Sábado, 23 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

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Cuidado, um computador pode roubar seu emprego

Por Steve Lohr em 12/09/2011 na edição 659
Reproduzido do New York Times, 11/9/2011; título e intertítulos do OI; tradução de Jô Amado

“O time de Wisconsin parece ter todas as condições de vencer, já que lidera o jogo por 51 a 10 após o terceiro quarto. Wisconsin aumentou sua vantagem quando Russell Wilson lançou Jacob Pederson para um touchdown, aumentando o placar para 44 a 3…” Com essas palavras, começava uma matéria a news brief escrita nos últimos 60 segundos de um jogo de futebol americano entre o Wisconsin e o U.N.L.V., no início deste mês. As palavras podem não significar muito – mas foram escritas por um computador. O sofisticado código é obra da Narrative Science, uma empresa recém-criada em Evanston, no estado de Illinois, que oferece provas do progresso da inteligência artificial – a capacidade de computadores imitarem a razão humana.

O software da companhia armazena informações, como essa de estatística esportiva, relatórios financeiros de empresas e a evolução do mercado da construção civil, e as transforma em artigos. Há anos programadores vêm experimentando softwares que escrevem artigos, principalmente de eventos esportivos, mas esses esforços resultavam num estilo de formulários, de resposta a questionários. Era como se uma máquina os tivesse escrito. Mas o trabalho da Narrative Science baseia-se em mais de uma década de pesquisas, dirigidas por dois dos fundadores da empresa, Kris Hammond e Larry Birnbaum, co-diretores do laboratório de informações inteligentes da Universidade Northwestern, que tem ações da empresa. E os artigos produzidos pela Narrative Science são diferentes. “Achei que fosse magia”, diz Roger Lee, parceiro da companhia Battery Ventures, que investiu 6 milhões de dólares na empresa no início do ano. “É como se um humano o tivesse escrito.”

Cobertura ampliada

Especialistas em inteligência artificial e linguagem também ficaram impressionados, embora menos maravilhados. Oren Etzioni, cientista da computação da Universidade de Washington, diz: “A qualidade da narrativa produzida foi bastante boa”, como se tivesse sido escrita por um humano, ou até por um escritor bem-sucedido. Na opinião de Etzioni, a Narrative Science aponta para uma nova tendência em computação, a “crescente sofisticação da compreensão de linguagem automática e, agora, de geração de linguagem”.

O trabalho inovador da Narrative Science levanta uma questão mais ampla: este tipo de aplicação de inteligência artificial irá principalmente assessorar trabalhadores humanos, ou irá substitui-los? A publicidade online, embora crescente, não teve como contraponto o declínio da publicidade impressa. Mas irão “jornalistas robôs” substituir jornalistas de carne e osso nas redações?

Os dirigentes da Narrative Science enfatizam que sua tecnologia seria, antes de tudo, uma ferramenta de baixo custo para que publicações possam expandir e enriquecer sua cobertura quando os orçamentos editoriais estiverem sob pressão. Fundada no ano passado, a empresa tem, até agora, 20 clientes. Vários deles ainda estão na fase experimental da tecnologia e Stuart Frankel, principal executivo da Narrative Science, prefere não divulgar seus nomes. Entre eles, há redes jornalísticas, que procuram oferecer artigos sucintos e automáticos para uma cobertura mais extensa de esporte da juventude local e para produzir artigos sobre os resultados financeiros quadrimestrais de empresas públicas locais. “Fundamentalmente, estamos fazendo coisas que, de outra forma, não seriam feitas”, diz Frankel.

Sugestões de editores

Os clientes da Narrative Science dispostos a falar correspondem a esse modelo. The Big Ten Network, uma joint venture da Big Ten Conference e da Fox Networks, começou a usar a tecnologia na primavera de 2010 para replays curtos de jogos de beisebol. Eram postados no site da rede um ou dois minutos após o fim de cada jogo; boxes com os placares e informações sobre algumas jogadas eram usados para a produção de artigos concisos. (Antes disso, a rede de notícias baseava-se em relatos sucintos, online, fornecidos pelos departamentos de esporte das universidades.) À medida que progredia a temporada de esportes da primavera, os artigos produzidos por computador melhoraram, ajudados pelas sugestões de editores da equipe da rede, diz Michael Calderon, vice-presidente para mídia digital e interativa da Big Ten Network.

O software da Narrative Science pode fazer deduções com base na informação cronológica que coleta, assim como na sequência e resultados de jogos anteriores. Para produzir os “ângulos” da matéria, explica Kris Hammond, da Narrative Science, o software aprende conceitos para os artigos, como “esforço individual”, “esforço em equipe”, “vindo de trás”, “para trás e para a frente”, “os melhores da temporada”, “a carreira do jogador” e “classificação por time”. Então, o software decide qual é o elemento mais importante para aquele jogo, o que se torna o lead do artigo, diz ele. Um placar dilatado pode ser qualificado como “goleada”, ao invés de “vitória”. “A composição é o conceito-chave”, diz Hammond. “Não se trata apenas de coletar informações e jogá-las no texto.”

No outono do ano passado, a Big Ten Network começou a usar a Narrative Science para atualizações de jogos de futebol americano e basquete. Essas reportagens ajudaram a criar uma onda de referências no site do mecanismo de busca Google, que dá uma boa colocação a novos conteúdos de assuntos populares, diz Calderon. O tráfego da rede para jogos de futebol foi 40% superior, nesta temporada, em comparação ao de 2009.

10 dólares por artigo

A Hanley Wood, que edita publicações para a indústria da construção, começou a usar o programa no mês de agosto para a produção de reportagens mensais sobre mais de 350 mercados imobiliários locais, que colocou em seu site, BuilderOnline.com. A empresa coletava dados há muito tempo, mas contratar pessoas para escrever artigos sobre as tendências teria saído caro, diz Andrew Reid, presidente da unidade de inteligência para mídia digital e mercado da Hanley Wood. Ele diz que a empresa trabalhou com a Narrative Science durante meses para adequar o software para construção. Ex-executivo da Thomson Reuters, ele diz que ficou pasmo pela boa qualidade dos artigos. “Eles superaram uma enorme barreira linguística”, observa. “As matérias não são, de maneira alguma, cópias.”

Também ficou impressionado com o custo. A Hanley Wood paga à Narrative Science menos de 10 dólares por cada artigo de cerca de 500 palavras – e é bem possível que, com o passar do tempo, esse preço caia ainda mais. Mesmo a 10 dólares, o custo é bem inferior, pelas estimativas da indústria, ao custo médio, por artigo, de sites locais, como o Patch, da AOL, ou os sites de resposta, como aqueles dirigidos pela Demand Media.

E o Pulitzer vai para o computador

Entre as ambições da Narrative Science, uma é continuar crescendo em matéria de qualidade. Tanto Larry Birnbaum quanto Kris Hammond são professores de jornalismo e de ciência da computação. A própria empresa é uma consequência da colaboração entre as duas escolas. “Este tipo de tecnologia pode aprofundar o jornalismo”, diz John Lavine, decano da Escola de Jornalismo Medill, da Universidade Northwestern.

Hammond diz que a combinação dos avanços em seu dispositivo de escrita e de localizar informação podem abrir novos horizontes para o jornalismo digital, explorando “correlações entre o que você não esperava” – do ponto de vista conceitual, similares às do livro Freakonomics: A Rogue Economist Explores the Hidden Side of Everything, escrito por dois humanos, o economista Steven D. Levitt e o escritor e sociólogo Stephen J. Dubner. Hammond citou ainda uma previsão de especialistas em mídia de que um programa de computador possa ganhar o Prêmio Pulitzer dentro de 20 anos – e pediu para discordar. “Dentro de cinco anos”, disse, “um programa de computador irá ganhar o Prêmio Pulitzer – e não tenho qualquer dúvida de que será a nossa tecnologia.”

Caso isso ocorra, é claro que o prêmio não será concedido a um código abstrato, mas a seus criadores humanos.

***

[Steve Lohr é jornalista, The New York Times]

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