Sábado, 16 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

E-NOTíCIAS > SOCIEDADE DE CONSUMO

A questão de uma moralidade certa

Por Paulo Bento Bandarra em 20/11/2007 na edição 460

Tropa de Elite teve o mérito de, além de produzir uma obra de grande repercussão, estimular as discussões em várias áreas. Ainda não vi, e nem sei se a verei, visto ter tanta coisa para nos deleitarmos no cinema. Mas a minha análise não é sobre a violência ou sobre o filme. Afinal, a realidade existe independente de desejarmos ou de procurarmos ignorá-la, ocultando-nos como uma avestruz. Mas sobre a matéria do ‘Consumidor também é influenciado pelo conteúdo‘, dada neste Observatório. Não pretendo discutir a correspondência entre Freud e Einstein sobre as origens da violência, pois me parece que foram dois homens do século 20 que não tinham muito conhecimento para tal. Atribuir as guerras a motivações pessoais pode fazer parte da mitologia, mas não do materialismo histórico, por assim dizer. Opiniões pessoais não revelam muito. Veja a do prêmio Nobel James Watson, há poucas semanas. Ser pacifista, como são os amish, é fácil quando seus não irmãos estão dispostos a defender a liberdade dos mesmos sem exigirem nada em troca. Pode-se ser contra a violência quando outros tomam em suas mãos esse compromisso. Tanto que os mesmos emigraram para os EUA, onde a sua cultura poderia ser preservada sem as perseguições que sofriam na sua terra de origem. Se bastasse a atitude pessoal não beligerante, poderiam ter ficado nos mesmos locais e prosperado lá.

É melhor peça mostrando a luta contra o crime do que ‘óperas’ teatrais mostrando a vitória do socialismo sobre o mundo livre encenadas nos teatros da Rússia e da China. Criações revolucionárias visando à lavagem cerebral e a promover o ufanismo do coletivismo castrador.

Museu de fracassos

Assim, a análise da posição da mídia como um produto que procura a excelência e que o consumidor a seleciona não é, de fato, errada. Não devemos, de saída, refutar que os modelos de mídia dirigida pelo Estado ou pela religião, alegados donos do bem, interesses coletivos e das boas intenções, nunca levaram a bom termo esse anseio popular do leitor. É verdade que informação transcende a opinião, pois ela deve ser a mais próxima da realidade e quanto menos o agente da mídia usar dos seus valores, melhor produto pode dar ao leitor que consome essa informação e paga por ela se lhe agrade. Mas, por outro lado, é esperado que ao leitor sem tempo de ler tudo, de ver todas as fontes e na maioria das vezes desprovidos de formação na área, ele deseje que o veículo de informação faça para ele esta tradução. Essa interpretação de quem vive da notícia e não está vendo a primeira vez.

Quem domina, nesta relação? O agente ou o leitor? Parece-me claro que o leitor é o ditador. Ele pode ser enganado por algum tempo, mas não pelo tempo todo, pois o seu objetivo é pessoal, é para si, e não se moldar à propaganda. Nós temos a falsa impressão de julgar tudo pelo hoje, aqui e agora, como se tudo tivesse ficado imutável. Mas a realidade não é essa no mundo econômico. Apenas no mundo totalitário do socialismo, os membros do partido são vitalícios e ocupam os lugares-chave na sociedade, fracassem ou promovam desastres continuados. Na democracia e no capitalismo não é assim. Basta olhar para uma rua, se possuir uma memória modesta, para analisar quantas firmas estavam ali há dois, cinco, 10 ou 30 anos para ver que os negócios não são eternos. Da mesma forma os produtos mudam em uma velocidade grande, selecionados não pelo empresário, mas pelo consumidor. É só ir a um museu de idéias e produtos que fracassaram para ver que coisas de que já nem nos lembrávamos lá estão no meio de uma imensidão de companheiros de destino. Quem achar que se manterá no mercado mentindo ou mantendo produtos que o consumidor vai descobrir mais cedo ou mais tarde que não quer, está fadado a falir.

O bem e o mal

O contrário, a permanência por estoicismo de um produto rejeitado, só é possível pela falta de opção e o mesmo ser essencial. O que mais uma vez nos remete à possibilidade de ocorrer apenas em sistemas totalitários socialistas.

Mas alguns pensam que se pode influir nesta relação promovendo uma abreviatura deste processo, cultivando coisas boas e eliminando as ruins para o consumidor mais rápido, dentro dos valores de combater o hedonismo, a pornografia e estimular os valores familiares. Afinal, é o bem que todos desejam. É a paz que todos almejam, com pessoas boas e úteis no nosso mundo, cultivadores dos valores construtivos e altruístas. Não existe maior hedonismo do que a prática do aborto voluntário. Apenas para se divertir.

Por acaso, encontrei esta notícia na semana passada sobre o tema, de quem considera estes valores como obrigação de ser perseguido pelo bem do Estado: ‘Irã lança lista negra e reforça combate a `vícios morais´‘. Onde podemos aprender a fragilidade de conceitos como bem e mal.

Educação de qualidade

Ricardo Camargo diz que estes valores estão na Constituição Federal de 88 e no Código de Defesa do Consumidor. Não duvido que estejam na Constituição do Irã e nas suas leis também!. A questão não é esta. A questão é que a lei não representa, na verdade, as pessoas. Assim como achamos absurdo proibir uma mulher de trabalhar ou não poder usar uma roupa que deseje, assim também aqui ocorreria se a opinião de uma ‘elite moral’ para promover esse alegado enfrentamento aos vícios humanos do consumo, sexo, vida livre, seja lá o que poderíamos considerar fora de padrão correto para os membros da sociedade. E estaria amparado na lei. Afinal, o que um cara tem que fazer em cima de um parapente? A verdade é que estes são ideais que se opõem à diversidade e a pluralidade humana. Em nome de um suposto abuso, a opressão dos valores de uma maioria, ou como nos ensina a nossa milenar história da censura, acaba se eliminando a liberdade que promove a evolução de idéias, de produtos, de serviços e de formas familiares. Na minha vida existia a proibição de comer carne na sexta-feira santa, jogar pedra na Geni era esporte, mulher trabalhar em teatro era sinônimo de meretriz, mulher trabalhar fora era feio e ser desquitada era sinônimo de vagabunda. Para alguns, prova de uma decadência moral. Foram avanços estimados para as pessoas que puderam contar com maior liberdade e opções de vida para decidir. Vamos parar por quê?

Não vou citar Delacroix, mas a minha mãe, que será mais bem entendida pelas pessoas comuns. Repetia ela, baseada no dito popular, que ‘de boas intenções o inferno está cheio’. No que pese podermos realmente estar certos, sempre corremos o risco de não termos toda a verdade, ou pior, estarmos errados. Assim como nós não assistimos a Tropa de Elite, não lemos a Veja ou não vemos novelas, devemos dar o direito aos outros que possam tomar estas decisões por si, pelas suas idéias, sem ter que serem tutelados pelos valores alheios. A solução será sempre através da educação de qualidade.

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Médico, Porto Alegre, RS

Todos os comentários

  1. Comentou em 25/11/2007 Ricardo Camargo

    Ainda deixando pendente o exame do Corão (no qual, embora não seja eu versado, tenho o mesmo interesse que Bronislaw Malinowski teve em relação aos ritos dos torbriandeses), Paulo Bandarra, no que tange ao exemplo da Kombi, penso, antes, que ele mostra que nem nos EUA se crê mais no princípio liberal clássico da ‘ditadura do consumidor’. Tanto que, quando se fala em class actions, não se está a referir a atuação dos denominados movimentos sociais, associações em protestos, passeatas ou coisa semelhante, mas sim daquilo que é o embrião do que se denomina ‘ações coletivas’, medidas processuais que se deduzem perante o Poder Judiciário, com a possibilidade de serem acolhidas ou rejeitadas. Por outro lado, a Rússia, há mais de quinze anos, veio a se converter ao capitalismo e, no entanto, vem a ser colocada a pergunta concernente ao Volga, e talvez pudesse ser recolocada, em relação à Ucrânia – terra de nascimento de um dos meus autores preferidos, Joseph Conrad -, em relação a Chernobyl. A questionabilidade dos atos do poder, público ou privado, eocnômico ou político, será própria do capitalismo ou da democracia?

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