Quarta-feira, 17 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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A praga dos googlectuais e wikieruditos

Por Luciano Martins Costa em 30/10/2007 na edição 457

A mídia anda infestada de uma praga, gerada e disseminada na internet, aparentemente imune aos defensivos tradicionais. São parasitas oportunistas que grudam na casca dos órgãos de imprensa, se alimentam do noticiário e inoculam na opinião pública interpretações de encomenda, invariavelmente calcadas na matriz ideológica que define o núcleo editorial da mídia a que se incorporam. Sua forma mais comum de apresentação é o blog, mas também encarnam em colunas e artigos e, eventualmente, se combinam entre essas variadas formas e a correspondência por e-mail ou através dos comentários ao pé de conteúdos jornalísticos.


Essencialmente, esses parasitas podem ser classificados em duas cepas: a mais comum, dos googlectuais, e outra de incidência mais rara, a dos wikieruditos, que mesclam sua atuação na imprensa com incursões no universo acadêmico. Ambos os grupos podem ser identificados pela emissão constante de sinais exteriores de conhecimento, mas a qualidade que melhor os caracteriza é o senso de oportunidade, sempre manifestado no estilo agressivo das patologias que afetam os organismos vulneráveis.


Nossa jovem democracia é um desses ambientes vulneráveis, onde a ética – que tem no sistema imunológico sua melhor metáfora – não encontra nas instituições públicas e nas entidades privadas de interesse público, como a imprensa, suas melhores referências. Esses parasitas atuam no organismo social sempre no limite da responsabilidade. Nesse sentido, pode-se até dizer que têm uma faceta benigna, por constituirem uma espécie de prova de resistência das defesas democráticas.


Entre as duas cepas, a dos wikieruditos é a menos agressiva. Costuma se instalar nas bancas de pós-graduação de algumas faculdades, no corpo das teses e em suas avaliações, é encontrada com freqüência em publicações acadêmicas e prolifera na rede de computadores. Seu efeito mais maléfico é agregar ao agente transmissor valores que ele de fato não possui, o que pode no máximo influenciar carreiras e distorcer o resultado de concursos públicos. Produz um brilhareco de erudição que se extingue com uma leitura mais acurada de seu produto.


Falso brilho


A outra espécie, a dos googlectuais, é mais danosa para a democracia e para a boa educação da sociedade, porque costuma parasitar a imprensa, apropriando-se de sua credibilidade para catalizar opiniões e influenciar os debates públicos. Sua prática mais comum é bombardear os blogs com artigos e comentários recheados de citações pseudoeruditas e invariavelmente agressivas contra aqueles que expõem opiniões divergentes às da matriz ideológica predominante na chamada grande mídia.


Os googlectuais não se entregam aos debates pelo prazer de esgrimir idéias. Eles atuam no sentido de arregimentar correligionários para seu viés, pela desqualificação agressiva do oponente. Exibem o falso brilho de uma erudição fast food construída ao instante, em consultas rápidas ao Google. Têm como ídolo e modelo o falecido colunista Paulo Francis, o que não representa necessariamente uma homenagem a ele. Francis, ao contrário desses imitadores, era um leitor voraz de livros de verdade.


A lendária agressividade verbal de Francis se reproduz no universo dos googlectuais como o gesto humano entre os símios. Sem o estofo que seu ídolo construiu em uma vida inteira de estudos e produção intelectual, eles se resumem à realimentação contínua das controvérsias, das quais nunca brota uma idéia conclusiva, porque seu único objetivo é a controvérsia em si, não o conteúdo. A qualquer ameaça de esfacelamento de suas teses, sempre no extremo do conservadorismo e da resignação ao status quo, agitam a ‘ola’ de ruidosos correligionários, cujos comentários são reproduzidos como referendo às idéias que não encontraram epílogo em si mesmas.


Também existem os googlectuais de ‘esquerda’, reconhecíveis pela linguagem viciada e por certo messianismo na repetição de mantras libertários. Igualmente autoritários, estes, porém, têm o discurso diluído no infinito horizonte do inconformismo sem esperança de conciliação com a realidade. Em um e outro lado desse impossível dueto de surdos, pontificam afirmações de uma auto-suficiência intelectual que é freqüentemente uma ficção. A mais comum delas, que segue sempre uma citação, é a afirmação: ‘lido e catalogado’, como se bastasse ao autor afirmar que leu tal obra citada para que o leitor o considere intelectualmente qualificado.


Em geral, é mentira. A citação pode ser facilmente rastreada no Google, como fazem os professores ao verificarem a autenticidade dos trabalhos de seus orientandos, e as pistas estão sempre no próprio texto que o autor pretende referendar. A rigor, trata-se apenas da velha e conhecida desonestidade intelectual, agora potencializada pelos recursos da web 2.0 e temperada por algum talento performático. Pura micagem, destinada ao efêmero da memória randômica.

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