Terça-feira, 16 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1008
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As Duas Caras da Globo

Por Heitor Reis em 23/10/2007 na edição 456

Tenho a honra de morar numa comunidade de sem-teto. Mais exatamente, numa casa da Prefeitura de Porto Alegre cedida para uma unidade do MNLM – Movimento Nacional de Luta pela Moradia.

Estávamos, antes, no prédio, utilizado pelo PCC (Primeiro Comando da Capital), no centro da cidade, presos antes de realizar a tentativa de assaltar bancos, via subterrâneos. Com a reintegração de posse, acampamos em frente à Prefeitura e eles providenciaram para que não ficássemos na rua da amargura.

Faz parte de meu crescimento, como ser humano… Engenheiro que chutou o balde, militando numa entidade com parcos recursos, esta foi a única possibilidade de me manter nesta querência, vindo de Belo Horizonte para atuar no movimento pela democratização da comunicação, aqui mais aquecido que em outras paragens. Como há em mim uma identidade natural com a luta dos excluídos, sinto-me em casa. Esta é a minha turma.

A novela Duas Caras, da Rede Globo, vem retratando uma situação que está absurdamente longe de representar o mundo real em que vivem aqueles que estão buscando fazer valer seu direito a uma moradia e um meio-ambiente dignos, através de uma entidade como a nossa.

Centro das decisões

De acordo com o coordenador municipal do MNLM, Ezequiel Morais, respaldado por uma experiência de 13 anos nesta luta – e refletindo o ponto de vista dos demais residentes da unidade onde moro, inclusive o meu próprio –, a arte não imitou a vida de um militante pela democratização do direito à moradia.

Este assunto apareceu espontaneamente em nossa última reunião, semana passada, após o que fiquei com uma coceirinha me incomodando ali na fronteira do inconsciente, até que racionalizei a idéia de colocar estas considerações no papel virtual. Assim, propus que organizássemos a percepção do grupo conjuntamente, para produzir este artigo, o que foi prontamente aceito por ele.

Ninguém ali precisou ler Padrões de Manipulação da Grande Imprensa, de Perseu Abramo (http://www.pontodevista.jor.br/jornalismo/ocultacao.htm), para chegar a esta conclusão… Na oportunidade, aproveitei que este livreto estava em minha pasta e coloquei-o na roda, para que cada um pudesse ver que alguém já tinha estudado estes procedimentos do engano midiático.

O que mais chocou nossa comunidade foi o fato de que o personagem representado por Antônio Fagundes não exerce uma liderança democrática, como ocorre na prática desta entidade. Ele sempre se coloca como o centro das decisões, pouco se lixando para consultar os demais. No episódio de 10/10/2007, ele diz, duas vezes, algo assim: ‘Quer que eu mande meu povo pular a cerca e invadir este terreno?’

Moradia como ‘habitat’

Nossa preocupação é que muitas pessoas vão pensar estar a novela representando a realidade dos movimentos sociais, organizados em nível nacional. Aqui, os militantes não são conduzidos ao bel-prazer de seus líderes. Fazemos reuniões semanais para decidir o que a organização deve realizar, levando nosso ponto de vista para encontros municipais, estaduais e nacionais.

A Globo mostra uma ocupação espontânea, completamente dissociada de uma avaliação do direito à moradia por parte de quem dela participa. Preferiu pegar um caso isolado, nem um pouco representativo, de uma empresa falida que devia aos funcionários, os quais ocuparam o terreno que ela possuía.

Abordar este assunto já é um avanço por parte da líder do inconstitucional oligopólio da mídia, mas a forma pela qual isto é feito destrói o que havia de positivo na novela, que, infelizmente, é assistida por dezenas de milhões de brasileiros analfabetos e semi-analfabetos, tanto no sentido idiomático quanto no político.

O MNLM, no mundo real, busca orientar seus militantes sobre o conceito mais amplo de moradia, como ‘habitat’, o ambiente no entorno do lugar onde a pessoa mora, que acaba sendo o próprio planeta, enfocando também a infra-estrutura de transporte, educação, saneamento básico, geração de renda, meios de comunicação etc.

Ditador comunitário

Os movimentos de setores diferentes se interagem em centrais como a CMP, (Movimentos Populares) e a CMS (Movimentos Sociais), fortalecendo-se mutuamente, com um apoiando a causa do outro, como foi na manifestação que fizemos dia 05/10/2007, em frente à Rede Globo daqui, mais exatamente a RBS – Rede Brasil Sul.

Fica patente que na ocupação da novela se trata de algo desorganizado e sem qualquer preocupação para criar uma infra-estrutura mínima que propicie futuras obras públicas.

O personagem também recusa a proposta de mudança dos moradores para outro terreno, sem qualquer consulta à comunidade – que poderia utilizar o valor oferecido de 150 mil dólares para a construção de moradias noutro terreno oferecido pelo empreiteiro. Ao invés de ficar ofendido e brigar por causa de uma proposta de suborno, ele, como representante de um coletivo, deveria consultar seus representados antes de dar uma resposta.

Não que a situação novelística inexista na realidade, mas há uma frustração da nossa parte pelo fato de ser mostrado tudo que é condenado diariamente no movimento. Um exemplo real de erro é uma associação de Porto Alegre, onde o ditador comunitário vende lugares na lista para obtenção de moradia através da Prefeitura, ficando em posição melhor quem pagar mais…

Manipular é melhor

O termo politicamente correto, na compreensão do movimento, é ‘ocupar’, por se tratar de um espaço que não cumpre a função social determinada pelo Estatuto da Cidade e pela Constituição Federal para justificar a propriedade de quem a possui. Isto é, o dono da propriedade não o é de fato, por não lhe dar uma função social. Portanto, utilizar-se do que não pertence, verdadeiramente, a alguém, não é crime.

Como a maioria das pessoas desconhece a legislação em vigor e a mídia mercenária não explica, fica a impressão de que se trata de um bando de vagabundos, liderados por um oportunista qualquer, para saquear a propriedade alheia. Não que isto não aconteça também, mas é uma exceção, transformada em regra pelos meios de comunicação comerciais. Isto se chama, tecnicamente, de criminalização dos movimentos sociais pela imprensa.

‘Invasão’ seria adotado no caso de um espaço destinado para o bem comum de uma comunidade que fosse tomado por terceiros.

A pressão que a parte mais consciente sociedade vem exercendo sobre os meios de comunicação está obrigando as emissoras a fazerem média e tentarem mostrar serviço para não perder sua audiência e desmobilizar a luta pela democratização da comunicação.

Mas fazem com uma mão e destroem com a outra, perdendo a oportunidade de dar uma finalidade cultural, educativa e contribuir para a formação da cidadania de nosso povo.

Assim, mais uma vez a mídia trata os problemas sociais de maneira superficial, tendenciosa e irresponsável. Mas isto é perfeitamente compreensível, quando percebemos as linhas de poder que tornam cúmplices do crime de formação de quadrilha e exploração da boa-fé dos menos letrados, com fins políticos e econômicos, por parte da mídia corporativa e outras grandes empresas.

Uma empresa capitalista, especialmente as de comunicação, jamais educará seus ouvintes ou telespectadores, conforme determina a Constituição. Eles jamais seriam empoderados por ela com cidadania, para, depois, se utilizarem desta condição para defender uma justa distribuição da riqueza, salário-mínimo digno, bem como os direitos humanos em geral – que conflitam frontalmente com o lucro da classe dominante. Manipulá-los é melhor para os negócios…

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Engenheiro civil, militante do movimento pela democratização da comunicação e membro do Conselho Consultor da CMQV – Câmara Multidisciplinar de Qualidade de Vida (www.cmqv.org)

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