Domingo, 17 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

E-NOTíCIAS > DUAS CARAS

Beijo gay não devia incomodar ninguém

Por Lucio Antunes em 03/06/2008 na edição 488

Na quarta-feira (28/5) a atriz Lilia Cabral declarou em entrevista à Folha Online que o dilema de ter ou não ter um beijo gay no último capítulo da novela Duas Caras já lhe ‘encheu o saco’. Completou dizendo que ‘essa história (do beijo) torna tudo muito pequeno. O beijo é na intimidade. Acho que o que vale é a capacidade de se encontrar em outra pessoa e ser feliz. Isso tem muito mais valor humano do que simplesmente essa história de ter ou não beijo gay’.

Se, por um lado, Lilia Cabral elege a intimidade como o lugar do beijo, por outro ela ignora o valor sócio-cultural da sua representação. A alcova pode ser um dos lugares que escolhemos para demonstrar nosso amor e nosso afeto, mas é o olhar do outro que confere a esse afeto valores positivos – que nos motiva a continuar a expressá-los – ou negativos – que nos causam acanhamento, interdição e dor.

A alteridade diz que ‘todo o homem social interage e interdepende de outros indivíduos. Assim, a existência do `eu-individual´ só é permitida mediante um contato com o outro (que em uma visão expandida se torna o Outro – a própria sociedade diferente do indivíduo). Dessa forma, eu apenas existo a partir do outro, da visão do outro, o que me permite também compreender o mundo a partir de um olhar diferenciado, partindo tanto do diferente quanto de mim mesmo’.

‘Princípios de qualidade’

Quando Ayrton Senna flamulava a bandeira do Brasil após suas vitórias, nos emocionávamos porque nos reconhecíamos nele, elevados a um lugar que almejávamos na visão do outro, nesse caso, o mundo inteiro. Agimos assim quando um atleta olímpico nos leva ao pódio, ou quando ‘somos reconhecidos’ – em um caminho psíquico inverso – nos romances, filmes e novelas. Nenhum deles nos faria sentido se não pudéssemos encontrar ali uma identificação possível. Perderiam sua emoção, seu encanto, sua audiência.

Desta forma, todos desejam se reconhecer na TV, no cinema, na arte; todos querem ser acolhidos no espelho público do simbólico, no grande olhar do outro, seja na representação da sua paixão, do seu sofrimento, dos seus sonhos e conquistas.

No entanto, a proibição pela emissora na questão da exibição de um beijo entre pessoas que representam outros milhões verdadeiros nas suas legítimas aspirações, além da declaração de uma de suas representantes condenando esse tipo de afeto a uma obscura ‘intimidade’, confronta a idéia de uma sociedade baseada na alteridade onde, como diz Frei Betto, ‘só existe generosidade na medida em que percebo o outro como outro e a diferença do outro em relação a mim. Então, sou capaz de entrar em relação com ele pela única via possível porque, se tirar essa via, caio no colonialismo, vou querer ser como ele ou que ele seja como sou – a via do amor, se quisermos usar uma expressão evangélica; a via do respeito, se quisermos usar uma expressão ética; a via do reconhecimento dos seus direitos, se quisermos usar uma expressão jurídica; a via do resgate do realce da sua dignidade como ser humano, se quisermos usar uma expressão moral’.

A emissora justifica sua censura declarando temer ‘prejuízos institucionais e comerciais’ – como reportado por Daniel de Castro na Folha (11/05/2008) – e que a exibição da cena fere ‘princípios de qualidade’ da emissora. Diz ainda que pode ‘chocar’ a audiência.

Proposta da alteridade

Chocante é constatar a fraqueza ética de pessoas e instituições que se dizem chocadas com uma manifestação de afeto que elas mesmas legitimam somente para uma parte da população. Contudo, permitem a si mesmas distrair com cenas de violência descarada, exposição e grafismo sexuais apelativos, consumismo, escárnio do próximo e comportamentos vis. Uma fraqueza tão parcial pode ser alegada para justificar tal objeção? Um véu que esconde o temor de algo tão autêntico, verossímil e digno que sua simples admissão pode abrir definitivamente as comportas de uma grande represa criada por séculos de negação?

O filme de Ang Lee O segredo de Brokeback Mountain não fez concessão alguma ao que a sociedade supostamente estava ou não preparada para ver. O diretor usou sensibilidade e talento para mostrar uma história de amor universal que contempla todos, revelando que ‘a experiência da alteridade (e a elaboração dessa experiência) leva-nos a ver aquilo que nem teríamos conseguido imaginar’ e que ‘devemos especialmente reconhecer que somos uma cultura possível entre tantas outras, mas não a única’.

Assim, relacionar-se com o outro reconhecendo a legitimidade da sua expressão é a base de uma co-presença ética. José Roberto Goldim diz que a proposta da alteridade ‘rompe com a perspectiva autonomista e individual para remetê-la a uma visão de rede social. Deixa de ter sentido a máxima `a minha liberdade termina quando começa a dos outros´, sendo substituída pela proposta de que a minha liberdade é garantida pela liberdade dos outros’.

Mesquinhez e fraqueza ética

Por outro lado, quando uma emissora comercial representa em uma obra de ficção a existência de certas entidades como, por exemplo, o relacionamento entre pessoas do mesmo sexo, não o faz de forma gratuita. A recusa em fazê-lo soaria como um indesejável atestado de atraso, falta de visão e esterilidade criativa. Então, em contraponto, deve haver uma responsabilidade maior que se sobreponha a interesses econômicos, por exemplo. Uma responsabilidade que se sobreponha ao simples argumento da tolerância, sobre a qual diz Saramago:

‘Tolerar a existência do outro e permitir que ele seja diferente ainda é muito pouco. Quando se tolera, apenas se concede, e essa não é uma relação de igualdade, mas de superioridade de um sobre o outro. Deveríamos criar uma relação entre as pessoas, da qual estivessem excluídas a tolerância e a intolerância.’

É por isso que o beijo gay, ou a sua discussão, não devia encher o saco de ninguém. Não basta tolerá-lo na alcova escura destinada ao medo e à feiúra. É necessário perceber a sua beleza, sob o sol e à luz porque é a beleza possível do outro, que não se recusa a celebrar a nossa.

A lenda grega diz que Narciso causou muita dor aos seus admiradores porque reservava somente para si próprio o amor e a beleza. Acabou sucumbindo à morte triste e solitária em um lago de desespero. Mas se queremos ser belos, merecedores de justiça e amor, devemos desvendar nossa beleza despindo-a de seu egoísmo narcisista, onde só o nosso beijo é legítimo e belo, e assimilar a beleza do outro, para que não sucumbamos a um poço profundo de mesquinhez e indefensável fraqueza ética.

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Empresário, Belo Horizonte, MG

Todos os comentários

  1. Comentou em 05/06/2008 Lucio Antunes

    Digo, ‘discordava’.

  2. Comentou em 05/06/2008 Lucio Antunes

    Digo, ‘discordava’.

  3. Comentou em 04/06/2008 Lucio Antunes

    Não. Lília Cabral não estava dizendo que “todo” e “qualquer” beijo deveria ser escondido e abolido das obras cinematográficas, televisivas, literárias, enfim midiáticas em geral. Ela se referia somente ao beijo em questão! Entendeu?

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