Sexta-feira, 19 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1033
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A revolução dos aplicativos

Por Federico Rampini em 14/09/2010 na edição 607

‘A web está morta’. Esse é a provocativa manchete do último número da revista Wired, ‘a Bíblia da Internet’, revista mensal norte-americana de propriedade da Condé Nast.

‘Você acorda de manhã e, sem se levantar da cama, controla os seus e-mails no seu iPad. Você está usando um app, um aplicativo. Durante o café da manhã, dá uma olhada na sua página do Facebook, do Twitter e nas últimas notícias do New York Times. São todos apps. A mesma coisa quando, no carro, você ouve música do seu iPod ou do iPhone, depois no escritório usa o Skype para telefonar para um amigo do outro lado do mundo. No fim, você terá passado o dia usando a internet, mas não mais a ‘rede’ aberta, livre. Você se tornou o frequentador de muitos jardins fechados.’

Chris Anderson lançou uma provocação intitulando a capa da Wired: ‘A web morreu. Longa vida à internet’. Ele me recebeu em San Francisco, South of Market, na sede histórica da revista que foi um símbolo da New Economy (os números de 1999 e do ano 2000 eram tão grossos como uma lista telefônica, tamanha era a quantidade de publicidade) e que hoje renasceu para uma segunda vida. ‘Assim como a Internet – observa – que está entrando em uma nova fase revolucionária. As revoluções industriais têm ciclos, e encerrou-se um para a rede’.

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O leigo sofre para distinguir Internet e Rede, embora use todas as duas. O título da Wired é sobre a morte da web.

Chris Anderson – Há poucos anos, tudo parecia girar em torno do browser: você ligava o seu computador, clicava no ícone do Internet Explorer ou do Firefox, e abria-se a possibilidade de navegar. Depois, você escolhia o sistema de busca Google, e a sua exploração continuava, em mar aberto. O deslocamento, em pouco tempo, foi drástico e foi arrastado pelo sucesso da nova geração de celulares como o iPhone, depois dos tablets, dos leitores digitais como o iPad. Os consumidores preferem-lhes por causa da facilidade que oferecem: é a tela que vem ao seu encontro, oferecendo-lhe aquilo que você pré-selecionou com base nos seus interesses, não é mais você que deve se aproximar da tela e ir à busca. Obviamente, os app usam sempre a internet como meio de transporte, mas não te dão aquela liberdade de escolha que você tinha com o browser. São muitas redes de propriedade de alguns, muitas vezes com pedágio de ingresso.

Quer dizer que, em troca da comodidade, estamos renunciando à nossa liberdade?

C.A. – É inevitável. Eu sou uma criatura da web, a minha história aqui em San Francisco está ligada a esse instrumento aberto. Mas é o consumidor quem decide, e o consumidor está dizendo que quer um serviço veloz, fácil, que seja ativado com a ponta dos dedos. Dentro de cinco anos, o número de usuários que terão acesso à internet pelos seus celulares irá superar o número de quem usa o computador. O veredito é claro. Mesmo que amemos a liberdade de escolha, queremos ter uma vida fácil, queremos serviços eficientes e confiáveis ao alcance das mãos. Naturalmente, isso não significa que o browser irá desaparecer. Assim como os e-mails não fizeram com que as cartas postais desaparecessem…

A passagem do browser aos apps comporta transformações profundas do business online, no modelo econômico, e nas relações de força entre os gigantes do setor. Acelera-se a concentração: em 2001, os primeiros 10 sites atraíam 31% dos usuários. Hoje, capturam 75%. O modelo Facebook, que pré-seleciona para você a experiência de navegação com base nos seus interesses, ameaça a supremacia do Google.

C.A. – É o ciclo do capitalismo, é a história das revoluções industriais que se repete. Nasce uma nova tecnologia, ela se difunde, florescem 100 flores, depois alguém encontra o modo de se adonar dela, de cercar o jardim. A internet hoje está começando a ser uma série de jardins cercados. A web aberta vai permanecer, mas como uma exceção, sempre menos usada. Mais uma vez: é o usuário que vai nessa direção. A internet completa 18 anos de nascimento, e o sabor da novidade quase já se gastou. A nossa sede de descoberta se atenua, já que, intelectualmente, nós da West Coast, apreciamos a abertura e a liberdade, no fim também queremos ter a vida fácil. Isto é, as escolhas pré-feitas, os apps que ativamos passando o dedo sobre a tela do celular ou do iPad. Ou a nossa página do Facebook, que cremos ter projetado à nossa imagem e semelhança, na medida dos nossos gostos e dos nossos amigos.

Os apps de celular são fáceis de usar, mas não vão acabar consumindo informação sempre mais despedaçada, em formatos reduzidos que devem entrar na tela de um celular?

C.A. – A fragmentação era um risco maior na era anterior, a do browser. Usando um sistema de busca como o Google, acabávamos percorrendo tantos lugares como pássaros, recolhíamos aqui e lá muitos pedacinhos de conteúdo gratuito, de modo atomizado. Quando eu uso o iPad, pelo contrário, me detenho longamente no conteúdo de um jornal. Os apps reconstroem um contexto, o fio de um discurso. Enquanto na web sobrevoávamos velozmente sobre tudo, agora paramos mais longamente para absorver os nossos conteúdos preferidos no iPhone. Estamos em uma transição da era do multitasking, em que fazíamos muitas coisas por vez (telefonávamos olhando para a tela do computador) a um monotasking. A nova geração de tablets, leitores digitais, nos levam à concentração. Ou, em uma única frase: passamos menos tempo procurando e mais tempo encontrando.

A nova era tem consequências profundas também para quem produz conteúdos: informação, cultura, jornais, livros. Conhecemos as regras do império do Google, que aspirava a gratuidade dos conteúdos e depois enriquecia vendendo espaços publicitários um pouco em todos os lugares. Agora, o novo modelo é o da Apple, em que os conteúdos são pagos.

C.A. – E se descobre que os consumidores preferem pagar 99 centavos para baixar uma música no iTunes, mesmo se, perdendo um pouco de tempo e cansando um pouco, pudessem encontrá-la grátis em outros lugares. Sim, a ‘morte da web’ livre e gratuita significa uma mudança de paradigma para o mundo das mídias. Antes, o conteúdo online era gratuito e atraía ganhos publicitários graças à grande confluência de visitantes. Agora, estamos em plena transição para o freemium que é a combinação de gratuito e de premium: oferecemos amostras gratuitas, para atrair o consumidor a um conteúdo muito mais interessante e gratificante, pago. É o modelo iPad, uma plataforma rica, de alta qualidade, em que o conteúdo gratuito é limitado. No momento em que o acesso à Internet se transferiu da sua escrivaninha para o teu bolso, a natureza do meio mudou. O caos delirante foi a fase adolescente da web.

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Do La Repubblica (6/9/2010), com tradução de Moisés Sbardelotto

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