Sexta-feira, 23 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº975

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A mídia e as eleições americanas

Por Lilia Diniz em 03/09/2008 na edição 501

Faltam dois meses para as eleições americanas e a mídia internacional já está voltada para a disputa. A corrida pela Casa Branca normalmente mobiliza a imprensa de todo o mundo, mas a conjuntura do próximo pleito chama ainda mais a atenção. Pela primeira vez na história dos Estados Unidos, um negro tem chances reais de se eleger para o cargo. O pré-candidato republicano John McCain enfrentará nas urnas o democrata Barack Obama, já confirmado por seu partido.


O Observatório da Imprensa exibido terça-feira (2/9) pela TV Brasil e pela TV Cultura discutiu como os meios de comunicação americanos e brasileiros cobrem a disputa e de que modo os candidatos usam a mídia para conquistar votos. Participaram do debate ao vivo Rubens Barbosa, que foi embaixador do Brasil em Washington, no estúdio de São Paulo; o cientista político David Fleischer, em Brasília, e no Rio de Janeiro o jornalista Argemiro Ferreira.


Na coluna A Mídia na Semana, o jornalista Alberto Dines comentou o excesso de pesquisas de intenção de voto no Brasil. ‘Como são vários os institutos de pesquisa e os resultados variam de dia para dia, o eleitor que gosta de votar em quem está ganhando está perdido. Melhor votar em quem parece o melhor’, alertou.


O outro tema da seção foi o grampo instalado no telefone no presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes. A revista Veja publicou a transcrição da escuta clandestina vazada por um agente da Agência Brasileira de Inteligência (Abin). Para o jornalista, a divulgação de trechos de conversas sigilosas tem grande repercussão, mas ‘rende poucas verdades’.


De olho na Corrida pela Casa Branca


‘Neste ano temos o privilégio de participar de um verdadeiro curso de ciência política porque estas presidenciais americanas são as mais importantes desde a escolha de John Kennedy, em 1960. As primárias, os debates dentro do partido democrata e a surpreendente ascensão de Barack Obama exibem a vitalidade do processo democrático mesmo num país que há sete anos está em franca decadência’ destacou Dines no editorial. O jornalista ressaltou que George w. Bush venceu as eleições ‘num golpe de mão’, mas que a escolha de Barack Obama ocorre em uma sociedade avançada.


Ainda antes do debate ao vivo, a reportagem mostrou a opinião de José Eduardo Barella, editor de Internacional de O Estado de S.Paulo. O jornalista comentou que as próximas eleições têm características diferentes das anteriores como, por exemplo, os dois candidatos serem praticamente desconhecidos dos leitores brasileiros. Com perfil diferente dos políticos americanos tradicionais, Barack Obama surgiu no noticiário nacional recentemente.


O jornalista Caio Blinder avaliou que na campanha presidencial americana a mídia ‘corre atrás’ dos fatos. Logo após ter se rendido à eloqüência do candidato democrata depois da convenção de Denver, foi surpreendida pela escolha da governadora do Alasca, Sarah Palin, como o vice de McCain na chapa republicana. Blinder comentou que o ‘velho soldado’ McCain foge da sombra do impopular presidente George W. Bush e quer provar que é capaz de jogadas arriscadas.


Racismo ainda não superado


Para David Fleischer, o preconceito racial nos Estados Unidos já é menor que no passado, mas não está superado. Já há uma aceitação da integração dos grupos afro-americanos no país. Governadores, prefeitos, deputados e senadores negros foram eleitos depois da década de 1960, período em que a questão dos direitos civis americanos foi amplamente debatida. Para Fleischer, Barack Obama adota um discurso ‘pós-racial’ para tentar unir segmentos de toda a sociedade.


O embaixador Rubens Barbosa avaliou que Obama está em uma posição confortável porque critica a atual política econômica americana, ponto fraco da campanha de McCain. O democrata repete a plataforma política do partido: aumento dos impostos, equilíbrio das finanças públicas e investimentos na saúde e na previdência social. Na opinião do embaixador, um ponto negativo da campanha é que até o momento, a discussão ficou restrita às diferenças de personalidade dos candidatos. Barbosa acredita que a partir da escolha do candidato republicano os pontos vulneráveis das plataformas sejam analisados.


A mídia americana, para Argemiro Ferreira, está repetindo o comportamento que adota em períodos eleitorais: ora avança, ora recua. Mas a grande diferença seria a presença maciça da internet e a grande atividade dos blogs. O jornalista explicou que os blogs podem ser ‘levianos’, por isso estão sempre ‘na frente’. Ferreira comentou que hoje diversos blogs previram que a candidata à vice na chapa republicana será substituída. Para o jornalista, se a especulação se confirmar será ‘mais uma vitória dos blogs’.


A plataforma política e social de Obama


David Fleischer citou que um dos pontos defendios por Obama é a retomada do seguro saúde para todos os americanos. Cerca de 30% da população não têm nenhum tipo de cobertura médica. Na área de energia, a plataforma de Obama também diverge da política republicana. O democrata pretende acabar com o déficit externo do petróleo dos Estados Unidos ao longo dos próximos 15 anos. Deseja adotar políticas públicas com outras alternativas de energia. Para o americano médio que paga caro pela gasolina, a medida seria benéfica. O candidato também pretende reverter a crise econômica das hipotecas. Com essas ações, marcaria a diferença do governo de George W. Bush.


Dines perguntou a Rubens Barbosa se a simpatia e a retórica de Obama seriam suficientes para garantir a vitória. O embaixador não acredita que apenas o carisma do candidato conquiste o voto dos eleitores dos Estados Unidos. Na disputa pelas vagas no congresso americano, a vantagem do partido democrata sobre o republicano é grande, cerca de dez pontos, e pode aumentar com uma vitória de Obama. Já a diferença entre os dois candidatos é pequena. ‘Ainda há, no fundo, um resquício racial muito forte em algumas regiões dos Estados Unidos’, avaliou.


A diferença de pontos entre os partidos e os candidatos seria uma consequência do ressentimento racial: ‘A presença do Obama incomoda em muitas áreas. Por isso, ele não está refeltindo essa vantagem grande que o partido tem sobre os republicanos’. Obama teria que orquestrar um grande esforço para conquistar o voto em estados onde não há tradição democrata. Nesse quadro, a participação da militância seria essencial.


Jornais americanos divididos


Argemiro Ferreira identificou uma ‘dúvida’ dos jornais em relação a apoiar Obama. O jornalista acredita que o ‘resquício racial’ identificado pelo embaixador contribua para o quadro. Um exemplo da ambigüidade seria a rede de comunicação comandada pelo magnata Rupert Murdoch. A emissora Fox News estaria ‘furiosamente’ contra o candidato democrata, mas Murdoch disse em entrevista a um jornal que ‘talvez irá votar no Obama’.


Para Argemiro Ferreira, o jornal americano The New York Times está fazendo uma cobertura equilibrada desde o início do processo eleitoral. Mas apesar de ser assumidamente democrata, a folha ‘tem um profundo respeito por McCain’. O jornalista criticou o fato de a grande imprensa tratar o candidato republicano como um herói de guerra e não mostrar o outro lado da questão. Os veículos não comentariam, por exemplo, as informações de que MacCain, durante a Guerra do Vietnã, teria bombardeado áreas civis.


O cientista político David Fleischer comparou a liberdade de imprensa nos Estados Unidos e no Brasil. O sigilo da fonte de uma informação é uma garantia constitucional para os brasileiros. Mas nos Estados Unidos, em menos de dois anos, o governo de George W. Bush pressionou jornalistas em duas ocasiões para que revelassem fontes. Por outro lado, seria de difícil implementar nos Estados Unidos uma iniciativa que cerceasse o uso da internet, como vem sendo debatido no Brasil.


Perfil dos participantes:


Rubens Barbosa foi embaixador do Brasil em Washington por cinco anos. Ocupou diversos cargos no Governo brasileiro e no Ministério das Relações Exteriores. Escreve regularmente em O Estado de S. Paulo e O Globo. É autor de três livros e hoje é consultor de negócios.


David Fleischer, cientista político, é professor emérito da Universidade de Brasília, onde trabalha há 35 anos. Norte-americano naturalizado brasileiro, tem 20 livros publicados.


Argemiro Ferreira é jornalista e correspondente internacional para jornais e emissoras de TV e rádio. Cobriu cinco eleições presidenciais nos EUA. Escreve uma coluna diária de política internacional para a Tribuna da Imprensa desde a década de 1980. Publicou os livros Caça às Bruxas – Macartismo: Uma Tragédia Americana e O Império Contra-Ataca – As guerras de George W. Bush antes e depois do 11 de setembro.


 


***


A oportunidade da mudança


Alberto Dines # editorial do Observatório da Imprensa na TV nº 476, no ar em 2/9/08


A cada dois anos temos eleições em outubro. Nos Estados Unidos, o intervalo é o mesmo, mas a data é novembro. Quando os americanos escolhem o seu presidente, as comparações entre os dois processos eleitorais são fascinantes.


Neste ano, temos o privilégio de participar de um verdadeiro curso de ciência política porque estas presidenciais americanas são as mais importantes desde a escolha de John Kennedy, em 1960.


As primárias, os debates dentro do partido democrata e a surpreendente ascensão de Barack Obama exibem a vitalidade do processo democrático, mesmo num país que há sete anos está em franca decadência.


George W. Bush foi eleito num golpe de mão não muito diferente de uma republiqueta. A escolha de Barack Obama desenrola-se numa sociedade avançada, super-desenvolvida, talvez única no mundo, ainda que as sombras do onze de setembro ainda não tenham se dissipado.


Qualquer que seja o resultado, tanto lá como aqui, o importante é lembrar que todas as eleições são importantes, desde que sejam levadas a sério, desde que sejam vistas como oportunidades de mudança.

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