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Sexta-feira, 17 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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Blogueiro precisa apurar?

24/11/2009 na edição 565

No último dia 16 de novembro, um colunista de O Globo escreveu em seu blog um texto cujo título era mais ou menos assim: ‘Denúncia: dono do restaurante X abafaria os 10% dos garçons’. A leitura mais atenta do post revela não só o desprezo por regras básicas do jornalismo como traz ainda uma verdadeira pérola sobre o papel dos blogs na grande imprensa: lá pelas tantas, ele ressalva: seu texto ‘não se trata de uma reportagem’.

Concordo. Uma boa reportagem de denúncia jamais se basearia apenas no depoimento de uma das partes interessadas (no caso, uma garçonete do restaurante, já que os demais empregados não confirmaram nem desmentiram o fato). Aliás, um testemunho suspeito, já que a própria trabalhadora disse que seria demitida em breve.

Se optasse por entrevistar o dono do estabelecimento, ignorado na primeira versão do texto, o autor teria apurado que o pagamento dos garçons seguia uma norma coletiva de trabalho, como depois foi explicado pelo empresário. Se pesquisasse um pouco mais, descobriria que o tema (a regulamentação do pagamento dos 10%) está sendo tratado em projetos de lei. Munido de informação e evidências, aí sim, ele poderia escrever um belo texto e provocar a reflexão dos leitores. Reportagens existem – ou pelo menos deveriam existir – para isso.

A quem interessa o abuso?

Mas o que realmente chama a atenção é constatar nas entrelinhas a suposição de que um jornalista pode escrever uma ‘denúncia’ de forma unilateral e publicá-la num dos maiores sites de comunicação do país sem observar a ética jornalística. Ou seja: ainda que o texto tenha cara de notícia (com direito ao cauteloso verbo na condicional em seu título), jeito de notícia e esteja disponível em um site de notícias, ele decreta: não é uma notícia. Simples assim. O meio eletrônico é seu salvo-conduto.

A rápida evolução tecnológica dos meios eletrônicos abre caminhos fascinantes para o jornalismo e o livre debate de idéias, mas potencializa alguns dos piores vícios de nossa categoria. Entre eles está a velha arrogância de imaginar que, em nome de uma pauta bem intencionada, vale tudo.

Quem decide escrever ‘denúncias’ no site de um jornal está produzindo material noticioso, ainda que faça ressalvas no sentido contrário. E tão grave quando desviar dinheiro de empregados é insinuar para dezenas de leitores que alguém cometeu um crime, sem apresentar provas e oferecer direito de defesa. A quem interessa esse tipo de abuso?

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Jornalista, Brasília, DF

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