Quarta-feira, 18 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1055
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A mídia e o preconceito
contra os homossexuais

Por Ligia Martins Almeida em 23/06/2009 na edição 543

Nós brasileiros sempre nos orgulhamos – especialmente quando na comparação com outros países – de não sermos preconceituosos. Mas a própria imprensa, que ignora o assunto, talvez achando que não há motivo para discutir o que ‘não existe’, mostra que a realidade é outra. Na semana passada, duas notícias desmentiram essa imagem do ‘homem cordial’ de que nos orgulhamos tanto.


A primeira notícia foi a morte, depois da Parada do Orgulho Gay, de um rapaz que foi espancado ainda não se sabe por quem. O rapaz era gay, era negro e segundo seus amigos, nem participou da parada. A notícia foi dada pela imprensa, mas não com a ênfase merecida. O Estadão de sábado (20/06/09) publicou a versão oficial dos fatos: ‘A Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi) passou a investigar ontem a morte do chef de cozinha Marcelo Barros, de 35 anos. A vítima foi espancada logo após a Parada Gay e morreu na Santa Casa de São Paulo três dias depois. Segundo a Secretaria de Segurança Pública, o inquérito instaurado na 1ª Delegacia Seccional Centro como lesão corporal seguida de morte passou para as mãos de Margarete Barreto, titular da Decradi. A principal linha de investigação é que grupos neonazistas de white powers estejam envolvidos, intolerantes a gays, negros, nordestinos e judeus. Foi justamente um grupo com essas semelhanças que foi visto por testemunhas perto de uma estação do metrô após o crime.’


Homofobia e insanidade


Além dos fatos oficiais, a imprensa noticiou também que seus amigos pretendiam fazer uma manifestação pedindo justiça. E ficou por aí. A insanidade, a homofobia, o crime, ao que tudo indica, não comoveram ninguém. Afinal, o morto não era uma celebridade que merecesse perfil, entrevistas com amigos, acompanhamento do velório e enterro, prática comum quando o morto é alguém conhecido.


Mas talvez a segunda notícia – publicada no mesmo Estado de São Paulo dois dias antes (18/06/09) sirva para explicar esse aparente descaso com negros e homossexuais. Uma pesquisa feita a pedido do Inep e da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade (do MEC) concluiu: ‘99,9% dos entrevistados tem algum tipo de preconceito e mais de 90% gostariam de manter algum nível de distanciamento social dos portadores de necessidades especiais, homossexuais, pobres e negros.’


O economista José Afonso Mazzon, responsável pela pesquisa, diz: ‘A pesquisa mostra que o preconceito não é isolado. A sociedade é preconceituosa, logo a escola também será. Esses preconceitos são tão amplos e profundos que quase caracterizam a nossa cultura.’


A boa notícia é que O Ministério de Educação pretende agir, através de cursos, contra o preconceito. Mas, como diz um dos organizadores da pesquisa, ‘são ações que demoram em ter resultados efetivos’.


Admitir que o problema existe e precisa ser combatido, já é um primeiro passo. Os resultados com certeza seriam muito mais rápidos se a imprensa deixasse de lado a hipocrisia e começasse a fazer a sua parte na luta contra os preconceitos. Se – a cada vez que um homossexual, um negro, um pobre, uma mulher ou uma criança for agredido por ser quem é – a imprensa tratar o assunto com a indignação devida, ou, pelo menos, fizer matérias que vão além do registro policial, estará, com toda a certeza, cumprindo com mais eficiência o seu papel, denunciando e combatendo o preconceito.

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