Quarta-feira, 13 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

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A sacralidade dos novos ícones

Por Valério Cruz Brittos e Denis Gerson Simões em 29/12/2009 na edição 570

Os aparelhos digitais ganharam novos formatos e muitos se transformaram em verdadeiros amuletos. A tecnologia digital não está mais só no espaço imóvel. Está no bolso dos casacos, presa à cintura e como adorno pendurado nos pescoços, constituindo-se em pequenos eletro-eletrônicos portáteis. São os ícones do presente?

Nos transportes coletivos urbanos – ônibus, metrô, trem ou lotação – não há dificuldades em localizar indivíduos falando ao telefone celular, ouvindo música através de iPods (ou similares), olhando fotografias registradas em câmeras fotográficas digitais, portando à mostra pen drives, ou realizando múltiplas tarefas a partir de aparelhos multifuncionais de pequeno porte.

Novos tempos? O que se tem consciência é que se trata de novos hábitos de consumo, tanto de equipamentos eletro-eletrônicos, quanto de disseminação de bens simbólico-culturais (como no caso de músicas e informações), motivados por valores da sociedade capitalista. São equipamentos que, além de sua função prática, são também ressignificados, ganhando status de ornamento, distintivo social e, mesmo que instintivamente, valoração mítica.

É visto claramente na atualidade que as tecnologias digitais se libertaram das bases fixas. Ganharam mobilidade, embora ainda sejam de uso recorrente os computadores domiciliares, caixas automáticos de bancos ou sistemas de segurança. Hoje a tecnologia de base digital está em diversos produtos, disseminada no cotidiano de pessoas de todas as idades, ultrapassando inclusive barreiras de classe social (logicamente com especificidades de tipos, modelos e consumos).

Soma do pensamento útil

São pequenas peças que contêm em si grandes cargas de informação e possibilidades, sendo parte tanto do mundo do trabalho quanto do lazer. Comportam-se como novos amuletos dotados de poder, levados por seus possuidores em bolsos, pastas, cintas ou expostos junto ao corpo. Um misto de zelo e ritualística, oscilando conforme prevaleça o desejo de expor sua posse ou a preocupação com a segurança.

Não obstante muitas vezes sejam ações despretensiosas dos usuários, estas novas apropriações dos símbolos de tecnologia não estão isentas de intencionalidade. Há uma procura por satisfação e diálogo com esses novos ícones, algo que transcende o uso utilitário, construindo uma relação mítica, numa sacralidade contemporânea. Em tempos onde a razão da lógica científica depara com movimentos de retomada de extremismos religiosos, isso não soa estranho. A sociedade busca sentidos ao seu complexificado cotidiano e adere a novos amuletos e emblemas de poder, revestidos de outros valores.

Com os avanços no mercado tecnológico, a tendência é que gradativamente este cenário torne-se mais amplo. Não contraria a lógica capitalista; ao contrário, é sintoma de seu grau de exacerbação, como processo civilizatório fornecedor de mitos da atualidade. Não estaria longe do pensamento trazido por Joseph Campbell, no livro O poder do mito (25a ed. São Paulo: Palas Athena, 2007), de que são ações dos indivíduos para harmonizar a vida com a realidade. Neste caso, não pode ser pensado como mentira ou ilusão, pois é muito real para cada pessoa, sendo, como aponta Mircea Eliade, em Mito e realidade (6a ed. São Paulo: Perspectiva, 2007), a soma do pensamento útil.

Realidade de caráter econômico-simbólico

A questão que se faz presente é a utilização pelo mercado desses ícones de tecnologia e seus significados na coletividade. Tal processo enfatiza a crença que a inovação é um movimento natural e progressivo, chegando a atribuir a objetos sinônimos de prosperidade. É a indústria cultural atuando não só no consumo, mas também numa sacralidade do consumo, o que o reforça. No momento em que se apresentam fortes criticas a incorporação da mídia por grupos religiosos, com seu conseqüente financiamento, esta temática renova-se, já que também se refere ao uso de crenças a fim de atuar sobre a expansão idolatrada ao consumo.

De toda forma, este contexto também se mostra uma característica das novas metamorfoses do pensamento simbólico na atualidade, o qual ganhar falsa materialidade através de equipamentos digitais. Pela primeira vez o homem elabora uma tecnologia onde é possível armazenar em outro mundo, o mundo virtual, seus desejos, pensamentos, angústias e sonhos. Em áreas físicas pequenas e não antes imaginadas tem-se condições de guardar uma infinidade de dados. Com o advento dos softwares mudaram percepções sobre distância e tempo. Não é difícil, neste cenário, comparar a simbologia de um amuleto, que armazena poder, e de um pen drive, que guarda informação. Abriram-se novas oportunidades da sociedade dialogar com o espaço imaterial e seus efeitos ainda estão em transcurso.

Então, o que esperar quando esta base tecnológica for ampliada? O advento do processo de mudança do sinal televisivo, de analógico para digital, mostra tendências de uma maior aproximação dos indivíduos ao mundo virtual, o que provavelmente atuará no comportamento e nas formas de pensar o cotidiano, ante a centralidade social da TV. A própria mobilidade dos novos televisores pode gerar novas sacralidades. Trata-se de um fenômeno que evidencia o forte grau de mediação entre a lógica do mercado (caracterizado por escassa regulamentação) e a das práticas culturais. Cabe à sociedade saber reorganizar-se frente a esta realidade não natural e de forte caráter econômico-simbólico.

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Respectivamente, professor titular no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da Unisinos e mestrando no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da mesma instituição

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