Segunda-feira, 19 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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A web emburrece?

Por Rafael Cabral em 24/08/2010 na edição 604

Algumas mídias alteram só certos aspectos da vida. Mudam o trabalho ou a diversão. Outras vão além. Mudam quem somos, o que e como pensamos, e até o que significa ser humano em determinada época. Pense nos mapas, nos livros, nos jornais e em tudo o que causaram quando surgiram.

Para o jornalista Nicholas Carr, não há como fugir: somos e sempre seremos espelhos de nossas mídias. O que precisamos entender, segundo ele, é que nem todas essas revoluções vêm para o bem.

Se a prensa de Guttenberg possibilitou a difusão do conhecimento e o livro nos deu uma mente mais racional, a internet estaria no caminho oposto. ‘Nos últimos anos venho tendo uma desconfortável sensação de que alguém, ou algo, está mexendo no meu cérebro, remapeando circuitos neurais e reprogramando minha memória’, descreve, preocupado, no começo de The Shallows – What the Internet is Doing to Our Brains (Os Superficiais – O que a internet está fazendo aos nossos cérebros), recém-lançado nos EUA e sem previsão de chegar por aqui. No livro ele argumenta que a rede emburrece, que esvazia o homem.

A web criou um congestionamento de informação que, ao contrário desse da foto de fundo, não tem fim e nem quilômetros estimados. Quanto mais embrenhado nele, menor a capacidade de focar em apenas uma coisa. Texto longos, densos e profundos? Nem pensar, e não só costume. O grande tempo dedicado a pular de link para link para link e fazendo várias tarefas ao mesmo tempo pode estar afetando os caminhos neurais, mudando a maneira como reagimos às informações e como as arquivamos. Mesmo com acesso a todo o conteúdo do mundo, cada vez absorveríamos menos.

Nossos cérebros são moldáveis. Têm o que os especialistas chamam de neuroplasticidade, uma reorganização das redes de neurônios. Isso quer dizer que a mente muda de acordo com o uso, o que na maioria das vezes é visto como algo bom para manter o órgão saudável. Mas seria essa mesma característica, diz Carr, que estaria nos tornando reféns da lógica dispersa da internet. A mente cada vez mais se parece com a navegação: caótica, poluída, impaciente e sem rumo.

E isso não depende tanto da qualidade do que é acessado. No longo prazo, as características da plataforma importam mais do que o conteúdo que ela veicula. São elas que deixam marcas no modo de raciocinar. ‘Mídias populares moldam o que vemos e como vemos. Eventualmente, se as usarmos o bastante, elas mudam o que somos como indivíduos e sociedade’, explica.

O principal problema, para Carr, é que não somos multitarefa. Para ele, a capacidade intelectual se expressa melhor quando dedicada a uma tarefa só. Com o MSN piscando e tweets atualizados a cada minuto, a internet estaria matando uma condição fundamental para a reflexão: a atenção. Sem ela, é impossível imergir em um filme ou na leitura de um romance.

Carr não é avesso a inovações, como pode parecer. Passou a vida inteira como jornalista de tecnologia, tem blog e é especialista em computação em nuvem e tecnologia da informação. No livro A Grande Mudança (Editora Landscape, 2008), compara a virtualização, em importância, com a eletricidade. Sua questão, lá e cá, é discutir as mudanças na sociedade. Sua mais nova obra, como ele mesmo explica na entrevista abaixo, feita por e-mail, não é alarmista. Só um manifesto por mais calma, mais foco e menos deslumbramento.

***

É a primeira vez que o cérebro é afetado por uma mídia de forma tão rápida e impactante? Ou isso já aconteceu no passado?

Nicholas Carr – Sim, já aconteceu. As ferramentas que nos ajudam a pensar – buscando, armazenando, analisando e compartilhando informação – influenciam a maneira como pensamos. Podemos comprovar que isso é verdade se traçarmos a influência dessas tecnologias na história intelectual da humanidade. No final das contas, a internet não traz nada de novo nesse quesito, tirando que a usamos para tantas tarefas intelectuais. E é por isso que acredito que ela está forçando o maior impacto nas nossas mentes desde a criação do livro.

Você escreve que ‘a internet só é entendida se colocada como a mais recente de uma série de tecnologias que ajudaram a moldar a mente humana’. Quais são essas outras tecnologias e por que a internet tem efeito diferente?

N. C. – No livro, dou alguns exemplos dos efeitos das primeiras tecnologias no intelecto. O mapa, por exemplo, promoveu uma forma mais abstrata de pensamento. Sua ênfase era em uma representação do mundo e dos arredores, em vez de uma percepção sensorial direta. O relógio mecânico, dividindo o tempo em parcelas mensuráveis, nos deu uma mente mais científica. Já o livro encoraja a filtrar distrações e a focar a atenção em apenas uma coisa por longos períodos. Isso nos deu uma mente mais atenta, literária. A internet tem um efeito diferente, até oposto ao do livro. Ela nos inunda com distrações e interrupções, nos encoraja a ir de um lugar para o outro a toda hora. Esse modo dispersivo, baseado na própria navegação, nos fez menos capazes de pensar atentamente, de contemplar e refletir.

Em um artigo publicado no Link, o psicólogo Steven Pinker criticou o seu conceito e disse que a web representa apenas mais uma de tantas distrações. Aprenderíamos com o tempo a lidar com ela. Ele está errado?

N. C. – Ele fez uma análise superficial e que ignora completamente evidências científicas recentes sobre os efeitos maléficos de fazer mais de uma ou várias coisas ao mesmo tempo. Como ele, acredito que estamos nos adaptando às distrações da internet. No entanto, essa mudança nos faz menos capazes de prestar atenção.

O cérebro de uma pessoa mais jovem, em desenvolvimento, é mais maleável. As crianças são mais suscetíveis aos efeitos negativos da internet?

N. C. – Eu não vejo isso em gerações, pois a internet tem os mesmos efeitos em crianças e adultos. Mas é verdade que, se o cérebro de adultos também é maleável, o das crianças é muito mais. Se uma criança se desenvolveu intelectualmente em meio às distrações constantes das mídias digitais, é possível que ela nunca crie a habilidade de ser atenta e focada.

Sua afirmação de que o Google nos deixa estúpidos abriu o debate que culminaria no seu novo livro. Um estudo da Universidade da Califórnia, porém, descobriu que fazer buscas aumenta a atividade cerebral, que chega a ser maior do que aquela registrada na leitura de um livro.

N. C. – Esse estudo mostrou que quando fazemos buscas sucessivas na web, a área do cérebro responsável por resolver problemas, o córtex pré-frontal, se ativa. Isso pode ajudar a manter o cérebro exercitado e ativo – mais ou menos o mesmo efeito das palavras cruzadas. Ao mesmo tempo, a web propõe tantos problemas que isso pode, também, dificultar a leitura ou o pensamento profundo sobre uma só coisa. Fico com a frase de Gary Small, líder dessa pesquisa: ‘Mais atividade cerebral não quer dizer melhor atividade cerebral’.

‘Quando ficamos online, entramos em um ambiente que promove a leitura superficial, o pensamento apressado e o aprendizado superficial’, você diz no novo livro. Isso é verdade para todos? Não é mais um problema de atenção e de disciplina, que pode variar de pessoa para pessoa?

N. C. – Não. Eu acredito que é uma regra, uma lógica inerente a essa mídia e válida para todos. Vários estudos de hipertexto, multimídia, multitarefa e também aqueles sobre o comportamento de leitores online indicam que sacrificamos a compreensão, o entendimento e o aprendizado verdadeiro quando entramos na aceleração e no consumo apressado de informação na web.

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