeque

Entre as principais atividades na internet por aqueles que utilizaram a rede nos últimos três meses, verifica-se que 17,21% a usaram para envio e recebimento de e-mails; 11,48%, para atividades escolares; 8,94%, para procurar informações sobre bens e serviços: 8,64%, para ler jornais e revistas; 8,48%, para enviar mensagens instantâneas; 8,04%, para procurar informações gerais; e 7,90%, para procurar informações sobre diversão e entretenimento.

Ou seja, com exceção dos indivíduos que estiveram na rede exclusivamente para enviar e receber e-mails, a enorme maioria estava atrás de informações, seja pela leitura direta de jornais e revistas, seja pela pesquisa em atividades escolares, ou para diversão e entretenimento. E tudo isso, inclusive a utilização de e-mails e mensagens instantâneas, está concentrado em grandes portais vinculados a broadcasting.

O ciberteórico Howard Rheingold aponta que a possibilidade de a comunicação mediada por computador vir a ser dominada por um reduzido número de gigantescas empresas privadas faz com que fiquem evidentes dois aspectos das sociedades online, assim classificadas por ele: a idéia de que a opinião pública pode ser manipulada e o fato de que os espetáculos eletrônicos prendam a atenção da maioria dos cidadãos e coloquem em xeque os fundamentos da democracia. Rheingold afirma que ‘a opinião pública só poderá ser formada quando existir um público que se envolva no discurso racional’.

Restrição qualitativa

Já para Jürgen Habermas, a própria história dos grandes jornais na segunda metade do século 19 demonstra que a própria imprensa se torna manipulável, à medida que ela mesma se comercializa. Habermas afirma que quanto maior é a eficácia jornalístico-publicitária de um meio de comunicação, mais vulnerável ele se torna à pressão de determinados interesses privados, individuais ou coletivos, o que fere, radicalmente, a ética da profissão de jornalista e, de certo modo, pode manipular a opinião de um grupo de indivíduos que se orienta por determinada publicação.

Por outro lado, a disseminação dos meios de comunicação de massa, em comparação com a imprensa liberal, na visão de Habermas, ganhou extensão e eficácia incomparavelmente superiores e, com isso, o que ele classifica de esfera pública se expandiu.

Dentro dessas duas visões, a internet pode ser classificada como um meio de comunicação de massa. Analisando-se os números da pesquisa do CGI.br, isso fica mais evidente. Não tanto em quantidade, mas na restrição aos formadores de opinião e à massa crítica da sociedade.

Menos navegação

No Brasil, embora apenas 10% da população, aproximadamente, utilizem a internet, essa fatia da sociedade brasileira é a principal formadora de opinião. As principais fontes de informação dos indivíduos que acessam a internet são os grandes portais, como UOL, Terra e Globo, que também pertencem a grandes broadcasting da comunicação: o UOL.com.br – é do Grupo Folha; Terra.com.br, da Telefônica, e Globo.com, do grupo Globo.

Isso faz com que as informações transmitidas à sociedade fiquem em poder de poucas pessoas, e que, como garante Rheingold, seja mais fácil manipular a opinião pública.

Esses grandes portais citados também oferecem uma série de recursos aos usuários, que encontram no mesmo lugar tudo o que procuram na rede, como programas de e-mail, de mensagens instantâneas, notícias, informações para pesquisas escolares. Isso gera menos navegação pela rede e mais concentração de internautas. Conseqüentemente, os grandes portais da internet ficam mais expostos à manipulação das informações, a partir dos interesses comerciais privados de seus proprietários, de acordo com o pensamento de Habermas. Um determinado fato contado, por exemplo, pelo UOL, que segundo as estatísticas é o portal com o maior número de acessos na internet brasileira, terá muito mais repercussão do que uma outra versão do fato – ou até mesmo outro acontecimento mais importante – noticiada por um sítio menos acessado e fora da rede de um broadcasting.

Visões e versões

O exemplo dos blogs também é muito interessante para mostrar como a atuação desses broadcasting na internet altera a forma de se compreender um fato e alterar ou formular a opinião pública. A notícia abaixo foi veiculada no sítio da Folha de S. Paulo, no portal UOL, no dia 23 de novembro deste ano.

Fernando Rodrigues e Josias de Souza lideram blogosfera brasileira

Os blogs dos jornalistas Fernando Rodrigues e Josias de Souza, ambos da Folha em Brasília, já são os líderes da internet brasileira, segundo a newsletter ‘Jornalistas&Cia’, publicação voltada para profissionais de mídia. Os dois blogs são hospedados no UOL.

A newsletter cita dados do Ibope de outubro que mostram o blog de Fernando Rodrigues em primeiro lugar da chamada blogosfera política nacional, com 182.212 visitantes únicos residenciais – ou seja, o blog foi acessado em outubro, pelo menos uma vez, por 182,2 mil computadores residenciais diferentes.

Na vice-liderança está o blog de Josias de Souza, que tem destaque diário na Folha Online. Em apenas 21 dias de existência, o blog ‘Bastidores do Poder’ bateu a casa de 113.481 visitantes únicos residenciais. Em terceiro lugar, aparece o blog do jornalista Ricardo Noblat, pioneiro dos blogs políticos, hoje hospedado no Estadão.com, que somou em outubro 88.415 visitantes únicos, segundo a newsletter.

A newsletter lembra que a medição do Ibope só contabiliza a audiência residencial e não soma os acessos feitos a partir de empresas privadas, estatais, órgãos públicos, universidades e cybercafés.

Os blogs dos jornalistas Fernando Rodrigues e Josias de Souza foram criados cerca de um mês antes dessa pesquisa ser realizada. No caso específico de Rodrigues, ele já mantinha uma página dentro dno noticiário de política do UOL não-caracterizado como blog. Já Josias de Souza realmente estreou pouco tempo antes.

Como a própria matéria aponta, o blog do jornalista Ricardo Noblat foi o pioneiro em tratar de política nacional nesse formato, e permanece, para muitos, como o de maior credibilidade no assunto. Figura, porém, somente na terceira colocação dos mais acessados. Isso mostra que não necessariamente a qualidade da informação produzida se reflete no maior número de acessos a determinado portal ou sítio. Assim, o mesmo fato tratado nos três blogs citados pode ter três visões diferentes. O que ficará mais latente na opinião popular e poderá gerar mais discussão, então, serão as versões trabalhadas pelos jornalistas hospedados no UOL, por terem mais indivíduos lendo e comentando suas notícias, nas ruas ou nos fóruns destes blogs.

Massa crítica maior

A concentração das informações na internet brasileira é prejudicial à sociedade. Embora a parcela da população com acesso à internet seja relativamente pequena, é uma parcela fundamental na formação da opinião pública. O acúmulo de notícias em poucos sítios faz com que a versão de determinado fato contada por estes sítios seja a predominante, muitas vezes se tornando a verdade absoluta. Mesmo tendo a internet um potencial enorme de abrangência e participação dos internautas, o que eles procuram na rede está nos grandes portais broadcasting.

Para isso mudar, será necessária uma maior competitividade dos atuais portais de informação, além da diversificação de serviços. O surgimento de novos veículos, com impacto, também seria salutar para melhorar o atual quadro.

A questão da inclusão digital também deve ser posta em debate. Quanto maior o número de usuários da internet no Brasil, maior será a massa crítica formada e capaz de perceber distorções em informações ou notícias geradas na rede. Com isso, de acordo com a idéia de Rheingold, os preceitos da democracia saem fortalecidos na sociedade online.

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Jornalista, Campinas, SP; www.gustavohofman.blig.com.br

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