Segunda-feira, 18 de Março de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1028
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Democratização da mídia e lucros para as empresas

Por Valério Cruz Brittos e Eder Fernando Zucolotto em 26/06/2007 na edição 439

O webjornalismo participativo é um dado relativamente novo nas discussões sobre a mídia, tendo sido possível seu estabelecimento como movimento transformador do modo como as notícias são produzidas e veiculadas devido à inovação tecnológica. Porém, o webjornalismo participativo é apenas uma nova face do jornalismo-cidadão, apresente-se este como jornalismo participativo, jornalismo colaborativo, citizen journalism (no seu original em inglês) ou jornalismo open source. Entretanto, o webjornalismo participativo não deve ser confundido com o jornalismo cívico, aquele que tem como fundamento as notícias de interesse específico e direto da cidadania.

No jornalismo-cidadão, além de consumidor de notícia, o sujeito também é gerador de informações no meio comunicacional. Tal modalidade existe desde o início da imprensa, através de colaborações de indivíduos comuns, sem formação acadêmica, em jornais, primeiramente, e depois em revistas e emissoras de rádio e televisão.

Estabelecendo-se uma linha demarcatória, foi há cerca de uma década, com o advento da internet comercial, que o jornalismo-cidadão começou a engatinhar em direção ao que é hodiernamente conhecido como webjornalismo participativo. A exemplo de outros movimentos ligados às tecnologias digitais, sua presença foi avassaladora e de grande proporções na chamada sociedade do conhecimento, transformando definitivamente a forma de produzir e consumir notícias.

As possibilidades do blog

Como a velocidade de conexão no princípio da internet era lenta, o webjornalismo participativo surgiu nesse ritmo. Ele se desenvolvia, na época, através de listas de discussão em endereços eletrônicos. Envolvia grupos pequenos, geralmente de universitários, ou de aficionados por computador, que discutiam assuntos de interesse mútuo, por intermédio da internet. Eram listas de discussão com material jornalístico dotado de poucos recursos, contando apenas com textos, devido ao peso das fotos ser de difícil transmissão na vagarosa internet de então.

Primordialmente, as empresas jornalísticas convencionais subestimaram o potencial dessa nova tecnologia, como via de regra fazem, sendo os usuários que deram os primitivos passos. Primeiro foram as páginas de internet, que, embora confusas e com menos informação do que poderiam abrigar, começaram a esboçar opiniões e versões mais variadas de fatos. A partir delas surgiram os blogs, de cunho mais autoral e opinativo, veiculando notícias colhidas, ou às vezes apenas filtradas, por seus autores. Começavam aí as empresas jornalísticas a assimilar as possibilidades do blog, de forma que, em episódios como a Segunda Guerra do Golfo e a passagem do furacão Katrina, a cobertura da imprensa utilizou-se, inclusive, do auxílio de cidadãos que vivenciavam os fatos e postavam suas opiniões e notícias por via desse instrumento.

Baixíssimo investimento

Sites, blogs, fotologs, fóruns, toda uma sorte de dispositivos está disponível na rede mundial de computadores, para consumo e produção. Foi sintonizado com essa nova forma de produzir e consumir informações que surgiu o webjornalismo participativo. A sua primeira grande expressão foi a criação, em 2000, do sítio sul-coreano Ohmynews, o qual era inicialmente editado apenas em coreano, veiculando informações repassadas por internautas da Coréia do Sul. Posteriormente, devido ao grande sucesso do sítio, estendeu sua edição também ao inglês, incorporando notícias internacionais. Os materiais fornecidos pelo público, antes da publicação (motivando pagamento), passam pela avaliação e edição de uma equipe de jornalistas profissionais.

O webjornalismo participativo tornou-se recorrente entre os grandes veículos de todo o mundo. Nos Estados Unidos, jornais do porte do Washington Post e do New York Times aderiram ao jornalismo-cidadão, abrindo espaço para a participação do leitor no envio de notícias, tudo dentro de suas estratégias mercadológicas, de adaptação às mudanças sociais e ao novo consumidor, atualmente mais exigente e em constante mutação. Presentemente, muitas empresas jornalísticas usam o webjornalismo participativo como estratégia de conquistar e fidelizar receptores, aumentando a rentabilidade de seus negócios, com baixíssimo investimento.

O direito de publicar ou não

No Brasil, há vários exemplos de webjornalismo participativo, todos recentes. No segundo semestre de 2005, o jornal O Estado de S.Paulo foi pioneiro no país, pelo menos entre as grandes organizações midiáticas, ao criar o fotorrepórter, no qual só é possível o envio de fotos, que são pagas aos autores caso venham a ser publicadas fora do sítio, na forma impressa, ou vendidas pelo grupo. Em fevereiro de 2006, o portal Terra lançou o Vcrepórter, através do qual qualquer pessoa pode enviar fotos e matérias, cuja veiculação depende de verificação interna prévia. As matérias não são pagas, também não sendo difundidos conteúdos opinativos.

Já o portal iG lançou o Minha Notícia, em junho de 2006, modelo que, ao contrário da maioria dos canais de webjornalismo participativo brasileiro, aceita materiais de opinião. Entretanto, requer prévio cadastro no iG, antes de qualquer envio. Em setembro de 2006, o iG abriu mais um espaço para o webjornalismo participativo, através do Jornal de Debates, sob responsabilidade de Paulo Markun, tratando-se de uma versão diferenciada da publicação de mesmo nome que circulou no Brasil nos anos 1940, provando novamente que a interação do cidadão com a mídia não nasceu com a internet.

Uma das últimas iniciativas dos grandes veículos brasileiros no campo do webjornalismo participativo veio do Globo Online, com o lançamento, em setembro de 2006, do Eu-Réporter. O canal funciona nos mesmos moldes de outros webjornais participativos brasileiros, mas neste caso os editores se reservam o direito de publicar ou não a matéria, mesmo que sua veracidade seja certificada. Além disso, é necessário que o participante seja cadastrado para o encaminhamento de notícias ao sítio.

Sistematização e ordenamento de dados

O webjornalismo participativo está se firmando como um novo recurso midiático. Porém, esse novo canal abre uma discussão sobre a validade de notícias captadas e produzidas por pessoas sem formação acadêmica jornalística. Alguns entusiastas compreendem o webjornalismo participativo, bem como todo jornalismo-cidadão, como a total democratização dos meios. Para seus defensores, esse novo modo de lidar com a informação atenua o domínio dos oligopólios de mídia, espalhados em todo o mundo, com ramificações globais, diluindo tal poder entre os indivíduos comuns.

Já para os contrários, ou pelo menos não tão entusiastas com o jornalismo-cidadão, não passa de uma ilusão de democracia, sob o argumento de que a disposição do profissional a um segundo plano, na obtenção da notícia ou na sua produção, leva a problemas de qualidade editorial. Isso por ser difícil para alguém sem formação acadêmica em jornalismo (e tende a ser complexo até para profissionais) manter a objetividade jornalística numa matéria. Especialmente por isso, circulam na internet manuais com dicas de jornalismo, trabalhando seus conceitos básicos.

Seja como for, é inegável que o jornalismo-cidadão contribui para a democratização da difusão simbólica, embora esteja longe de resolver o problema. Possui inúmeros defeitos, devido ao amadorismo do público, quanto a técnicas e responsabilidades do jornalismo, e à sua circunscrição como uma estratégia de captação de consumidores, quando implementado por indústrias culturais. Mas também apresenta aspectos positivos, somando-se ao processo de pulverização das fontes informacionais. O jornalista, por sua vez, segue em seu papel, até renovado, já que, diante de tantos conteúdos, é cada vez mais fundamental sua mediação, colaborando com os receptores nos processos de sistematização e ordenamento dos dados.

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Respectivamente, professor no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da Unisinos e doutor em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela UFBA; e graduando em Comunicação Social – Jornalismo pela Unisinos, RS

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