Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

E-NOTíCIAS > ELEIÇÕES NOS EUA

Blogs fazem jornalismo?

Por Marinilda Carvalho em 16/11/2004 na edição 303

Analistas de imprensa aproveitaram o fiasco dos blogs de política nas eleições americanas para voltar a um velho debate (entenda-se ‘velho’ segundo os padrões de tempo das novas mídias) que parece nunca terminar: blogs fazem jornalismo? Em 2 de novembro, dia da eleição americana, definitivamente não fizeram. Então, isso é tudo? Não.


Teóricos de valor e sem valor já definiram de muitas formas o que é o jornalismo. Blogs também, mas talvez a definição mais instigante seja ‘ruído aleatório no isomorfismo do noticiário’, como exposto no texto ‘O blogueiro de B@gdá’, publicado na edição 297 do OI [ver remissão abaixo]. Se a maioria dos profissionais de jornalismo responde não à pergunta do título, muitos jornalistas criaram blogs e muitos jornais incorporaram blogs a suas edições online. Um publicitário americano, Steve Rubel, chega a propor em seu blog (www.micropersuasion.com/2004/11/the_bloggers_sh.html) que a revista Time escolha para Personalidade do Ano de 2004 os blogueiros, porque ninguém influenciou tanto a sociedade este ano como eles.


Então, o ‘ruído’ dessa mídia alternativa é cada vez mais alto, atraindo especialmente leitores insatisfeitos com a grande imprensa. E aí parece estar o xis do debate. De que blogs estamos falando?


Informação e democracia


No dia 4/11, o jornalista canadense David Akin, comentarista de tecnologia que acha essa discussão entediante, deu boa contribuição ao velho debate, incorporando alguns conceitos. Ele disse em seu blog (http://davidakin.blogware.com/blog/) que os jornalistas não estão encarando a questão com honestidade. Para ele, tudo se resume a ‘controle do jornalismo’. ‘Muitos jornalistas e muitos críticos de jornalistas querem controlar quem tem permissão para se autodenominar jornalista.’


Akin se queixa de que nas listas de jornalismo que assina há um tópico perene: alguns jornalistas canadenses querem formar organizações profissionais, como dos médicos ou advogados, estabelecendo padrões de admissão etc. ‘Sou mortalmente contrário a esta ou a qualquer outra idéia que impeça quem quer que seja de fazer o que imagina ser jornalismo’, diz Akin. Para ele, o jornalismo é importante demais no funcionamento da democracia para que se impeça alguém de praticá-lo.


Ele respondia a artigo de Jay Rosen, um dos diretores da New York University e professor de crítica da mídia, que fez uma lista de 10 paralelos entre blogs e jornalismo. Entre eles: o jornalismo tradicionalmente assume que democracia é o que temos e informação é o que buscamos; blogueiros assumem que informação é o que temos – está tudo aí à nossa volta – e democracia é o que buscamos.


Vá à luta


Akin defende que blog é um formato; e jornalismo um processo, ou um sistema. ‘Claro, blogs podem ser parte do sistema que chamamos jornalismo e, obviamente, nem todos os blogs são parte deste sistema (nem todos os blogueiros querem ser jornalistas)’, diz ele, para quem há três coisas que distinguem o jornalismo:


** Um contrato, uma compreensão entre leitor e jornalista sobre quem paga as contas. Os leitores do jornal The Globe and Mail [onde Akin trabalha] sabem que as contas, inclusive os salários dos jornalistas, são pagas pela venda de anúncios. Um leitor precisa saber quem está pagando as contas, para determinar a validade das notícias apresentadas.


** Um leitor tem algum senso da existência institucional do sistema: ele sabe que na ausência de um jornalista alguém tomará seu lugar, mantendo o contrato. É jornalismo quando se tem um sistema que garanta a produção das informações. Então, o jornalismo precisa existir numa instituição? Sim.


** No jornalismo, o leitor pode contar com regularidade. Este é também um ponto do contrato entre jornalista e leitor. Enquanto jornalistas podem escrever esporadicamente, o sistema trabalha com um deadline – pode ser de ano em ano ou de hora em hora. O leitor procura e acha. Sabe que pode contar com aquela regularidade.


Se você acha que faz jornalismo, vá em frente e considere-se jornalista, convida Akin. ‘Lembre-se, eu não tenho que considerá-lo jornalista e você não precisa concordar em que eu seja’, diz. ‘Mas se você quer ser um jornalista, vá à luta.’ Então, propõe ele, vamos parar de perguntar se blogs fazem jornalismo e começar a blogar, a falar de coisas realmente importantes, como: ‘Quando o Toronto Maple Leafs [time de hóquei canadense] vai afinal ganhar um jogo?’


Empresas jornalísticas


Steve Outing, editor do Poynter Institute for Media Studies (www.poynter.org/), diz que ‘quando um blogueiro inteligente e com bom público dá uma informação exclusiva, ela se espalha como fogo no mato; outros blogs a reproduzem, eventualmente a grande mídia a desenvolve’.


Mas isso não é o que fazem os colunistas pagos de jornal? Então, o que são os popularíssimos blogs de política dos Estados Unidos, esses que bateram cabeça no noticiário sobre o resultado da eleição do dia 2, e que ainda trocam acusações pelo fracasso? São realmente blogs? Ou já viraram miniorganizações midiáticas, com seus contratos com o leitor, sistemas, institucionalização, regularidade? Até Matt Drudge (www.drudgereport.com/) já foi chamado de blogueiro, com toda aquela estrutura de apuração de que seu site dispõe…


Tais ‘blogueiros’ ostentam anúncios em seus sites, recebem doações de leitores, são hóspedes ‘de cortesia’ de grandes provedores. Contratam ajudantes, montam pequenas (e até grandes) redações. Alguns têm a cara da grande imprensa online. São blogs? Dificilmente. Antes empresas jornalísticas, mesmo que em escala menor.


Pelo menos deveria


Em fevereiro de 2003, Phil Ringnalda, um dos programadores da Pyra Labs, a empresinha de São Francisco que criou o Blogger em 1999, vendida recentemente ao Google, resumiu as questões cruciais desse debate. Cansado da pergunta ‘Blogs fazem jornalismo?’, que considera imbecil, ele escreveu em seu blog (http://philringnalda.com/blog/): ‘Todo artigo de jornal e revista parece ter necessidade de perguntar isso, e geralmente responde ‘Não!’ (…) Diabos, sim! E o que é melhor, apenas com a parte divertida do jornalismo, que podemos fazer sentados, sem a parte chata.’


Vejam o que ele considera a ‘parte chata’:


** Ser dono de jornal é divertido, se você toma as grandes decisões, faz dinheiro e não precisa enfrentar sindicatos e congressistas gritalhões. Não temos problemas trabalhistas, e quando começam a gritar conosco deletamos seus e-mails e bloqueamos seu IP nos comentários. Não temos muito dinheiro – nem acionistas também.


** Ser editor é divertido, se você pode decidir que a matéria de fulano merece ir para o lixo – mas não é quando o jornal leva um baita furo. Azar, ninguém espera mesmo que tenhamos todas as matérias. Se temos, temos, se não, não temos.


** Ser redator é um sádico divertimento, corrigindo cada errinho na matéria dos outros. Mas não é quando você mesmo comete um grande erro óbvio ou deixa passar um ou 20 erros estúpidos. Nós corrigimos os dois primeiros erros do post, e depois consertamos algum outro que alguém nos aponte – normalmente sem deixar vestígios do erro. Para nós, não existe essa de publicar ‘Correção’ na edição seguinte, por favor. Isso nos dá mais tempo para achar um erro novo entre os que o redator deixou passar no jornal.


** Ser repórter não é lá tão divertido, a não ser quando você se senta numa cadeira confortável e fica roubando idéias e parágrafos inteiros dos outros. Se você tem que se plantar ao telefone, ou, pior ainda, ir para rua caçar pessoas, já é chato à beça antes mesmo que elas se neguem a falar. Se temos algum amigo que sirva de fonte, ligamos para ele. Se não, o repórter pode ir em frente e bater perna por nós. Valeu!


** Assim, ter um blog jornalístico significa cumprir a parte boa de qualquer função do jornalismo, sem nenhuma das partes chatas. Não admira que vocês continuem perguntando se ‘blogs fazem jornalismo’!


O bom humor de Ringnalda ajuda afinal a entender o que é jornalismo: ralação, responsabilidade, trabalho em equipe (bem, pelo menos deveria ser). Ajuda afinal a entender o que é um blog no sentido tradicional, ou seja, páginas na internet de blogueiros solitários – que, é claro, não ficam apenas procurando erro em texto de jornal, mas estudam políticas, doutrinas, documentos, leis, o próprio discurso da mídia, para analisar e levar a seus leitores. Não fazem jornalismo, é verdade, fazem outra coisa: trabalham pela cidadania.


Ringnalda não fala absolutamente desse novo modelo de imprensa, com cara de blog, jeito de blog, linguagem de blog, mas que, altamente financiado, infra-estruturado, faz jornalismo, sim, só que copiando a grande imprensa. E que ainda assim fez mau jornalismo na última eleição presidencial americana.

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