Quarta-feira, 26 de Junho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1043
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Conectividade onipresente

Por Alysson Lisboa Neves em 18/01/2011 na edição 625

James H. Fowler é professor da Universidade da Califórnia, em San Diego, no Departamento de Ciências Políticas e no Centro de Sistemas sem Fio para Saúde Coletiva. Em seu livro O poder das conexões, lançado pela Editora Elsevier, publicado com o colega Nicholas Christakis, o cientista relata estudos surpreendentes sobre o poder das redes sociais e como elas nos afetam. A influência das redes é estudada há muitos anos em todo o mundo. Porém, esse trabalho dos pesquisadores norte-americanos tem uma relação íntima com as redes sociais originadas da internet.

A publicação tenta explicar, por exemplo, por que dinheiro atrai dinheiro, por que a felicidade é contagiante e como nossas conexões na vida real são fundamentais para nossa saúde e bem-estar. As pessoas têm mais êxito quando estão em grupo do que individualmente, segundo os autores. Outra curiosidade citada no livro é que homens solteiros vivem sete anos menos que os casados. A explicação é que o matrimônio pode alterar hábitos alimentares, rotinas e tendências, como, por exemplo, a troca de uma moto esportiva por um carro grande para passear com a família.

Vínculos fortes e fracos estão presentes nas redes sociais. Quanto mais fortes são os nós, maior será a chance de sucesso. Seis graus de separação conectam todos os indivíduos no mundo, de acordo com os pesquisadores. Medo, ansiedade, felicidade e epidemias são condutas coletivas alimentadas por um determinado grupo. Nossos amigos, os amigos de nossos amigos e os amigos dos amigos de nossos amigos direcionam, direta ou indiretamente, todo o nosso comportamento. Em entrevista ao Informática, o pesquisador James Fowler conta um pouco sobre sua publicação.

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Redes humanas e redes biológicas

Qual é sua formação educacional? Por que o senhor se interessou por pesquisas envolvendo redes sociais?

James H. Fowler – Nicholas Christakis e eu estudamos redes sociais há 10 anos. Nicholas, inicialmente, estava interessado na disseminação do ‘comportamento saudável’ na rede, e eu, pelo comportamento político. Um amigo em comum nos apresentou em 2002, quando ambos estávamos em Harvard, e, desde então, trabalhamos juntos.

Você diria que as redes sociais e biológicas trabalham de forma distinta? Em outras palavras, conexões sólidas atraem mais conexões?

J.H.F. – É verdade que os ricos ficam mais ricos nas redes sociais humanas – pessoas com vários amigos tendem a se conectar com outras pessoas com muitos amigos também. Mas isso é o oposto em se tratando de redes sociais biológicas – proteínas que estão envolvidas em muitas interações tendem a interagir com proteínas que não estão envolvidas em muitas interações. Essa diferença faz das redes sociais humanas únicas com grande conectividade, maior que em outros tipos de redes.

Nossas atitudes afetam os amigos dos amigos de nossos amigos

É certo afirmar que o cérebro humano foi planejado para as redes sociais? Ou seja, quanto maior for o cérebro, maior será sua capacidade para as interações em rede? Formigas, por sua vez, podem somente atingir algum grau de inteligência por viverem em colônias (coletividade)?

J.H.F. – A literatura sobre inteligência social mostra várias evidências de que nosso cérebro tem ficado cada vez maior ao longo dos últimos milhões de anos, e Robin Dunbar mostrou uma relação forte entre o tamanho do córtex e o tamanho do grupo. Temos evoluído para conseguir acompanhar tantas relações. As formigas, ao contrário, não têm memória específica de outros indivíduos.

No seu livro, o senhor menciona que alegria e tristeza são contagiosas. Se eu ganho peso, isso significa que meus amigos também ganharão? Quer dizer que nossas atitudes, sendo elas boas ou más, têm influência direta nos nossos amigos?

J.H.F. – Sim, tudo o que sentimos, pensamos e vivenciamos por meio da rede afeta nossos amigos, os amigos de nossos amigos ou mesmo os amigos dos amigos de nossos amigos.

A inteligência individual ainda existe

Podemos dizer que a expansão da internet vai suprir a lacuna social? Em outras palavras, devido ao fato de a internet permitir que as pessoas fortaleçam seus relacionamentos on-line, podemos esperar que essas pessoas se tornem mais sociáveis, sendo capazes de diminuir a distância entre os mais e os menos favorecidos?

J.H.F. – Talvez, mas o que me preocupa é que a internet torna as coisas mais fáceis entre pessoas similares que irão formar novas conexões. Isso pode nos polarizar ainda mais entre ricos e pobres. Temos que ficar alertas e trabalhar duro para assegurar que todos tenham chance de se conectar entre si.

O pesquisador argentino Alejandro Piscitelli, no livro Nativos digitales, afirma que a nova geração nascida na era da computação é a mais inteligente da história. Dan Tapscott disse isso também em A hora da geração digital. O que o senhor pensa sobre isso? A internet e suas redes sociais estão criando uma sociedade superficial?

J.H.F. – Barry Wellman tem feito um bom trabalho mostrando que as redes on-line ajudam a fortalecer as redes do mundo real. Pessoas que participam do Facebook estão mais propensas a se encontrar para um café agora, por exemplo, por ser tão fácil a comunicação. E, desde que as conexões do mundo real nos fazem mais saudáveis e felizes geralmente, acredito que a mudança seja vantajosa.

No livro Multitudes inteligentes, Howard Rheingold, referindo-se a Huberman, o criador do conceito sobre mente social, diz que a inteligência não está limitada ao cérebro, mas que também surge a partir de grupos como as colônias de insetos. A coletividade conectada é dotada de uma inteligência superior. Será que as inteligências individuais, neste mundo conectado em que estamos vivendo, perderam seu passado relevante?

J.H.F. – Não, a inteligência individual ainda existe. Ela não está mais numa ilha, como Robinson Crusoé. Ela está conectada.

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Da Redação do Correio Braziliense

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