Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

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A nossa banda é 1.0

Por Vinícius Cherobino em 29/03/2011 na edição 635

Uma das vantagens que as cidades oferecem, em particular para os negócios, é a facilidade de conexão entre as pessoas. As telecomunicações multiplicam essa facilidade. Felizmente, já vai longe o tempo em que os brasileiros não dispunham sequer de uma rede básica de telefonia – hoje, o número de celulares supera o de habitantes. Porém, na etapa mais recente dessa evolução, a da conexão rápida pela internet, o Brasil, mesmo em suas maiores metrópoles, como São Paulo e Rio de Janeiro, está muito atrasado. E isso compromete a economia.

Um estudo feito pelo Banco Mundial indica que 10% mais de penetração da banda larga pode gerar crescimento econômico adicional de 1,4 ponto percentual. Ou seja, caso contasse com uma banda larga de qualidade, o Brasil poderia crescer mais e a uma velocidade maior.

No mundo urbanizado de hoje, a internet é simplesmente imprescindível – em especial para as empresas. Ninguém mais concebe enviar um contrato a um cliente e esperar de três a cinco dias úteis para recebê-lo de volta pelo correio. Nas corporações globais, praticamente todos os processos acontecem pela rede. E a conexão precisa ser cada vez mais veloz. ‘Nossos maiores clientes, como o McDonald´s, administram, dentro de uma sala, negócios espalhados em 100 países. Ali eles precisam receber dados do mundo todo à velocidade da luz e a internet rápida é o caminho para isso’, diz o francês Thierry Giraud, presidente da operação brasileira da Sage, uma das maiores fornecedoras de aplicativos de gestão empresarial do mundo. ‘Nos grandes centros brasileiros, isso ainda é um problema.’ A oferta de internet de qualidade também é decisiva para que uma cidade atraia os melhores profissionais. Hoje, um executivo escolhe trabalhar onde quiser, desde que exista uma boa infraestrutura de banda larga. Cidades sem esse serviço – universalizado e rápido –, portanto, perdem a competitividade na disputa tanto por pessoal de alto nível quanto por investimentos.

Redes até 1.000 vezes mais rápidas

No cenário geral de indicadores da internet, o Brasil apresenta um quadro deplorável. Embora 84% da população viva nas áreas urbanas, 76% dela – 145 milhões de pessoas – está fora do mercado de internet. No ranking dos 133 países mais conectados, elaborado pelo Fórum Econômico Mundial, a Suécia é líder e o Brasil ocupa a 61ª posição. Dos 47 milhões de brasileiros conectados, só 60% contam com banda larga e 20% ainda sofrem com a velha internet discada. O brasileiro paga caro por essa qualidade sofrível. A União Internacional de Telecomunicações, órgão das Nações Unidas, situa o Brasil como o 70º entre 161 países no ranking de preços da banda larga fixa.

O crescimento do 3G, a banda larga fornecida por celular, até agora não mudou significativamente o cenário da conectividade nas cidades brasileiras. Em 2010, segundo o SindiTelebrasil, entidade que reúne as operadoras de telefonia, o número de usuários do 3G passou de 4 milhões para 14,6 milhões. Mas são comuns as reclamações sobre as frequentes zonas de sombra, quando é impossível conseguir conexão. Também nesse caso o preço é outro problema. Um levantamento feito por analistas das Nações Unidas indica que apenas o Brasil e o Zimbábue têm o preço médio do pacote de dados mensal em 3G acima de 120 dólares. A média mundial é de 46,5 dólares mensais nos 78 países avaliados.

Por essas e outras, ainda estamos na fase 1.0 da banda larga, com velocidade média de 1,3 megabit por segundo. Lá fora, muitos países implantam redes 100 e até 1.000 vezes mais rápidas, com velocidade que permite baixar um filme em poucos segundos. Isso só é possível com uma infraestrutura de fibra óptica, ainda uma raridade por aqui – na maioria das cidades do Brasil, as redes continuam a ser de cobre. Por tudo isso, consertar a banda larga nas cidades brasileiras não será tarefa simples nem barata.

Velocidade de 1 gigabit a 70.000 residências

De acordo com um levantamento feito pelas consultorias PwC e Urban Systems para Exame, apenas para prover as nove maiores cidades do Brasil com rede de fibra óptica que substitua os velhos cabos de cobre e permita alcançar o atual nível médio de acesso dos Estados Unidos seriam necessários investimentos de 19 bilhões de reais.

Stephen Wilson, analista do instituto britânico Informa Telecoms & Media, afirma que, pelas dimensões do Brasil, os recentes avanços obtidos pela Rússia, país com área, população e recursos de mesma ordem de grandeza, podem ser um exemplo. O caminho do governo russo foi aumentar a competição via entrada de pequenas operadoras no mercado. ‘A atuação das operadoras de pequeno porte é intensa e ampliou a oferta do serviço. Além disso, a competição diminuiu os preços’, diz Wilson.

Mas há países muito mais avançados do que a Rússia em termos de conectividade. Na corrida tecnológica, a ponta é disputada por Coreia do Sul, Estados Unidos, Japão e Suécia. A Coreia promoveu a expansão do índice de penetração do serviço de menos de 40% da população em 2000 para 81% em 2010 – e com velocidades que chegam a 100 Mb por segundo, 100 vezes a média brasileira. Hoje, basta entrar num táxi em Seul para notar o que isso possibilita no dia-a-dia – todos contam com vários dispositivos ligados à internet. Nos Estados Unidos, a cidade de Chattanooga, no estado de Tennessee, com cerca de 200.000 habitantes, é a primeira a oferecer banda larga com velocidade de 1 gigabit por segundo a todas as suas 70.000 residências e empresas. O serviço, por meio de fibra óptica, é provido por uma operadora controlada pelo município.

Uma batalha de lobbies

Enquanto nada disso acontece por aqui, pelo menos alguns passos podem ser dados na tentativa de prover nossas metrópoles com uma maior conectividade. A banda larga no Brasil pode ser estimulada também por um projeto de lei em tramitação no Senado. Se aprovado, permitirá a abertura do mercado de TV a cabo para operadoras de telecomunicação. Com isso, os investimentos na infraestrutura de fibra óptica se tornarão mais interessantes para empresas que buscam receitas adicionais à internet, caso da TV a cabo, um serviço de característica urbana por excelência.

Por ora, o projeto de lei está sob uma batalha de lobbies entre governo, operadoras de telefonia e televisões abertas. Enquanto se desenrolam as disputas, a maior parte do país continua longe do acesso à banda larga. Um problema e tanto para os negócios de nossas cidades – e para a economia do país.

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