Domingo, 18 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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Crimes e irresponsabilidade jornalística

Por Luiz Humberto Viana em 13/05/2008 na edição 485

Os casos de violência têm grande apelo midiático. Quanto mais escabroso, inusitado ou insólito for o crime, maior será a atenção dada pela imprensa. Um dos diversos exemplos deste comportamento jornalístico ainda está em curso. É a cobertura – desastrosa e espetacularizada – do caso Isabella Nardoni. O show de horror e o espetáculo viraram o principal valor-notícia. É a midiatização do crime.

No Distrito Federal, o assassinato de outra Isabela também foi notícia durante dias. Após sair de uma aula de inglês, a menina Isabela Tainara desapareceu. Ela havia ligado para a mãe avisando que ia para casa, mas não voltou. A agonia durou 45 dias. O triste desfecho da história aconteceu no dia 22 de maio, quando o corpo da jovem de 14 anos foi encontrado em um matagal, na cidade satélite de Samambaia.

Estudos sobre as questões que envolvem imprensa e violência apontam que os crimes ‘leves’ entram na categoria de assuntos rotineiros dos jornais. Ou seja, não são mais vistos como novidade digna de primeira página no dia-a-dia das redações. Somente os acontecimentos insólitos, grandiosos ou extremamente cruéis se tornam valiosos jornalisticamente e ganham espaço prolongado na mídia.

Como é de praxe nas coberturas jornalísticas, então, o assassinato dominou a cobertura do principal jornal de Brasília – Correio Braziliense – durante algumas semanas. Ao longo do tempo, o assunto ‘esfriou’ e a cobertura de criminalidade do periódico voltou-se para temas habituais, como assaltos, seqüestros e outros crimes sem maiores conseqüências.

Erro fatal

No entanto, as histórias tendem a possuir começo, meio e fim. Assim que o corpo da jovem foi encontrado, abria-se uma nova lacuna na trama. Quem era(m) o(s) assassino(s) de Isabela Tainara? A resposta parcial veio quase um ano depois, no dia 15 de março de 2008. Um dos suspeitos confessou o crime em depoimento à Polícia Civil.

O assunto, que vinha morno, com cobertura periférica da mídia, voltou à tona no dia 07 de maio de 2008. Neste dia, o jornal Correio Braziliense publicou em seu portal da internet o vídeo do depoimento de Michael dos Santos, um dos suspeitos de assassinar Isabel Tainara. No vídeo, de 12 minutos e 31 segundos, Michael conta com detalhes a forma como abordou a menina e como foi o momento do assassinato.

A tentativa de trazer ao público uma informação sobre um caso que assustou a população da cidade esbarrou em um ponto crucial da convivência humana. Para tornar mais claro o argumento, cabe o velho ditado popular: ‘A sua liberdade termina onde começa a minha.’ O relato de Michael, principalmente quando ele descreve o estupro, é um desrespeito à família da menina e ao próprio jornalismo.

Se a hipótese do agenda-setting está certa, a mídia exerce grande influência sobre os assuntos que as pessoas irão discutir. O que quer dizer que cabe à imprensa definir os assuntos discutidos publicamente. Desta forma, cabe pensar se o jornal brasiliense pensou na dor que a família de Tainara sentiria ao ouvir indivíduos comentando sobre o tema na rua, na escola ou no clube. Ao tornar públicos os detalhes sobre a forma como a menina foi violentada, o jornal ocorreu em um erro fatal para o jornalismo.

Viés sensacionalista

O jornalismo tem seu compromisso com a sociedade, com a produção de material que atenda ao interesse público. Entretanto, em não poucas ocasiões, percebe-se que a agenda jornalística é definida pelas pressões da opinião pública e pela incessante busca de notícias que vão de encontro ao ‘interesse do público’. É curioso notar que em casos de violência não rotineira surge uma espécie de curiosidade mórbida nas pessoas, que se preocupam em saber detalhes escabrosos dos crimes – como evidencia a audiência dada à transmissão ‘ao vivo’ da reconstituição do assassinato de Isabella Nardoni.

Neste ponto, o jornalismo – privado, público ou estatal – deve lembrar seu compromisso educacional, de fornecer à sociedade informações objetivas e corretas, para que o cidadão que consome notícias forme sua opinião e possa interferir, de alguma maneira, na vida pública. O Correio Braziliense, ao exibir o vídeo, agiu com extrema irresponsabilidade, colaborando para que os assuntos ligados à violência urbana continuem sendo tratados pela mídia sempre com um viés sensacionalista. Ignorando os preceitos da prática responsável do bom jornalismo.

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Estudante de Comunicação Social do Centro Universitário de Brasília (UniCEUB)

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