Sábado, 22 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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E-NOTíCIAS > ENTREVISTA / VICTOR BOYADJIAN

Chineses já censuram menos, diz jornalista

Por José Paulo Lanyi em 29/07/2008 na edição 496

Victor Boyadjian encarna a confiança mundial no protagonismo econômico dos chineses. ‘Decidi dar um novo tempero à minha carreira, quando deixei tudo e me dediquei ao tal `idioma do futuro´.’ Formado em Jornalismo pela Universidade Metodista de São Paulo, estuda atualmente na Universidade de Língua e Cultura de Pequim. ‘Realmente, não há outra forma de aprender chinês. É preciso estar na China. Escolinhas do Brasil levam muitos anos para dar resultados. Já completei um ano. E sei que preciso de pelo menos mais um.’

Boyadjian tem colaborado com veículos brasileiros. Produziu vídeos de comportamento e cultura para o iG e hoje envia boletins sobre fatos importantes da Ásia para a Rádio Eldorado de São Paulo.

Tempos antes, no Brasil, o jornalista também se graduou em Marketing Político pela ECA-USP e trabalhou por sete anos na agência Rádio2, experiência que, diz ele, permitiu-lhe ‘um contato direto com o Palácio dos Bandeirantes, acompanhando de perto a campanha presidencial do candidato Geraldo Alckmin’.

Na entrevista a seguir, realizada por e-mail, o repórter dá detalhes do cotidiano dos chineses e dos jornalistas estrangeiros, poucos dias antes do início dos Jogos Olímpicos de Pequim; fala da estrutura oficial para os milhares de profissionais credenciados e das dificuldades inerentes ao contato entre culturas díspares e literalmente longínquas. ‘Quando se vai para cidades menores, é absolutamente normal o povo ficar te encarando, crianças fugindo de medo e os jovens fazendo comentários.’

O jornalista também tem observado um abrandamento gradativo do controle da informação na China. ‘Os Jogos estão trazendo avanços positivos.’

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Como está o movimento de jornalistas estrangeiros?

Victor Boyadjian – As equipes que vêm para cobrir as Olimpíadas estão chegando desde o dia 8 de julho. Vários países estão mandando jornalistas, cada veículo costuma mandar mais de um, o que deve fazer com que o número total de jornalistas credenciados chegue a 5.600. Mas certamente há aqueles que estão chegando sem credencial, aqueles que ficarão sem acesso aos eventos e a prédios oficiais dos Jogos.

Muita confusão no primeiro contato com o país?

V.B. – Pelo que tenho visto, aqueles que estão credenciados não estão enfrentando muitos problemas. Desembarcam no aeroporto e já tiram o crachá. Também foram criados escritórios para atender a mídia internacional, com o apoio do site do Beijing International Media Center. Na região central da Vila Olímpica há o MPC (Main Press Center) e o IBC (International Broadcast Center), atrás do Estádio Ninho de Pássaro, dois prédios para reunir instalações que já estão sendo usadas pelos jornalistas. Grande parte dos profissionais ligados ao International Media Center fala inglês. Isso facilita muito para os jornalistas estrangeiros. Porque, de um modo geral, nas ruas de Pequim o inglês não passa do básico. Eles também oferecem todas as informações para o jornalista se virar com o seu trabalho, como a localização de endereços. Pequim é grande e muito encrencada de se localizar. As ruas têm nomes estranhos para quem não entende chinês. E mais de uma rua pode ter o mesmo nome, só muda Norte, Sul, Leste, Oeste, Dentro, Fora. Isso sem contar os famosos hutongs, vielinhas antigas que nem nome têm. Há, também, tradutores e outros profissionais de mídia para ajudar as equipes.

Os jornalistas não-credenciados receberão algum apoio?

V.B. – Como em outras edições dos Jogos, haverá também a Casa Brasil, um lugar para jornalistas sem credenciamento oficial se encontrarem e receberem informações importantes, além de participarem de coletivas com alguns atletas e oficiais.

‘Muitos falam `chinglês´’

Apesar do nome, os Jogos não serão restritos a Pequim…

V.B. – Esta edição será dividida entre Pequim, a sede principal, Tianjin, Xangai, Hong Kong, Shenyang, Qinhuangdao e Qingdao. Não sei como está a organização nas outras cidades, mas imagino que a estrutura para os jornalistas seja semelhante. O transporte entre as cidades é feito por trem ou avião, inclusive um trem-bala entre as cidades de Pequim e Tianjin, que foi inaugurado há algumas semanas.

Como os chineses lidam com os estrangeiros?

V.B. – Os chineses de Pequim e outras cidades-pólo da China estão razoavelmente acostumados aos estrangeiros. Aqui há muito mais estrangeiros do que no Brasil – fruto de a China ter-se transformado no país das oportunidades de negócios. O inglês é o idioma básico para a comunicação entre italianos, brasileiros, espanhóis, norte-americanos, franceses, japoneses etc. Em outras palavras, além do mandarim (e eventualmente de algum dialeto local), o inglês é uma língua curinga. Mas muitas vezes não se passa do básico e cansativo ‘chinglês’. Por isso há uma revolução no esforço do aprendizado do inglês. É muito comum jovens tentando puxar conversa com você para treinar o inglês deles. Quando se vai para cidades menores, o costume de ver estrangeiros é baixíssimo. Por isso é absolutamente normal o povo ficar te encarando, crianças fugindo de medo e os jovens fazendo comentários.

‘Esforço para ajudar’

É difícil superar as dificuldades de comunicação?

V.B. – Estrangeiros que não falam chinês acabam se virando com o ‘mimiquês’. Realmente, mesmo com tanta mudança trazida pelas Olimpíadas, ainda pode ser uma aventura vir para cá sem tradutor, livro de frases prontas ou um dicionário e muita paciência. O ponto positivo disso tudo é que o povo chinês é atencioso e tem um carinho por estas Olimpíadas. Então eles estão realmente se esforçando para ajudar os estrangeiros.

Em Macau se fala português…

V.B. – Macau é, de fato, uma ex-colônia portuguesa. Nunca fui para lá, mas ouvi dizer que o português é limitado a uma elite da cidade. Fora isso, a moeda ainda se chama pataca. Sinais e notas escritos em português e a arquitetura lusitana ainda são heranças bem presentes.

‘Controle está diminuindo’

Há, como se diz, muitos casos de censura na China?

V.B. – Sinceramente, nunca enfrentei controle de informação. Não posso falar pelos outros, mas acho que quem está ‘oficializado’ não enfrenta problemas. Até porque quem está na rua, por conta da segurança olímpica, tem chance de ter seus documentos checados com alguma freqüência. Nas ruas, o que acontece de fato é que há muitas pessoas que não gostam de ser entrevistadas, filmadas ou fotografadas. Questão de falta de hábito. Isso dificulta o trabalho e dá, muitas vezes, a impressão de que há censura. O controle em si está diminuindo. Sites que antes eram bloqueados, como o Wikipedia, estão liberados. A navegação também está travando menos. Pessoalmente, acredito que os Jogos estão trazendo, sim, avanços positivos em vários desses aspectos.

O que mais é importante saber antes de embarcar?

V.B. – O jornalista deve ler um pouco a respeito do que vai fazer, sair pautado ajuda muito. Dicionário na mão e endereços escritos em caracteres chineses também são fundamentais para os taxistas. No mais, há um grupo de apoio à comunidade brasileira em Pequim. Eles sempre dão uma força para quem precisa.

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