Sábado, 16 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

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A lição do imperador

Por Sebastião Jorge em 20/01/2009 na edição 521

O presidente Lula tem o direito e motivos para não gostar de ler. Menino pobre, nascido no distrito de Caetés, município de Garanhuns (PE), desconhece o hábito prazeroso e enriquecedor da leitura, provavelmente pela pobreza, quando criança. Devia ocupar o tempo com outros afazeres práticos e úteis. Estudar e ler não passava de luxo, superficialidade, longe de se tornar auto-suficiente em casa, rodeado de irmãos.


Com mais idade, a família migrou para a cidade grande, São Paulo, em busca da sorte, a exemplo de muitos brasileiros, na ilusão de se arrumar na vida. Arranjou emprego no ABC paulista, numa fábrica de automóveis. Tornou-se líder operário, com um verbo inflamado e posições radicais contra o regime militar. Ninguém o segurou e terminou preso, acusado de ato subversivo. Nada mais a acrescentar. O resto é de domínio público.


Lula nunca gostou de ler: nem revistas em quadrinhos nem dos livrinhos de ‘literatura de cordel’, que tratam das desilusões amorosas, do pobre e do rico, do político e do diabo. Livros, para quê? E muito menos jornais. Por estes sente ojeriza, principalmente quando criticam o governo. Com fé e sem piedade, abre o coração e se queixa do estômago, ao sentir crises de ‘azia’ quando abre as páginas dos jornais. Faz uma confissão, a qual se tem que admirar pela sinceridade, singular e sem rodeios, dada ao jornalista Mario Sergio Conti, da revista piauí [ver ‘Azia, ou o dia da caça‘, na revista; e a íntegra em ‘Presidente com azia da imprensa‘, neste Obsevatório].


‘Quem leu tudo, levante a mão’


‘Tenho uma preguiça desgramada de ler.’


Gostei do popular e esquecido desgramado (que no dicionário do Houaiss é um adjetivo e significa desgraçado). Logo existe e não tem nada com algum neologismo, cujas palavras nascem da criatividade do povo e ficam para enriquecer a língua.


É ou não um gesto de sinceridade do Lula? Sem dúvida. Mais que isso, humildade. Uma humildade que humilha e decepciona. Sua Excelência poderia usar o recurso de certos intelectuais que, ao falarem de sua formação cultural, não economizam elogios. Levantam num auto-esforço de afirmação ao pintar um quadro positivo de suas leituras. Geralmente feitas na juventude e vão buscar clássicos, sobre os quais só ouviram falar, como Homero, Ovídio, Virgílio, Erasmo, Cervantes, Rousseau, Voltaire etc. E, ainda hoje, continuam lendo Faulkner, Kafka, Tolstoi, García Márquez, Saramago e tantos outros. Italo Calvino, esse grande escritor nascido em Cuba e que muitos pensam ser italiano, tem uma tese a propósito do assunto:




‘(…) Pode ser uma pequena hipocrisia por parte dos que se envergonham de admitir não ter lido um livro famoso. Para tranqüilizá-los, bastará observar que, por maiores que possam ser as leituras `de formação´ de um indivíduo, resta sempre um número `enorme´ de obras que ele não leu.


Quem leu tudo, de Heródoto e de Tucídides, levante a mão.’


Trinta jornais na cabeça


Apesar de Lula falar a verdade e todo brasileiro ter conhecimento do desinteresse pelos livros, dói ler ou ouvir uma declaração daquele tipo, ainda, mais sendo S. Exa. a primeira autoridade da República. É um péssimo exemplo à juventude e a qualquer cidadão de cultura média. Poderia ter lido ou ouvido falar, pelo menos, em Monteiro Lobato, que tantos serviços prestou ao país, inclusive defendendo o nosso petróleo.


Que não lesse em criança é compreensível, mas o fizesse adulto, coroado líder sindical e presidente da República. Valeria a pena. A aversão aos livros entende-se, deve-se ao hábito. Quanto aos jornais, é idiossincrasia pelas bobagens que fala e as críticas procedentes que rejeita, a exemplo do que faz o seu colega da Venezuela, Hugo Chávez, o carrasco da mídia do seu país e das liberdades individuais. No Brasil de hoje, apesar das tentativas do governo e apaniguados no Congresso Nacional, não há ambiente para amordaçar a imprensa.


Excluindo alguns prazeres da vida, que dão sentido a um viver feliz, a leitura de um bom livro libera tensões, transmite alegria, é companheira fiel, acalma e adormenta, nos faz sonhar e mostra realidades de que jamais tomaríamos conhecimento. Não há melhor companhia nas horas de solidão.


O chefe da nação não apenas desaprecia os livros como faz apologia ao concitar outros presidentes da República (o Chávez faz escola) a não lerem os jornais, com este conselho: ‘Afastem-se da imprensa’. Não teve cerimônia ao afirmar que se informa apenas pelo que lhe falam, com este argumento: ‘Um homem que conversa com o tanto de pessoas que eu converso por dia deve ter uns trinta jornais na cabeça todo santo dia’.


Lição pouco aprendida


A posição adotada não condiz com a democracia no amplo sentido. A imprensa não passa de um instrumento capaz de fortalecer os laços entre o governo e a sociedade. A sua participação é indispensável, não apenas para elogiar o que merece ser elogiado e criticar o que deve ser criticado, isto quando se trata de assunto de interesse público. É através dos jornais que o presidente da República e os cidadãos tomam conhecimento do certo e errado, o que é preciso corrigir e realizar, em nome do interesse coletivo. Só a imprensa tem essa força de levar longe a mensagem, que deve conter a verdade. No Palácio, os assessores dão apenas as notícias boas e, pelo visto, vivemos no melhor dos mundos.


Quem deu belo exemplo sobre a convivência dos jornais com o poder foi D. Pedro II, quando imperador do Brasil, apesar dos ataques que invadiam a privacidade. Tinha como hábito ler os jornais da Corte e das províncias. Por meio deles, tomava providências e talvez fosse esse um dos motivos para ter ficado cerca de 50 anos à frente da monarquia.


Apesar das restrições da Constituição sobre a liberdade de informar, nunca mandou punir um jornalista. Deixou esta lição, que poucos aprenderam: ‘A imprensa se combate com a imprensa.’

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