Domingo, 25 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº975

E-NOTíCIAS > CINEMA & TELENOVELA

Abrindo terreno para a política-caveira

Por Gabriel Priolli em 23/10/2007 na edição 456

Era um risco e vai se tornando realidade. A tematização, pelo cinema e a televisão, do combate ao crime encastelado nas favelas, deslocando-o de seu cenário habitual – e inócuo – do jornalismo, seja ele o policial ou o político, põe o debate sobre a segurança pública no país em novos termos. Novos e preocupantes.


Agora, a cidadania já não forma opinião baseada somente no noticiário criminal, em geral burocrático e estatístico, da imprensa ‘séria’, nem na histeria irracional e oportunista da imprensa ‘sensacionalista’ Também não se alimenta, apenas, das doutas considerações dos sociólogos, psicólogos, juristas e afins, que pululam nas páginas de opinião dos jornais e revistas, e nos comentários do rádio e do telejornalismo.


Agora há também, para alicerçar a opinião pública, um punhado de personagens ficcionais, calcados em tipos reais, carregados de verossimilhança e plausibilidade, mais ‘verdadeiros’ do que parecem os seres descritos na crônica policial, mais complexos e integrais na mescla de razão e emoção com que percebem o mundo (como os demais humanos). Heróis ou vilões, aí estão eles influenciando o cidadão e suas idéias sobre o combate ao crime e à violência.


Soluções de força


O fenômeno Tropa de Elite já foi devidamente dissecado, por incontáveis analistas, no potencial regressivo que demonstra, de despertar o sadismo das platéias e reforçar em boa parte delas a crença em soluções de força para a tragédia social brasileira. Certamente era o oposto que seus realizadores desejavam, mas não são mais fatos isolados, numa sessão de cinema ou outra, as manifestações de júbilo e gozo do público com as atitudes do Capitão Nascimento (Wagner Moura), do aprendiz André Matias (André Ramiro) e demais torturadores-fuzileiros que estrelam o filme. Jovens deixam os cinemas cantando os hinos de guerra desses policiais que se pretendem soldados, e correm a comprar objetos e roupas que ostentam seu signo revelador, a caveira. Entregam-se ao culto macabro dos justiceiros fardados, piamente convictos de que é à bala que se enfrenta a criminalidade.


Também retratados no filme, os debates universitários sobre crime e violência, as ações sociais das ONGs e as manifestações de rua pela paz são claramente desqualificados como ingênuos, alienados e mesmo hipócritas, posto que seria a classe média a responsável última pelo crime, na medida em que consome drogas e sustenta o aparato econômico-militar em torno delas, seja para o seu comércio, seja para a repressão. Não há qualquer razão, portanto, para a identificação das platéias com os personagens que encarnam esse lado do problema. Não é de estranhar que o público divirta-se com cenas de extrema brutalidade contra eles, como na surra aplicada pelo aspirante Matias no universitário que distribui maconha na faculdade, ou no diretor de ONG queimado vivo por traficantes.


O poder público, habitualmente inepto no enfrentamento da criminalidade, percebe a tendência regressiva e vai na onda, usando o fuzil em vez da cabeça. Afinal, são eleitores os que regozijam-se com a violência e, como se sabe, é mau negócio contrariá-los, mesmo longe das eleições. Daí que o governo do Rio de Janeiro não apenas autoriza operações bélicas totalmente irresponsáveis nas favelas da Rocinha, Dona Marta e Coréia, como se mostra indiferente à sorte das vítimas ‘civis’. Uma criança de 4 anos ser trespassada por um tiro de fuzil, dentro de sua casa, não é mais do que um ‘dano colateral’ no nobre combate armado à bandidagem. Qualquer vivente sabe com que facilidade as balas atravessam as precárias paredes das moradias populares, mas o risco não é suficiente para inibir a insana estratégia de provocar tiroteios em favelas.


Tolerância zero e Duas Caras


Culpar Tropa de Elite, exclusivamente, pelo recrudescimento da ‘tolerância zero’ no enfrentamento da criminalidade, seria leviano e equivocado. A opinião pública se forja por um conjunto de fatores e mesmo o espetacular sucesso do filme, já um fenômeno de massas, não explica tudo. Convém jogar também no caldeirão de referências oferecido ao juízo da cidadania um outro produto cultural, de influência indiscutível: a novela das nove da TV Globo. O que temos nela de preocupante, a estimular a percepção pública crescente de que o crime se resolve por meios extra-legais?


Em Duas Caras, novela de Aguinaldo Silva dirigida por Wolf Maia, desponta um curioso personagem de nome Juvenal Antena, interpretado por Antonio Fagundes. Ex-segurança de uma construtora que vai à falência e deixa todos os empregados sem receber, torna-se líder e ‘protetor’ dos peões, invadindo um terreno da empresa para formar nele uma nova comunidade, a favela da Portelinha. Os anos se passam, a favela torna-se um bairro gigantesco e o poder de Juvenal apenas se fortalece, fazendo dele o ditador de todas as leis e todas as regras, que incluem deliberar sobre o comportamento privado dos moradores e mesmo suas relações afetivas.


Juvenal é um ‘chefe de morro’, o traficante rico e armado até os dentes, que distribui benesses e terror com igual desenvoltura na comunidade? Não, abomina traficantes e criminosos em geral. Então ele é um chefe de milícia, um policial afastado ou em atividade que reúne um grupo armado, expulsa os bandidos da área e ‘oferece’ segurança aos moradores, em troca de pagamento ‘espontâneo’ pelo serviço prestado?


Também não, ele abomina armas e não cobra nada de ninguém.


Juvenal é um líder comunitário bastante autoritário, com práticas de poder ambíguas, que mesclam populismo sedutor e uma violência dissimulada, que o telespectador não vê, mas intui, pela atitude sempre impositiva e ameaçadora do personagem. A novela nos mostra que, graças à sua ação heterodoxa, a Portelinha transformou-se em exemplo de comunidade ordeira, livre do crime e da violência, a ponto de suscitar o interesse de jovens documentaristas – iguais aos jovens universitários de Tropa de Elite, também bem-intencionados, ingênuos e incoerentes, embora não lhes seja possível acender nenhum baseado no horário nobre da Globo, enquanto conjeturam sobre as suas responsabilidades sociais.


O Estado não está ausente da Portelinha. Não se vê posto de saúde, carro de polícia ou outros indicativos da presença estatal, mas há em cena o deputado estadual Narciso Tellerman (Marcos Winter), aliado de Juvenal, obviamente eleito graças aos votos da comunidade popular. O Estado se faz presente na novela, portanto, pelo que oferece de pior à população, o conluio interesseiro de políticos com líderes comunitários controladores de currais eleitorais. Tellerman admite os métodos ‘pouco convencionais’ do cacique favelado, mas nem por isso deixa de atuar com ele, nem lhe passa pela cabeça que comunidades efetivamente livres do crime não deveriam carecer de protetores, de ‘pais de todos’, para exercer a sua liberdade.


Se o Estado é reduzido à mera politicagem, as ONGs também apanham em Duas Caras. Numa cena emblemática, socialites procuram Juvenal Antena para oferecer a doação de agasalhos aos pobres favelados. Mas não o fazem por compaixão e sim porque concorrem a uma viagem a Paris, paga por organização internacional, onde mostrarão o seu case de ação social. É esse o grau de compromisso e seriedade que Aguinaldo Silva enxerga em ONGs ‘picaretas’, as quais pretende espicaçar outras vezes ao longo da novela.


Caldo de cultura para o autoritarismo


E é assim que vai engrossando o caldo de cultura para a adoção de políticas autoritárias de segurança pública. Obras influentes do cinema e da televisão glamurizando policiais e líderes comunitários ‘durões’, ridicularizando organizações que procuram atuar num meio social deteriorado e carente, deixando de enfatizar que o Estado deve se fazer presente com políticas de promoção humana, não de carnificinas.


Produtores, autores e diretores protestam inocência e dizem que tratam apenas de ‘mostrar a realidade como ela é’. Mas a realidade é que, a cada dia, o terreno está mais livre para a ética do chumbo quente. Terreno limpo para ‘deitar corpo no chão’.

******

Jornalista

Todos os comentários

  1. Comentou em 13/07/2010 oliverio costa

    Olá, sou um assíduo leitor e ouvinte do Observatório da Imprensa e por essa razão venho sugerir seu rico e estimado conteúdo em formato de podcast. Assim, muitas outras pessoas, como eu, podem aproveitar melhor e de forma mais prática as suas matérias.

    Parabéns à equipe e continuem com esse belo trabalho, de um jornalismo sério e de opinião sensata – que afinal, é uma de suas maiores características!

    Abraço a todos!

  2. Comentou em 29/10/2007 Julio Prado

    Gabriel o Reinaldo Azevedo é assim mesmo. Como as idéias dele são absurdas que só cabem nos ouvidos dos conservadores da veja quando ele se evolve em debates públicos sempre Fica desqualificando os interlocutores ao invés de debater idéias. A direita é anti demicratica por natureza.

  3. Comentou em 27/10/2007 Jésica Vicente

    O sistema está formado e corrompido.
    Carnificinas ou ONGs só teriam efeito se realmente assumidos como programa oficial e a longo prazo. Eis a questão da rigidez eficaz: não de conduta, mas de ‘vestir uma camisa’.
    Enquanto continuar essa salada de ‘faço a minha parte’, sem reconhecimento do Estado, nenhum esforço de nenhuma ‘parte’ será suficiente.
    Os adeptos de ONGs ou de carnificinas não devem ser condenados. São esperançosos que acreditam em seus ‘remédios’ propostos para o caos de nossa triste realidade.

  4. Comentou em 27/10/2007 Thiago Conceição

    Os únicos inimigos do Brasil são a esquerda e bolivarianos hispanófilos em geral.

  5. Comentou em 27/10/2007 Thiago Conceição

    Os únicos inimigos do Brasil são a esquerda e bolivarianos hispanófilos em geral.

  6. Comentou em 24/10/2007 Leonardo Lani de Abreu

    Caro Thiago: Você, que diz que os esquerdistas deviam ir para o hospício, deve amar o capitalismo, tanto que declarou que sonha com uma Ferrari. Pois a ética do capitalismo é servir leite com soda cáustica. Beba seu leitinho tranqüilo enquanto te sacaneiam, porque eles só se preocupam com o lucro. Graças a Deus temos aqueles que vigiam.

  7. Comentou em 24/10/2007 MAURÍCIO ANTUNES ARIEDE

    Concordo com a professora Flávia, quem garante que não seremos vítimas de torturas ou prisões arbitrárias? Os espancamentos e mortes mostrados no filme são semelhantes aos praticados pela ditadura militar contra ‘suvbversivos’, ou seja, ao invés de gritarem ‘maconheiro FDP’ falavam ‘comunista FDP’.
    Fábio Konder defende que, com a ‘anistia ampla e irrestrita’ de 1979, a tortura foi institucionalizada, foi aceita como algo normal e necessário no sistema; daí a reação do público ao ver espancamentos, torturas e mortes: se é bandido tem que apanhar e morrer. Problema resolvido!! Rápido, eficiente e vingativo!
    Realmente é assutadora esta constatação e é este o ponto-de-vista que compartilho com a cara professora: quem deu a polícia o direito de julgar, espancar e matar a revelia? E se de repente torna-se ilegal pensar ou seguir determinada ideologia, seja de direita e esquerda, será este o tratamento que receberão os novos clandestinos do sistema? Lembro de um poema de Bertold Brecht onde é dito que quando os crimes acontecem como a chuva que cai, ninguém mais percebe, pois eles se tornaram parte do cotidiano.
    A reação das platéias ao assitirem o filme mostra isto: que a violência já se tornou rotina e que é normal torturar e matar sem julgamento.

  8. Comentou em 24/10/2007 MAURÍCIO ANTUNES ARIEDE

    Concordo com a professora Flávia, quem garante que não seremos vítimas de torturas ou prisões arbitrárias? Os espancamentos e mortes mostrados no filme são semelhantes aos praticados pela ditadura militar contra ‘suvbversivos’, ou seja, ao invés de gritarem ‘maconheiro FDP’ falavam ‘comunista FDP’.
    Fábio Konder defende que, com a ‘anistia ampla e irrestrita’ de 1979, a tortura foi institucionalizada, foi aceita como algo normal e necessário no sistema; daí a reação do público ao ver espancamentos, torturas e mortes: se é bandido tem que apanhar e morrer. Problema resolvido!! Rápido, eficiente e vingativo!
    Realmente é assutadora esta constatação e é este o ponto-de-vista que compartilho com a cara professora: quem deu a polícia o direito de julgar, espancar e matar a revelia? E se de repente torna-se ilegal pensar ou seguir determinada ideologia, seja de direita e esquerda, será este o tratamento que receberão os novos clandestinos do sistema? Lembro de um poema de Bertold Brecht onde é dito que quando os crimes acontecem como a chuva que cai, ninguém mais percebe, pois eles se tornaram parte do cotidiano.
    A reação das platéias ao assitirem o filme mostra isto: que a violência já se tornou rotina e que é normal torturar e matar sem julgamento.

  9. Comentou em 24/10/2007 Yves Damacena Galvao Galvão

    O povo quer ações rápidas do governo e o governo tá dando isso a qualquer custo, mas com certeza deve ser quase impossível invadir uma favela e não ocorrer troca de tiros.
    Todo mundo sabe que os governos passados são os cupados por isso, já que quiseram esquecer essas pessoas e fingir que não existiam.
    O Sistema é todo errado, os assassinos da menina Gabriela que foi morta no metro já estão soltos, ai quando o povo ver isso, pensa o que? É claro que vão querer que vão desejar que eles tivessem sido executados pela polícia quando foram presos.
    Imaginm o Rio daqui uns 10 anos para frente?….

  10. Comentou em 23/10/2007 Eduardo Alex

    Mais um comentário de um dos cabeças-de-cuco…

  11. Comentou em 23/10/2007 Marcelo P. Pereira

    E o quê o autor do texto sugere? Esconder nossas mazelas? Esteorotipar somente os ‘da direita’? Fazer o ‘controle social’ obrigando as obras a seguirem o politicamente correto estabelecido por alguns ‘iluminados’? Santo Deus! Com jeitinho este pessoal acaba reavivando a censura…

  12. Comentou em 23/10/2007 LEONARDO CANDIDO BASTOS

    Excelente artigo. Excelente análise. É o ápice da imbecilidade dizer que as ações de segurança pública devem ser à margem do Estado de Direito. Só cretinos ou ignorantes defendem isso. Dizer que o respeito aos direitos e garantias individuais é “coisa de esquerda” – francamente… Ou pior: que é obstáculo para a solução dos problemas da criminalidade – meu Deus!!! Valer-se do sectarismo e do maniqueísmo é pugnar por mais violência e ineficácia. É dar vazão à vingança, ao ódio e a irracionalidade.

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem