Sábado, 23 de Fevereiro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1025
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A criança com medo de bicho-papão

Por Fernando Turri em 02/06/2015 na edição 853

Refletir sobre como a imprensa brasileira pensa em jornalismo multimídia ao produzir reportagens e conteúdos digitais é uma questão muito pertinente no século 21. A evolução da internet expande as possibilidades de formatos e ferramentas que podem ser utilizados para complementar a narrativa jornalística.

Porém, esse novo horizonte ainda é nebuloso no Brasil. Apesar das possibilidades editoriais quando se imagina matérias multimídia, elas são pouco exploradas. Entender o porquê de a imprensa brasileira produzir pouco conteúdo jornalístico nesse formato é a chave para afastar as nuvens e ir mais longe.

Presos a dois grilhões, os veículos de comunicação limitam as suas produções mais sofisticadas a esporádicas reportagens especiais. Tais conteúdos, de fato, utilizam a revolução digital ao seu favor, e não mais reproduzem modelos anacrônicos e antiquados às telas dos computadores, smartphones e tablets.

Inicialmente, o custo para se produzir uma reportagem multimídia é muito maior do que ao se produzir uma reportagem tradicional. Nesse ponto, encontramos a primeira bola de ferro que impede a imprensa brasileira de andar na direção certa. Paradoxalmente, a crise que o jornalismo tradicional enfrenta, deixando-o sem dinheiro, poderia ser resolvida com investimento em modelos de reportagens condizentes com a era digital.

“O jornalismo é um negócio”

Em um segundo momento, como um desdobramento do primeiro empecilho, a equipe de jornalistas necessária para se produzir reportagens profundas, complexas e, principalmente, com várias plataformas, deve ser especializada. Os profissionais devem dominar o vídeo, a foto, a captação do áudio, além da edição do material e o texto. Organizar, amarrar a narrativa e contar a história com maestria, também requer qualidade humana, além do equipamento diversificado.

O tempo despendido para produzir esse conteúdo, além da quantidade de pessoas envolvidas, é outro fator que dificulta a realização. Essa necessidade de mais tempo e pessoas vai contra a realidade atual. Prova disso é que, em abril de 2015, mais de 100 funcionários do Grupo Estado foram demitidos.

É necessário ter em mente que a empresa jornalística precisa ser economicamente sustentável. A Teoria Organizacional pode ser utilizada para entender essa questão. Felipe Pena define a profissão de maneira mercadológica.

“O jornalismo é um negócio. E, como tal, busca o lucro. Por isso, a organização está fundamentalmente voltada para o balanço contábil. As receitas devem superar as despesas. Do contrário, haverá a falência da empresa e seus funcionários ficarão desempregados” (PENA, 2005: 135).

Custo financeiro

Intimamente ligada à Teoria Organizacional, e que afeta a produção de reportagens multimídias da mesma forma, a Teoria Newsmaking define o processo pela qual a matéria passa, desde a pauta até a edição. Pena também estabelece alguns pressupostos para analisar a profissão.

“O processo de produção da notícia é planejado como uma rotina industrial. Tem procedimentos próprios e limites organizacionais. Portanto, embora o jornalista seja participante ativo na construção da realidade, não há uma autonomia incondicional em sua prática profissional, mas sim, a submissão a um planejamento produtivo” (PENA, 2005: 129).

Tendo como base essas duas teorias jornalísticas, é possível entender a causa da dificuldade que o jornalismo multimídia enfrenta no Brasil. Para a produção da reportagem “Rota 66: a confissão” [http://infograficos.estadao.com.br/especiais/rota-66-confissao/ (acesso: 26 de maio de 2015)], publicada no Estadão, foram envolvidos 41 profissionais, entre jornalistas, programadores e designers envolvidos. Esse número representa um alto custo financeiro para a empresa jornalística, além de modificar o processo industrial de produção de notícias enraizado nas redações, já que se trata de um material especial.

Adaptação à era digital

A reportagem multimídia realizada pela Folha de S.Paulo intitulada “A Batalha de Belo Monte” [http://arte.folha.uol.com.br/especiais/2013/12/16/belo-monte/ (acesso: 26 de maio de 2015)], contou com cinco enviados especiais para a região amazônica. Diferentemente do primeiro exemplo, apesar de um número menor de jornalistas envolvidos, eles estiveram fora da redação. Os custos, nesse caso, englobavam o deslocamento e a manutenção dos profissionais em viagem. Além disso, no caso do destacamento de jornalistas da redação para produções especiais, o trabalho de cobertura das notícias diárias deve ser suprido da mesma forma.

O jornal estadunidense The New York Times foi, certamente, um dos primeiros veículos a fomentar o formato multimídia no mundo. Em 2012, produziu Snow Fall [http://www.nytimes.com/projects/2012/snow-fall/#/?part=tunnel-creek (acesso: 27 de maio de 2015)] e, em 2013, um exemplo de seu trabalho é A Game of Shark and Minnow [http://www.nytimes.com/newsgraphics/2013/10/27/south-china-sea/ (acesso: 27 de maio de 2015)]. Da mesma forma, o jornal britânico The Guardian também investe no formato, como é o caso da reportagem NSA Files: Decoded [http://www.theguardian.com/world/interactive/2013/nov/01/snowden-nsa-files-surveillance-revelations-decoded#section/1 (acesso: 27 de maio de 2015)].

A saída para dar vida ao jornalismo multimídia é justamente investir no modelo. Se um dos motivos da crise do jornalismo está ligado à forma como ele se adaptou, ou melhor, não se adaptou de forma satisfatória, à era digital, fomentar a reportagem multimídia é aproximar o jornalismo do século 21.

Referência

PENA, Felipe. Teoria do Jornalismo. São Paulo: Contexto, 2005

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Fernando Turri é aluno do terceiro semestre de Jornalismo

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