Sexta-feira, 17 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

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Câncer, política, cigarros e bebida

Por Luciano Martins Costa em 31/10/2011 na edição 665

Comentário para o programa radiofônico do OI, 31/10/2011

O mineiro só e solidário no câncer – a  frase, do dramaturgo Nelson Rodrigues citando o cronista Otto Lara Resende, poderia ser estendida aos políticos profissionais, no rastro das manifestações de solidariedade ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva por parte de gente que preferiria vê-lo morto.

A notícia da doença que ataca a laringe do ex-presidente se impôs a toda a imprensa no sábado e imediatamente ganhou repercussão internacional. Em seguida vieram os comentários de especialistas e curiosos, nos quais há duas preocupações básicas: informar sobre o verdadeiro estado do paciente – e suas chances de cura – e especular sobre seu futuro na política.

Duas questões

A frase atribuída  por Nelson Rodrigues a seu amigo Otto também serve como explicação fácil para a unanimidade segundo a qual a moléstia, em vez de limitar a influência de Lula sobre as eleições de 2012, deve elevá-la a uma potência ainda incalculável. Se ao deixar o governo ele exibia popularidade histórica, com mais de 80% de aprovação, a superação do câncer poderá colocá-lo num pedestal inabalável.

Mas além de acompanhar o trabalho dos médicos, com a divulgação dos boletins sobre a evolução do paciente, e de registrar as manifestações de políticos e previsões de analistas, a imprensa tem outra pauta a cumprir – e esta exige mais do que coletar declarações.

O noticiário que se iniciou nos jornais de domingo (30/10), ajuda a colocar em debate público não  apenas a doença, considerando-se que câncer ainda é uma palavra sombria entre nós. É também uma oportunidade para colocar em debate público as questões do tabagismo e do alcoolismo.

Citadas pela imprensa como as causas mais prováveis da doença que ataca o ex-presidente, o fumo e a bebida são um grave problema de saúde pública e ainda há muito o que fazer para colocá-los sob controle.

Lula da Silva trocou os cigarros mais frequentes por cigarrilhas e charutos eventuais há apenas dois anos, e alguns médicos citados pelos jornais afirmam que, junto com alguma tendência genética, essa é uma pista segura da origem do mal. Mas há também a questão do uso abusivo de álcool, que o ex-presidente nunca escondeu e que lhe causou dissabores durante suas campanhas eleitorais.

Está mais do que na hora de a imprensa tratar com seriedade essas duas questões, que envolvem também a regulação da publicidade e afetam as receitas dos meios de comunicação.

Pauta necessária

Na sexta-feira (28/10), quando o ex-presidente Lula da Silva se submetia a exames, o jornal O Estado de S.Paulo trazia em seu primeiro caderno a notícia de que a Câmara dos Deputados havia aprovado alterações numa medida provisória, autorizando fabricantes de cigarros a voltar a patrocinar festivais de música e outros eventos públicos.

O texto foi contrabandeado para dentro da proposta de política industrial encaminhada ao Congresso Nacional pelo Executivo e elimina as restrições à divulgação institucional dos fabricantes de cigarros.

Se for aprovada pelo Senado, essa liberalização vai produzir um conflito legal com relação à Convenção-Quadro sobre Controle do Uso de Tabaco, da Organização Mundial da Saúde, ratificada pelo Brasil há cinco anos. Um dos principais objetivos da OMS ao criar a convenção foi diminuir a exposição de jovens e adolescentes à propaganda de cigarros e progressivamente reduzir seu uso no futuro.

A introdução maliciosa desse contrabando na legislação sobre política industrial revela como funciona o lobby da indústria de fumo e lembra mais uma vez que, com um Parlamento sujeito a estímulos financeiros, cabe à imprensa manter a sociedade alerta para o risco de retrocessos.

Além disso, resta a questão da ingestão frequente de álcool, tema que também vem à tona com a doença do ex-presidente. Sabe-se que a indústria de bebidas investe pesadamente em propaganda direcionada aos jovens e patrocina eventos de grande popularidade como os campeonatos de futebol e festivais acadêmicos. E tornou-se tradição em muitas universidades uma espécie de batismo no álcool, de adolescentes que ingressam no ensino superior.

Os jornais costumam dar destaque a acidentes causados por motoristas embriagados, mas raramente penetram nas origens do problema, que vão tocar inevitavelmente na regulação da publicidade de bebidas.

Como os repórteres terão de ficar postados diante da residência do ex-presidente ou na porta do hospital, nos dias em que ele for fazer novos exames, eis aí uma oportunidade para os comentaristas de plantão preencherem o tempo ocioso com essa pauta tão necessária.

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