Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

E-NOTíCIAS > JORNALISMO EM TEMPOS DE INTERNET

Ainda sobre googlectuais e wikieruditos

Por Luciano Martins Costa em 06/11/2007 na edição 458

Uma proporção considerável entre os observadores que comentaram o artigo, publicado na semana passada, sobre a proliferação dos googlectuais e wikieruditos na internet, fez reparos ao estilo deste palpiteiro da imprensa. Alguns imputaram ao autor destas linhas alguma resistência às mudanças impostas pela tecnologia ao universo das comunicações. Outros simplesmente o acusaram de ser obscuro demais, e até arrogante.

Se um texto provoca algum mal-entendido, a culpa é sempre do autor. Como diria Renan Calheiros, pequei, sim, mas por uma boa razão. No caso do senador caído em desgraça, basta folhear a última edição da revista Playboy para reconhecer suas razões. No caso deste observador, foi o excesso de cautela ao transitar pelo terreno minado das opiniões políticas, que anda sendo pisoteado irresponsavelmente por destacados protagonistas da chamada nova mídia.

Primeiro, não é este articulista um saudosista da máquina de datilografia ou do teletipo. Pelo contrário, trata-se de um dinossauro da internet, um entusiasta da rede mundial que ingressou nesse universo ainda no tempo dos BBS – para quem não lembra ou não chegou a conhecer, grosso modo uma tela preta com letras brancas na qual se podia trocar mensagens. Isso antes do Mosaic, o primeiro browser a desenhar a internet mais ou menos como a conhecemos.

Questão de estilo

Afastada a hipótese da ojeriza tecnofóbica, resta o estilo. Foi de fato uma escolha equivocada, pelo rebuscado que resultou o texto, por causa da excessiva cautela em criticar uma prática generalizada sem nominar os bovinos. O artigo resultou pedante, o que deveria sinalizar uma certa ironia sobre o tema. Infeliz o autor, que não se fez compreender pela maioria dos que tiveram paciência de baixar a barra de navegação até o pé do texto.

Com relação ao conteúdo, porém, que é o que nos move, é preciso esclarecer alguns pontos. Primeiro, a tentativa de alguns autores de parecer sábios onde lhes falta conhecimento é vício antigo, e não faltam parábolas e contos em toda a literatura universal sobre esse comportamento. O que tentou destacar o observador é como, no ambiente hipermediado em que vivemos, e num cenário de discursos radicais, os recursos de busca rápida de significados e citações dão a esse tipo de personagem uma ascendência imerecida e uma repercussão desproporcional ao conteúdo que realmente aportam aos debates.

Perversão dupla

A incitação ao discurso radical, seja de que lado for da moeda ideológica, exacerba os espíritos e reduz as chances de se encontrar um valor na diversidade. Quando essa ação perversa se localiza em blogs e artigos hospedados nos sites de empresas jornalísticas, essas diatribes ganham com aval da imprensa, o que é duplamente perverso. Seria demais pedir que indivíduos intelectualmente desonestos ingressassem nos debates públicos munidos de boas regras, evitando a exposição da intimidade de seus oponentes ou negando-se a inserir em seus comentários aspectos da vida pessoal que não contribuem para a avaliação da opiniões expostas.

Mas não é assim que têm se comportado os googlectuais e os wikieruditos: eles postam seus textos em blogs e sites, e respondem aos divergentes com pauladas recheadas de citações que, pela ligeireza, só podem ter sido catadas no Google ou na Wikipédia – ou em fontes equivalentes. Com isso, não se produzem debates proveitosos, mas verdadeiros tiroteios de saloon. A internet tem espaço para todos, eruditos, intelectuais, e meros curiosos, como este observador.

Se a mídia tem interesse em atrair leitores pela qualidade dos debates que suscita, se é verdade que ganha no longo prazo com a formação de um público qualificado, está agindo contra seus propósitos ao abrigar sob seus guarda-chuvas essa espécie de provocador que não demonstra possuir compromissos com a verdade.

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Jornalista

Todos os comentários

  1. Comentou em 08/11/2007 Giovanni Giocondo

    Em nenhum momento o autor criticou as ferramentas, mas sim seus operários irresponsáveis que insistem em se acidentar no trabalho.
    E a todo momento vejo comentários de pessoas que não leram os dois textos e criticam sem o conhecimento dos mesmos.
    Não obstante, ainda leio comentários de um homem das leis falando sobre a liberdade na Internet ser maior do que no ‘mundo real’.
    Ser ivre é muito diferente de ser liberal.
    E Liberal é o que é a Internet. Reprovo por completo qualquer comentário que diga que a Internet é a nova saída para uma sociedade anárquica! Blasfema!
    O que observo é uma farra de blogs e indivíduos que usam da internet para servir a si mesmos, seus egos e seus desejos, sem se preocuparem com a mudança da sociedade pelo debate que aqui travamos.
    Sem meias-palavras, o instrumento do qual dispomos é de extrema utilidade, mas também sem nenhum controle.
    Liberdade sim. Porém, liberalização meramente operacional, muito obrigado, não pretendo.

  2. Comentou em 07/11/2007 Ricardo Camargo

    Particularmente, entendo que não há nnecessidade do sr. Luciano defender o estio correto e elevado com que redigiu tanto o primeiro artigo quanto o presente, porque, na qualidade de quem vem acompanhando os debates que se seguem, posso dizer que escolheu a fórmula mais adequada para que os sectarismos partidários não poluam um dos temas mais sérios que têm assolado a produção intelectual, que é justamente a massificação de informações, confundida com democratização, quando esta última somente ocorre quando se tem como pensar as informações, ao invés de as receber e amontoar, pura e simplesmente, como na famosa fábula da raposa dotada de mil manhas que, ao final, foi pega pelos cães…

  3. Comentou em 07/11/2007 Ricardo Camargo

    Particularmente, entendo que não há nnecessidade do sr. Luciano defender o estio correto e elevado com que redigiu tanto o primeiro artigo quanto o presente, porque, na qualidade de quem vem acompanhando os debates que se seguem, posso dizer que escolheu a fórmula mais adequada para que os sectarismos partidários não poluam um dos temas mais sérios que têm assolado a produção intelectual, que é justamente a massificação de informações, confundida com democratização, quando esta última somente ocorre quando se tem como pensar as informações, ao invés de as receber e amontoar, pura e simplesmente, como na famosa fábula da raposa dotada de mil manhas que, ao final, foi pega pelos cães…

  4. Comentou em 06/11/2007 Gustavo Conde

    O fato é que gente que sempre fez (e faz) isso na imprensa em papel e no mundo acadêmico ganhou uma companhia ameaçadora. Num universo de milhões, livre, a probabilidade de haver coisas mais interessantes é apenas infinitamemente maior. Assim como o termo ‘intelectual’ tem sua face pejorativa (pessoalmente, acho quase uma ofensa), o termo ‘googlectual’ (embora mal feito e sonoramente infeliz) pode ter alguma chance de logo se tornar uma designação legítima no futuro (assim como os impressionistas, no século 19). O caso é que temos um verdadeiro defensor dos compromissos com a verdade para nos defender! Que bom! Fico aliviado.

  5. Comentou em 06/11/2007 Gustavo Conde

    O fato é que gente que sempre fez (e faz) isso na imprensa em papel e no mundo acadêmico ganhou uma companhia ameaçadora. Num universo de milhões, livre, a probabilidade de haver coisas mais interessantes é apenas infinitamemente maior. Assim como o termo ‘intelectual’ tem sua face pejorativa (pessoalmente, acho quase uma ofensa), o termo ‘googlectual’ (embora mal feito e sonoramente infeliz) pode ter alguma chance de logo se tornar uma designação legítima no futuro (assim como os impressionistas, no século 19). O caso é que temos um verdadeiro defensor dos compromissos com a verdade para nos defender! Que bom! Fico aliviado.

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