Terça-feira, 18 de Junho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1041
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Da onomatopeia gráfica à cauda longa

Por Lucrécio Arrais Neto em 30/06/2015 na edição 857

deep web é tudo aquilo que está na internet mas não aparece nos buscadores convencionais. A presente assertiva, em menos de 140 caracteres, define a amplidão dividida em camadas que está bem abaixo do que acessamos, ou deveríamos acessar. Dentre benefícios a viagens sem volta por um mundo ilegal, este espaço obscuro da internet impressiona pelo absurdo intrínseco a ele.

Nesta vastidão de conteúdo existe, da forma mais literal conhecida, de tudo um pouco do que é inimaginável. No entanto, a deep web deve ser diferida de termos como dark internet, que diz respeito a todo o conteúdo que se tornou inalcançável pelos meios convencionais de acesso à internet. Também não existe relação entre o termo e darknet, que é uma rede subjacente e sem camadas que existe para manter o anonimato de dados.

De modo geral, a deep web é divida em cinco camadas. É importante ressaltar que é arriscado acessá-las, especialmente as últimas, que possuem um grau de risco ainda maior. O usuário pode se complicar com a polícia ou ter danos irreversíveis em seu computador, além do risco de ter dados vazados.

O vazamento de dados traz inúmeros transtornos para o internauta aventureiro que busca conteúdo – não importa de que natureza – na deep web. Isso pode ocasionar cartões de crédito clonados, contratação de planos que não foram autorizados e desfalque em conta corrente/poupança, além de problemas mais comuns como a invasão de contas de e-mail e redes sociais.

Para evitar estes empecilhos, até quem não usa a deep web deve manter um bom antivírus nas máquinas domésticas e evitar logar e-mails em qualquer computador. Ainda mais quando este indivíduo busca desbravar o obscuro abaixo da web que o mundo acessa diariamente através de dispositivos.

As camadas: o que há além da superfície?

Segundo Marcel Camp (disponível em: http://vemaquinomeublog.blogspot.com.br/2014/04/mergulhando-na-deep-web-suas-camadas-e_11.html) a primeira camada da deep web (simple) pode ser acessada pelo navegador comum. É onde o usuário encontra diversos e inúmeros arquivos não indexados pelos buscadores, a exemplo de artigos sobre vírus (quem cria, como dissemina e porquê), matérias e depoimentos sobre hackerscrackers, conteúdo adulto dos mais variados, manuais de suicídio, eutanásia, relatos de doenças fabricadas, documentos que revelam o funcionamento de organizações mafiosas etc. As portas comuns de acesso são o torrent, thepiratebay.com e links compartilhados.

A segunda (charter web) é o máximo a que muita gente – com conhecimento mediano em informática – consegue chegar, já que é difícil e demorado para acessá-la. Nesta camada encontram-se livros proibidos, projetos militares, artigos censurados, arquivos perdidos, confidenciais, downloads de músicas e filmes banidos da internet normal. Nesta área também tem muita pornografia pesada, tais como conteúdo pedófilo (é conhecido na internet com CP –Child Porn), necrofilia, zoofilia e outros tipos. Nesta parte da internet também há vídeos reais de tortura, massacre, assassinatos, compra e vendas de drogas, armas, contratação de matadores, mercenários e grupos de extermínio. Esta parte da web é monitorada pela Polícia Federal e FBI.

Por outro lado, a camada três (mariana’s web) é onde começa a “mitologia virtual”. É que não há como confirmar a veracidade do conteúdo desse nível, já que os relatos dos navegadores dessa terceira camada dizem que 80% das coisas encontradas não passam de lendas urbanas, criadas com o intuito de provocar choque e “trollar” os internautas. O próprio nome desta camada é questionado. Algumas fontes dizem que não quer dizer nada, mas muitos cultuam a lenda de que Mariana foi a primeira hacker a obter acesso aos conteúdos presentes neste setor da deep web.

A quarta camada (virus soup) não tem esse nome à toa. Este é um verdadeiro campo de batalha entre hackers e crackers. É onde todos tentam entrar na última camada, e para isso, impedem outros de o conseguir. Uma verdadeira disputa virtual, onde vírus, invasão cibernética e criptografias das mais variadas acontecem. A quinta e última camada (the primarchy system) é onde todos querem estar para descobrir o grande segredo da internet: o “Sistema Primarca”. Anonimamente descoberto no começo dos anos 2000, esse sistema envia informações inalteráveis e invisíveis para todas as camadas da internet e em todas as redes mundiais de todos os continentes mundiais. Há várias teorias de conspiração relacionadas a essa última camada.

De Foucault a Chris Anderson

Nesta vastidão de conteúdo existe, da forma mais literal conhecida, de tudo um pouco do que é inimaginável. O inimaginável passa pelos horrores mencionados a downloads de discografias, livros, filmes e conteúdo que não é todo mundo que pode pagar. A deep web é o transver da web, tal qual a onomatopeia imagética sugerida pelo filósofo francês Michel Foucault em “Isto Não É Um Cachimbo” (Ceci n’est pas une pipe). A internet está para o quadro assim como a web é o cachimbo e a deep web o que está, mas que não é visto.

De forma simplificada, existem infográficos pela internet que explicam as camadas da deep webusando um iceberg. Porém, faz-se menos inteligível esta representação. Porque embora invisíveis sob as águas, as camadas de gelo de um iceberg são mais estáveis que o conteúdo imprevisível do quadro do surrealista belga René Magritte, que só é “visto” por quem realmente entende ou leu o que escreveu Foucault.

É que a web é maior que a imensidão do mar, acreditam os cientistas da computação. Imagine de um iceberg. A incitação criativa de um quadro modernista que explica a metáfora do que é ou não é um objeto, até o ponto em que é questionado o que é e o que não visto no Google ou no Yahoo, que são universos limitados na própria existência. Ainda que pareçam ilimitados nas interpretações, como o quadro.

Em verdade, a discussão em cima do quadro do Magritte é um excelente gancho para entender, de fato, o que é a deep web, que surge da mesma raiz dos nichos mencionados por Chris Anderson em A Cauda Longa (The long tail). Que nada mais é do que a necessidade dos nichos obterem determinados conteúdos ilegais na deep wep e permitidos (vendidos também) na web.

Mas ainda sobre o processo de “nichificação”, basta lembrar que os pedófilos que acessam a chamada CP não deixam de ser um nicho. Nem aqueles que contratam bonecas sexuais humanas – pessoas que têm os membros amputados para satisfazer o prazer sexual de quem está disposto a pagar – para atrocidades traduzidas em sofrimento. Porém, ao contrário da cauda de Anderson, a grande cauda da deep web não figura em escalas.

No Twitter também há conteúdo da deep web, assim como há em todas as redes sociais em que existe a troca de informações. Afinal, baixar conteúdo de links disponibilizados nestas redes que redirecionam o usuário para conteúdo que não está nos buscadores é, sim, um dos portais de acesso a esta parte obscura, mas nem tão desconhecida assim da internet.

deep web é vista como algo de outro mundo, ao mesmo tempo em que é acessada por muita gente que nem ao menos sabe onde está encontrando determinado conteúdo, que existe entre as duas primeiras camadas. O acesso a estas camadas profundas – porém rasas – da internet pode ser utilizado tanto para benefício próprio – baixar material que possui custo alto – quanto para prejudicar pessoas. Neste caso, é importante salientar o cuidado redobrado para quem se arrisca a aventurar ser no que está fora do Google, Yahoo e OneDrive.

À luz do Foucault, uma onomatopeia gráfica, e por Anderson, um grande concentrado de nichos clandestinos. Essa é a deep web, sincretizada a conceitos que permitem um melhor entendimento de seu conteúdo.

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Lucrécio Arrais Neto é repórter

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