Quinta-feira, 13 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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Bem educado na USP, voluntariamente alistado na SS

Por Deonisio da Silva em 27/11/2007 na edição 461

A semana que passou trouxe à baila, de novo, o quanto é importante dominar a língua. Hugo Chávez continuou falando muito. Quem se calou foi o rei espanhol, que ordenara ao venezuelano ¿por que no te callas?‘. A pergunta já é sucesso nos telefones celulares dos EUA.


São Tiago, santo muito conhecido, que dá outro nome à Via Láctea (Caminho de São Tiago) e também à famosa peregrinação a Santiago de Compostela, escreveu uma única obra. Tem cinco páginas e foi editada em forma de epístola, palavra de origem grega que significa ordem, mensagem, mas foi traduzida do latim como carta.


Na pequeníssima obra, o apóstolo explicita em três metáforas – leme, freio e fogo – o conceito que tem da língua como órgão do corpo humano, de função importantíssima na fala:




‘Grandes como são e batidos por ventos impetuosos, os navios são guiados por um pequeníssimo leme, que os leva para onde o piloto quiser;


‘Pomos um freio na boca dos cavalos, para os tornar dóceis, e assim podemos dominar todo o seu corpo


‘A língua é fagulha pequenina, mas quanta matéria inflama!’.


O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, defendendo a norma culta da língua portuguesa, foi duramente criticado por ter errado um advérbio. Usou ‘melhor educados’ em vez de ‘mais bem educados’.


Naturalmente, nas críticas ao ex-presidente foram usados dois pesos e duas medidas, pois do presidente Lula tudo se perdoa nessas questões, como se ele fosse o único brasileiro desobrigado de se submeter à norma culta, podendo falar como puder ou quiser.


Lugar certo


As paixões são más companheiras da crítica. Ora, não são os respectivos governos que estão em análise, é a forma de um e de outro usarem a norma culta da língua portuguesa, não? Claro que não. A língua foi pretexto para outras críticas.


Darcy Ribeiro achava que era um ‘luxo’ o Brasil ter um presidente como Fernando Henrique Cardoso. Pois é. Ou pois era! Porque bem que ele podia controlar o leme, o freio e o fogo de sua língua. Não lhe fica bem toda hora criticar o sucessor e ficou ainda pior utilizar o ponto fraco do outro, que faz melhor governo do que o dele, sobretudo em educação, apesar de não ser bem educado ou bem-educado. Com hífen, muda de significado e passa a antônimo de mal-educado, grosseiro. E ainda querem abolir nossos vinte mil hífens!


Na Alemanha e no mundo, o pomo da discórdia foi outro advérbio: voluntariamente. O advérbio modifica o verbo, o substantivo, o adjetivo e até outro advérbio.


No Brasil, o adjetivo ‘melhor’, indevidamente usado no lugar do advérbio ‘bem’, reacendeu a fogueira entre FHC e Lula. Na Alemanha, o advérbio ‘voluntariamente’, usado no lugar certo, tornou-se o cerne de um processo judicial que promete ser rumoroso.


Lembrando Brecht


O escritor alemão Günter Grass, nascido em 1927, Prêmio Nobel de Literatura em 1999, assustou os compatriotas e o mundo ao revelar no novo livro – Beim Häuten der Zwiebel, sua autobiografia, lançado na Alemanha em 2006 e já publicado no Brasil (Nas Peles da Cebola, tradução de Marcelo Mackes, Editora Record, 417 páginas) – que tinha servido nas hostes da temível SS nazista. Grass incomodou-se com este advérbio.


Michäel Jurgs, autor de Bürger Grass: Biografie eines deutschen Dichters (Cidadão Grass: biografia de um escritor alemão), lançado originalmente em 2004 pela editora Goldman (, revista e publicada em nova edição em outubro passado, escreveu o seguinte:




‘Günter Grass confessou, quebrando finalmente a sua noz, que aos 17 anos se alistou voluntariamente nas Waffen-SS’.


Quebrando a sua noz é expressão idiomática alemã para designar quebra de um segredo bem guardado.


O escritor alemão admite que serviu, sem seu consentimento, na temível tropa de choque da Waffen-SS nazista, mas que para isso foi recrutado e não teve alternativa.


O problema é, pois, o advérbio ‘voluntariamente’. Na quarta-feira (21/11), seu advogado, Paul Hertin, entrou com a ação judicial contra a Random House, à qual pertence a editora Goldman, no Tribunal Regional de Berlim.


Quanto ao advérbio ‘voluntariamente’, talvez valha outra metáfora, esta extraída de um texto de Bertolt Brecht.


Vida fácil


Na República de Weimar, o funcionário de um campo de trabalho pergunta ao comandante como ele conseguiu que trabalhadores, que antes reclamavam de qualquer coisa, agora se submetiam a tudo.


O comandante responde com uma anedota:




‘É como fazer um gato comer mostarda voluntariamente; aplica-se a mostarda no ânus do gato para que ele, em agonia, se lamba rapidamente. `Agora, diz triunfante, o gato está comendo!´. Assim é o trabalho voluntário!’.


Em Origens do Totalitarismo, Hannah Arendt diz que num Estado totalitário o indivíduo é isolado e não pode mais exprimir suas vontades, anseios ou críticas.


Para além dos advérbios, é preciso que seja garantido o direito de discordar, ainda que as palavras, por perfídia ou por ignorância de quem as profere, venham a desarrumar nossos conceitos.


depois da revelação de que Günter Grass pertencera à SS, Lech Walesa disse que teve sorte de jamais ter apertado a mão do escritor e agora mesmo é que não quer saber dele. Outros políticos se mobilizaram para cassar-lhe o título de cidadão honorário de sua cidade natal.


É dura a vida de um escritor que fala a verdade, ainda que ela lhe seja terrivelmente desfavorável. É moleza a vida de políticos que falam mentiras a torto e a direito.


***


PS – O escritor e professor Marcelo Backes, doutor em Germanística e Romanística pela Universidade Freiburg, na Alemanha, tradutor da edição brasileira de Beim Häuten der Ziewel, dos mais qualificados de nossos tradutores, tirou o verbo do título do livro de Günter Grass. Ele tem razão em certos aspectos da explicação que dá para esta mudança, mas numa palestra que Grass fez em Portugal para lançar o livro, usou sempre o verbo ‘descascar’ em oposição a ‘cortar’, ilustrando com o exemplo de assim fazer para evitar as lágrimas.

******

Doutor em Letras pela USP e professor da Universidade Estácio de Sá, onde é vice-reitor de pesquisa e pós-graduação e coordenador de Letras; seus livros mais recentes são Os Segredos do Baú (Peirópolis) e A Língua Nossa de Cada Dia (Novo Século)

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