Quinta-feira, 20 de Junho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1042
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Alfabetização e letramento digital

Por Marcos Fabrício Lopes da Silva em 30/06/2015 na edição 857

Alfabetizado é todo aquele que, embora saiba decodificar os sinais gráficos de seu idioma, ainda não se apropriou plenamente das habilidades de leitura e escrita. São aqueles indivíduos que passaram por uma escola, porém leem com dificuldade e pouco escrevem e, quando o fazem, produzem apenas gêneros discursivos considerados mais simples. Ao discorrer sobre o letramento, Magda Soares comenta este princípio como sendo “o estado ou condição de quem exerce as práticas sociais de leitura e de escrita, de quem participa de eventos em que a escrita é parte integrante da interação entre pessoas e do processo de interpretação dessa interação”. Este parecer, compartilhado pela autora, no artigo “Novas práticas de leitura e escrita: letramento na cibercultura” (2002), encontra respaldo em um contexto de prática socioculturalmente estabelecida que permite à pessoa apoderar-se de suas vantagens e participar ativamente nas decisões da comunidade a que pertence.

No contexto do letramento digital, acrescentamos que ser letrado é poder interagir em ambientes digitais, isto é, realizando práticas de leitura e escrita que diferem das práticas tradicionais. É saber pesquisar, selecionar, utilizar as diversas ferramentas disponíveis para cumprir propósitos variados, é se relacionar com seus pares, aprender constantemente, construir, transformar, reconstruir, exercer autoria, compartilhar conhecimento, sempre utilizando os recursos da Web, quer para sua vida pessoal ou profissional. Nesse contexto, Marcelo El Khouri Buzato, na dissertação de mestrado intitulada “O letramento eletrônico e o uso do computador no ensino de língua estrangeira: contribuição para a formação de professores” (Unicamp, 2001), salienta que a especificidade do letramento eletrônico está em “ele incluir o conhecimento e habilidade necessários para fazer marcas numa era eletrônica com dispositivos eletrônicos”.

Buzato defende a tese de que haja estágios de formação que representam o letramento digital, destacando-se o iletrado eletrônico, o semiletrado eletrônico e o letrado eletrônico. O iletrado eletrônico é comparado ao analfabeto no sentido tradicional, sendo incapaz de atribuir qualquer sentido a uma palavra qualquer no computador. Os semiletrados eletrônicos, por operar na camada básica, ou seja, no sentido do letramento alfabético, conseguem identificar boa parte das teclas ou reconhecer elementos que estejam mais correlacionados com o texto impresso. Todavia, falta a eles as convenções peculiares do meio eletrônico, sem as quais ele se torna incapaz de construir sentido efetivo a partir do que se apresenta na tela. Por fim, o letrado eletrônico “dispõe não só de conhecimento sobre propriedades do texto na tela que não se reproduzem no mundo natural como também sobre as regras e convenções que o habilitam no sentido de trazer o texto à tela”.

O objeto é que seduz

Em “Canção quase disco” (2014), o músico e compositor Mamutte, pela voz poética, conta os caminhos e descaminhos vividos pelo artista em busca de um letramento eletrônico compatível com a difusão pública de sua obra. Ciente da repercussão ventilada pelas redes sociais, o artista mineiro, com irreverência crítica, descreve, com riqueza de detalhes, o percurso operacional extenso de quem se habilita a fazer uso comunicacional da plataforma digital para fins artísticos e culturais:

“É desse jeito/Que se sente um instrumento/Se estuda seu talento/E se propõe um áudio-som/É com essa forma/Que se desenha a tessitura/Se percebe suas alturas/E se tira o tom da música/É nesse meio/Que se tenta algum contato/Se mantém um entrelaço/E se descola uma ajuda/Se não tem jeito/Vai embora pro teu quarto/Liga o seu notebook/E vai aprender a gravar/É multipista/O recurso dessa track/Se só salvar, mix down/Sem Save as, já perde o resto/Baixa o programa/Esse software é crakiado/Já deu Bug, faz logoff/Logo perco meu trabalho/É desse jeito/Que se faz o itinerário/Grava no fundo do quarto/Sendo um arte-sonoplasta/Tem que entender/Dos aparelhos e dos seus fios/Plug banana-banana/Macho/Fêmea é onde in-fia/Tem que saber/Das novas tecnologias/Da ciência, matemática/E ser também eletricista/É desse jeito/Que se pensa um argumento/Regionaliza seu projeto/E se insere no incentivo/Pra ser aprovado/Tem que fazer uma ciranda/Uma moda de viola, um batuque e ou uma Zanza/É desse modo, pede ajuda para os amigos/Faz um vídeo, um artifício/E se produz um quase disco/Bem não se esqueça/De acessar a rede socite, a web/E divulgar online, o MP3 do quase-disco./É desse jeito que se faz um quase disco.”

Pela letra em questão, percebe-se que, além da natureza e dos homens, as coisas também se configuram como agentes de educação do sujeito humano, pois viabilizam a aquisição de experiência sobre os objetos. A canção de Mamutte, com inteligência irônica, trata da proliferação magnânima dos objetos técnicos, como acontece na sociedade contemporânea, na qual a interação intersubjetiva abre espaço cada vez maior para uma interobjetividade instrumental, em que objetos se comunicam entre si, e para uma interatividade social, em que os indivíduos interagem aceleradamente por meio da tecnologia eletrônica. Considerando o protagonismo humano à frente, a voz poética de Mamutte, nas entrelinhas, desconfia da potência própria e soberana do objeto. Uma das razões que explica o aspecto “quase” ressaltado pelo cantor pode ser apresentada assim: não é mais o sujeito que deseja, é o objeto que seduz. Engana-se quem acha que tudo parte do objeto e a ele tudo retorna, como tudo parte da sedução e não do desejo.

***

Marcos Fabrício Lopes da Silva é professor da Faculdade JK, jornalista, poeta e doutor em Estudos Literários

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