Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

E-NOTíCIAS > FHC & GÜNTER GRASS

Bem educado na USP, voluntariamente alistado na SS

Por Deonisio da Silva em 27/11/2007 na edição 461

A semana que passou trouxe à baila, de novo, o quanto é importante dominar a língua. Hugo Chávez continuou falando muito. Quem se calou foi o rei espanhol, que ordenara ao venezuelano ¿por que no te callas?‘. A pergunta já é sucesso nos telefones celulares dos EUA.


São Tiago, santo muito conhecido, que dá outro nome à Via Láctea (Caminho de São Tiago) e também à famosa peregrinação a Santiago de Compostela, escreveu uma única obra. Tem cinco páginas e foi editada em forma de epístola, palavra de origem grega que significa ordem, mensagem, mas foi traduzida do latim como carta.


Na pequeníssima obra, o apóstolo explicita em três metáforas – leme, freio e fogo – o conceito que tem da língua como órgão do corpo humano, de função importantíssima na fala:




‘Grandes como são e batidos por ventos impetuosos, os navios são guiados por um pequeníssimo leme, que os leva para onde o piloto quiser;


‘Pomos um freio na boca dos cavalos, para os tornar dóceis, e assim podemos dominar todo o seu corpo


‘A língua é fagulha pequenina, mas quanta matéria inflama!’.


O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, defendendo a norma culta da língua portuguesa, foi duramente criticado por ter errado um advérbio. Usou ‘melhor educados’ em vez de ‘mais bem educados’.


Naturalmente, nas críticas ao ex-presidente foram usados dois pesos e duas medidas, pois do presidente Lula tudo se perdoa nessas questões, como se ele fosse o único brasileiro desobrigado de se submeter à norma culta, podendo falar como puder ou quiser.


Lugar certo


As paixões são más companheiras da crítica. Ora, não são os respectivos governos que estão em análise, é a forma de um e de outro usarem a norma culta da língua portuguesa, não? Claro que não. A língua foi pretexto para outras críticas.


Darcy Ribeiro achava que era um ‘luxo’ o Brasil ter um presidente como Fernando Henrique Cardoso. Pois é. Ou pois era! Porque bem que ele podia controlar o leme, o freio e o fogo de sua língua. Não lhe fica bem toda hora criticar o sucessor e ficou ainda pior utilizar o ponto fraco do outro, que faz melhor governo do que o dele, sobretudo em educação, apesar de não ser bem educado ou bem-educado. Com hífen, muda de significado e passa a antônimo de mal-educado, grosseiro. E ainda querem abolir nossos vinte mil hífens!


Na Alemanha e no mundo, o pomo da discórdia foi outro advérbio: voluntariamente. O advérbio modifica o verbo, o substantivo, o adjetivo e até outro advérbio.


No Brasil, o adjetivo ‘melhor’, indevidamente usado no lugar do advérbio ‘bem’, reacendeu a fogueira entre FHC e Lula. Na Alemanha, o advérbio ‘voluntariamente’, usado no lugar certo, tornou-se o cerne de um processo judicial que promete ser rumoroso.


Lembrando Brecht


O escritor alemão Günter Grass, nascido em 1927, Prêmio Nobel de Literatura em 1999, assustou os compatriotas e o mundo ao revelar no novo livro – Beim Häuten der Zwiebel, sua autobiografia, lançado na Alemanha em 2006 e já publicado no Brasil (Nas Peles da Cebola, tradução de Marcelo Mackes, Editora Record, 417 páginas) – que tinha servido nas hostes da temível SS nazista. Grass incomodou-se com este advérbio.


Michäel Jurgs, autor de Bürger Grass: Biografie eines deutschen Dichters (Cidadão Grass: biografia de um escritor alemão), lançado originalmente em 2004 pela editora Goldman (, revista e publicada em nova edição em outubro passado, escreveu o seguinte:




‘Günter Grass confessou, quebrando finalmente a sua noz, que aos 17 anos se alistou voluntariamente nas Waffen-SS’.


Quebrando a sua noz é expressão idiomática alemã para designar quebra de um segredo bem guardado.


O escritor alemão admite que serviu, sem seu consentimento, na temível tropa de choque da Waffen-SS nazista, mas que para isso foi recrutado e não teve alternativa.


O problema é, pois, o advérbio ‘voluntariamente’. Na quarta-feira (21/11), seu advogado, Paul Hertin, entrou com a ação judicial contra a Random House, à qual pertence a editora Goldman, no Tribunal Regional de Berlim.


Quanto ao advérbio ‘voluntariamente’, talvez valha outra metáfora, esta extraída de um texto de Bertolt Brecht.


Vida fácil


Na República de Weimar, o funcionário de um campo de trabalho pergunta ao comandante como ele conseguiu que trabalhadores, que antes reclamavam de qualquer coisa, agora se submetiam a tudo.


O comandante responde com uma anedota:




‘É como fazer um gato comer mostarda voluntariamente; aplica-se a mostarda no ânus do gato para que ele, em agonia, se lamba rapidamente. `Agora, diz triunfante, o gato está comendo!´. Assim é o trabalho voluntário!’.


Em Origens do Totalitarismo, Hannah Arendt diz que num Estado totalitário o indivíduo é isolado e não pode mais exprimir suas vontades, anseios ou críticas.


Para além dos advérbios, é preciso que seja garantido o direito de discordar, ainda que as palavras, por perfídia ou por ignorância de quem as profere, venham a desarrumar nossos conceitos.


depois da revelação de que Günter Grass pertencera à SS, Lech Walesa disse que teve sorte de jamais ter apertado a mão do escritor e agora mesmo é que não quer saber dele. Outros políticos se mobilizaram para cassar-lhe o título de cidadão honorário de sua cidade natal.


É dura a vida de um escritor que fala a verdade, ainda que ela lhe seja terrivelmente desfavorável. É moleza a vida de políticos que falam mentiras a torto e a direito.


***


PS – O escritor e professor Marcelo Backes, doutor em Germanística e Romanística pela Universidade Freiburg, na Alemanha, tradutor da edição brasileira de Beim Häuten der Ziewel, dos mais qualificados de nossos tradutores, tirou o verbo do título do livro de Günter Grass. Ele tem razão em certos aspectos da explicação que dá para esta mudança, mas numa palestra que Grass fez em Portugal para lançar o livro, usou sempre o verbo ‘descascar’ em oposição a ‘cortar’, ilustrando com o exemplo de assim fazer para evitar as lágrimas.

******

Doutor em Letras pela USP e professor da Universidade Estácio de Sá, onde é vice-reitor de pesquisa e pós-graduação e coordenador de Letras; seus livros mais recentes são Os Segredos do Baú (Peirópolis) e A Língua Nossa de Cada Dia (Novo Século)

Todos os comentários

  1. Comentou em 23/11/2009 mga mga

    De fato o jornalista Dum de Lucca precisa reciclar as idéias, ele vive no mundo do faz-de-conta que nem Alice no País da Maravilhas.
    Mas ele nao tem culpa por ter sido mau-educado por uma familia reacionária e burguesa. Mas que política ele nao aprendeu com a família a respeitar as pessoas e todos os seus textos ele comete essa gafe mal resolvida.

    Quando eu o corrigia ele dizia que eu era ignorante e nao entendia de nada e que por ser de familia pobre eu nunca seria nada na vida, muito menos jornalista.

    Graças ao meu esforço e interesse hoje sou assessora de comunicação e tenho muito respeito pela história do Sr. Lula e
    todos colaboradores da Imprensa, princpalmente o Deonísio que tem materias muito instrutivas sobre a nossa língua em revistas como Caras.

  2. Comentou em 29/11/2007 Deonísio da Silva

    Arno Esquivel, Jair Alves, Ricardo Camargo e Isabel L. Silva Silva, entre outros, são alguns dos comentaristas que destaco nesta rápida entrada aqui no meio dos internautas leitores. Tenho notado que dominar a língua portuguesa, utilizando palavras de uso mais raro, parece que virou anátema. Daqui a pouco seremos caçados a pau e pedra todos aqueles que conhecemos palavras como gemônias, exegese, ou que sabemos usar o pronome no lugar do nome, o advérbio para modificar o verbo etc. Vejamos o seguinte: à medida em que a escola caiu, sobretudo no ensino da língua portuguesa, ferramenta de quem fala e escreve, instrumento de cidadania, a imprensa compareceu para amenizar o descalabro, oferecendo lições de português básico, em forma de pronto-socorro em colunas nem sempre ocupadas por quem entende da língua, mas, sim, por consultores que, baseado em saberes alheios, exaram regras de gramáticas às vezes ultrapassadas, ganhando dinheiro com isso, à custa dos parvos. Excluo desse time os nomes de Sérgio Nogueira, Pasquale Cipro Neto, Sérgio Rodrigues, Cláudio Moreno, com o fim de evitar ambigüidades de interpretação, pois endosso o trabalho desses profissionais. Quando comecei a fazer minha coluna semanal de etimologia na revista Caras, uma colega de um campus de concentração me disse que era uma vergonha eu escrever ali. Retruquei: mas como é que você soube? Asinus asinum fricat, né?

  3. Comentou em 29/11/2007 Marco Antônio Leite

    Ter ou não cultura é relativo. Isto porque, aqui no Brasil temos alguns exemplos de homens bem sucedidos que são milionários, e pouco foram a escola. Temos pessoas no ramo das comunicações, no comércio de eletro-eletronicos, no ramo de supermercados, entre outros. Falar corretamente ou não, será que muda o curso da história da humanidade, à não ser para aquele que pensa que falar bonito é o suficiente para ser presidente da República. Para a massa, na qual todos nós estamos incluídos, basta que o cidadão seja competente para trabalhar para a maioria, bem como ser pelo menos oitenta% honesto já esta bom demais, também procurar ter consciência que na horizontal toda a humanidade é igual. Ser melhor ou pior é apenas transitório, nós passamos pelo tempo, isto porque o tempo continua vivo e é eterno. Portanto, nossa história se resumirá num punhado de terra quando o corpo imóvel do defunto que a partir daquele instante já não significa absolutamente nada será enterrado sem dó nem piedade. Até o nada terá fim, um dia o nada também acabará, alguma duvida?

  4. Comentou em 29/11/2007 Marco Antônio Leite

    Ter ou não cultura é relativo. Isto porque, aqui no Brasil temos alguns exemplos de homens bem sucedidos que são milionários, e pouco foram a escola. Temos pessoas no ramo das comunicações, no comércio de eletro-eletronicos, no ramo de supermercados, entre outros. Falar corretamente ou não, será que muda o curso da história da humanidade, à não ser para aquele que pensa que falar bonito é o suficiente para ser presidente da República. Para a massa, na qual todos nós estamos incluídos, basta que o cidadão seja competente para trabalhar para a maioria, bem como ser pelo menos oitenta% honesto já esta bom demais, também procurar ter consciência que na horizontal toda a humanidade é igual. Ser melhor ou pior é apenas transitório, nós passamos pelo tempo, isto porque o tempo continua vivo e é eterno. Portanto, nossa história se resumirá num punhado de terra quando o corpo imóvel do defunto que a partir daquele instante já não significa absolutamente nada será enterrado sem dó nem piedade. Até o nada terá fim, um dia o nada também acabará, alguma duvida?

  5. Comentou em 28/11/2007 Romilda Raeder

    Kebler, Kleber, quanta irritação nesse seu corazãozinho…
    Falando sério: não estou nem um pouco precocupada com a utilização de expressões como passado negro ou a coisa ficou preta . Sabe por quê? Acho que racista é quem se preocupa com isso (há racismo inclusive entre negros, sabia?). Quando uso expressões como essas, não estou pensando na cor da pele das pessoas, mas na cor em si (veja que a tinta preta cobre qualquer coisa que não se queira mostrar; a noite é escura e um quarto fechado com a luz apagada é negro – não se consegue ver e daí o medo que muitos têm do escuro etc.). Além disso, meu caro, há 20 anos (desde os 36) sou Alaketo (por fé e não por interesse científico , como gostam de dizer alguns sociólogos e antropólogos que conheço), embora muita gente ache isso uma enorme ignorância da minha parte. E na condição de egbomi, respeito indistintamente todas as pessoas da casa, negras ou não, com estudo superior ou não (algumas são praticamente analfabetas), abiãs, iaôs, egbomis ou de cargo . Você, que não é racista, deve saber do que estou falando. Então, não seja tão apressado ao julgar as pessoas, nem vá atrás de certos clichês, porque pode topar com outras pessoas que, como eu, respeitam e admiram os negros (mas não só), suas origens, suas culturas, sua coragem e determinação, e ficam profundamente indignados com qualquer tipo de discriminação.

  6. Comentou em 27/11/2007 Kleber Carvalho

    Romilda, você como cientista social deveria policiar um pouco mais o seu vernáculo e evitar a expressão racista ‘ passado negro’, talvez ficasse melhor se você usasse a expressão ‘ passado sujo’, ou algo equivalente.

  7. Comentou em 27/11/2007 Aílton Costa

    Todo mundo sabe que o Deonísio é um caloteiro: teve um professor da Ufscar que teve de vender a própria casa para pagar uma dívida do valente militante petista.

  8. Comentou em 27/11/2007 Rafael Costa

    Agora querem que o FHC apanhe e continue calado.

    Esse espaço deveria se chamar OBI(Observatório Bolivariano da Imprensa) ao invés de OI.

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem