Sexta-feira, 22 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
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E-NOTíCIAS > LÍNGUA PORTUGUESA

Deonísio da Silva

20/04/2004 na edição 273

‘‘Nem se pode dizer que são feitas para inglês ver’, escreveu Machado de Assis sobre as posturas municipais, no longínquo 1893. ‘Para inglês ver’ é uma dessas expressões que se incrustam no repertório nacional e passam a sintetizar um conjunto complexo de significados.

Quem a proferiu pela primeira vez foi dom João VI, ao chegar à Bahia, no entardecer de 22 de janeiro de 1808. Ele fugia dos franceses, que tinham invadido Portugal no ano anterior. Registrar a partida, no ano de 1807, seria indicar uma fuga vergonhosa, segundo alguns historiadores. Para outros, uma retirada estratégica, bem típica da criatividade do gênio português. Registrar a chegada consolida um significado positivo. Com efeito, com a vinda da família real para o Brasil, a matriz e a colônia foram preservadas da sanha de Napoleão.

A cidade de Salvador, então capital, estava iluminada e o rei comentou que aquela recepção festiva demonstrava aos ingleses, aliados e protetores dos portugueses, que os brasileiros recebiam-no calorosamente.

Mais tarde, a frase se transformaria em símbolo de burla nacional ou internacional, sempre de grandes proporções, em que são utilizados vistosos aparatos para enganar. Alguns historiadores dizem que a frase pode ter nascido da fingida vigilância com que os navios brasileiros procuravam navios negreiros. Faziam isso apenas para agradar aos ingleses, que haviam proibido o tráfico de escravos.

Outras nacionalidades e etnias estão presentes em expressões de nossa língua, no léxico e na sintaxe. Judeu é um dos exemplos. Os dicionários informam que, além de designar etnia, habitante da Judéia e praticante da lei de Moisés, indica também o sujeito avarento ou usurário. Usurário é sinônimo de agiota e designa o capitalista que cobra juros excessivos. E o verbo judiar aparece como sinônimo de maltratar no romance O Cabeleira, de Franklin Távora: ‘agora ele não judiava só com os animais. Ele saqueava plantações e matava gente’. Também o escritor catarinense Guido Wilmar Sassi escreve em Piá: ‘frio, muito e muito frio, e judiando da gente pobre’.

O índio, sob cuja designação estão abrigadas numerosas etnias e culturas, também é vitimado pela língua portuguesa, a começar pela expressão ‘programa de índio’, que designa atividade ou entretenimento chato, sem graça, aborrecido, lembrando a indolência que grassa nas aldeias, principalmente em dias de calor, quando não há o que fazer a não ser render-se à preguiça.

E ‘sair à francesa’ é qualificado como costume francês, pelos ingleses. Os franceses, que primam justamente pela etiqueta, inverteram a expressão para ‘sair à inglesa’. Nos dois casos, indica o ato de abandonar uma festa sem se despedir de ninguém. Se ‘sair à francesa’ é frase que pode ter tido origem em costume francês que na hora da partida evitava interromper o divertimento dos outros convivas, pode também estar radicada na expressão ‘saída franca’, indicando mercadorias sem impostos, que não precisavam ser conferidas.

Alguns pesquisadores situam o surgimento da expressão na época das invasões napoleônicas, mas o escritor português Nicolau Tolentino de Almeida, falecido em 1811, aos 71 anos, cuja poesia satírica visava aos usos e costumes de Lisboa, registrou-a muito antes nestes versos: ‘Sairemos de improviso/ despedidos à francesa’.

Nenhuma etnia, porém, é mais maltratada em expressões do português do que a africana, de que é exemplo a preconceituosa ‘serviço de negro’. Grande injustiça! Se não fosse o serviço dos negros, estaríamos todos na Idade da Pedra Lascada, aborrecidos com programas de índios.’



JORNAL DA IMPRENÇA
Moacir Japiassu

‘Fora do Manual’, copyright Comunique-se (www.comunique-se.com.br), 16/04/04

‘Nosso considerado Marco Antonio Zanfra, de Florianópolis, autor do Manual do Repórter de Polícia, lia o Diário Catarinense de sábado, 3 de abril, quando foi assaltado por este título:

Mulher é condenada a 20,8 anos pela morte da filha Aniara.

Aí, Zanfra recordou as aulas de matemática dos tempos de ginásio: ‘Pensei: oito décimos de um ano correspondem a 9,6 meses, ou nove meses e 18 dias. Portanto, a desnaturada mãe foi condenada a 20 anos, nove meses e 18 dias, certo?

Errado: o texto da repórter Alessandra Ogeda descreve ‘auditório lotado durante oito horas, policiamento reforçado e a sentença de 20 anos e oito meses de condenação para Simone Aparecida Schneider’. Ou seja, o redator do DC cometeu um erro que eu não via desde justamente os meus tempos de ginásio: confundiu o ano com uma grandeza decimal e, na defesa de uma questionável precisão, tascou uma clamorosa gafe aritmética.

Ao comunicar ao editor do jornal, Cláudio Thomas, o erro cometido em primeira página, defendi publicamente a exigência de diploma para os jornalistas — pelo menos o do Primeiro Grau!’

Janistraquis apóia inteiramente a posição do Zanfra: ‘Do Primeiro Grau tem que ter, considerado; tem que ter!’

Curitiba dá exemplo

O Rascunho, único jornal brasileiro dedicado à crítica literária, completa quatro anos de vida e chega amanhã (16/4) às mãos dos leitores em edição comemorativa, encartada no Jornal do Estado, de Curitiba. A distribuição aos assinantes começa logo em seguida.

Recheada de novidades em suas 36 páginas, a edição especial festeja a vitória do conhecimento sobre a alienação, neste país onde omissões e apadrinhamentos costumam ser confundidos com ‘política cultural’.

Esta edição (número 48) do Rascunho traz uma entrevista com Millôr Fernandes realizada à moda antiga: entrevistado e entrevistador frente a frente, com um gravador entre eles. Millôr Fernandes, que nunca foi muito amigo de entrevistas, concordou em falar ao jornal. Às vésperas de completar 80 anos, ele solta veneno, humor e honestidade numa conversa de barba, cabelo e bigode com Paulo Polzonoff Jr.

Esta coluna cumprimenta a equipe do Rascunho, dirigida por Rogério Pereira, um raro jovem que sabe das coisas.

Memória

Nosso considerado Gilson Caroni Filho, professor-titular da Facha (Faculdades Integradas Hélio Alonso, do Rio) escreveu no Observatório da Imprensa excelente artigo sobre os 20 anos do movimento Diretas Já, intitulado O último favor aos generais. É leitura obrigatória; dêem, por favor, um pulinho até lá.

Fala, Kajuru!

Carlos Nascimento e Joelmir Beting, que batem um bolão de competência, simpatia e bom humor no Jornal da Band, esticaram a perseguida para Jorge Kajuru e este mandou um canudo em direção à linha de fundo; na opinião dele, a Justiça deveria proibir as torcidas organizadas nos estádios de futebol. Kajuru estava indignado porque torcedores de Atlético e Cruzeiro envolveram-se numa briga de quadrilheiros, domingo passado, da qual resultou morto um desarmado cruzeirense.

Janistraquis condenou o crime, é lógico, mas também não concorda com a opinião de Kajuru: ‘Considerado, num país onde tudo o que não é proibido é obrigatório, deveriam pelo menos deixar a arquibancada pra lá e botar a polícia no pé dos bandidos travestidos de torcedores. Por que acabar com as organizadas se o problema é criado por meia dúzia? Isso é um jeito de empurrar com a barriga!’.

Neologismo arretado

Celsinho Neto, diretor de nossa sucursal cearense, saltou da rede armada na Praça do Ferreira e, solenemente, botou a boca no trombone:

‘Os colegas daqui da terrinha estão insuperáveis no quesito criatividade. Veja este título publicado em matéria da editoria de esportes do nosso insubstituível Diário do Nordeste: Fortaleza mais perto do biarastão.

Mas, que diabo era mesmo ‘biarastão’?? Aí não teve jeito: somente correndo os olhos pelo texto esse enigma de esfinge poderia ser desvendado. Então, fomos lá:

‘Por ter feito melhor campanha na fase classificatória, o Tricolor precisa de apenas um empate. Nessa hipótese, será bicampeão arrastão, haja vista já ter faturado o 1º turno. O Fortaleza mandou na primeira etapa e perdeu a chance de golear o seu adversário.’ Quer dizer: biarastão significa ‘bicampeão arrastão’, título que identificaria o time vencedor dos dois turnos do campeonato cearense.’

Pois é, Celsinho, Janistraquis concorda com você: vai gostar de neologismo assim no raio que o parta!

Velho é bom!

Este colunista agradece aos leitores de todo o país pelas excelentes notinhas que nos têm enviado e garante que aos poucos Janistraquis, provedor do nosso espaço, aproveitará todas. E quem tiver material antigo, pode mandar porque garantimos a serventia. Afinal, nossos trancos e barrancos não são apenas inesquecíveis mas, principalmente, imprescritíveis, para folgança de todos os arquivos.

Jogam (e bebem)

Diretor da nossa sucursal brasiliense, de cuja sala principal enxerga-se o gramado do Palácio do Planalto, onde uma vaca tem caminhado ao léu, Roldão Simas Filho lia a Tribuna da Imprensa, um solitário vício da juventude, quando deparou com esta notícia:

Jogadores se proíbem de entrar em cassinos nos Estados Unidos, era o título. O texto apostava na criatividade, como só acontece na Redação do Diário do Nordeste:

‘(…) Afinal, a jogadora compulsiva, de 49 anos, baniu-se voluntariamente de freqüentar cassinos em agosto de 2002, através de um programa criado para mantê-la e a outros adictos longe do jogo.’

Mestre Roldão, que não joga mas também não perde uma, estranhou:

‘Adictos? Que diabo de tradução é esta? Na nossa língua se diz viciados e todos entendem!’.

Janistraquis reagiu como Celsinho Neto: ‘Arriégua, considerado!!!’

Velha concordância

Só para demonstrar que o bom jornalismo não tem idade, nosso provedor Janistraquis abriu o baú e retirou de lá, mofada mas cheia de vida, esta nota enviada pelo nosso considerado José Truda Júnior, ainda do tempo em que a popularidade do presidente subia mais que foguete no reveillon:

‘Saiu na Folha Online, sob o título Lula defende retirada de tropas americanas do Iraque:

‘(…)Lula defendeu também a expansão do Conselho de Segurança da ONU e voltou a pedir a inclusão do Brasil como membro permanente. Segundo o presidente, as negociações de paz no Oriente Médio deve passar por resoluções do Conselho, que devem ser ‘abrangente, justa e duradoura’.

Isto é o que se chama se concordância perfeita, hein?’.

É mesmo, Truda; ‘as negociações deve’, ‘as resoluções devem ser abrangente’… Janistraquis, que assistia ao Domingão do Faustão, expeliu: ÔÔÔÔ LÔÔÔÔCO, SÔ!!!

Nota dez

O melhor texto da semana saiu do pequeno frasco onde se guardam os tais grandes perfumes que não estão à venda nos supermercados; trata-se de uma legenda da Veja, sob foto de Sérgio Lima (Folha Imagem), que revela a face doméstica do homem mais famoso da República:

Waldomiro Diniz, que, depois de um longo sumiço, foi flagrado fazendo compras num supermercado da capital: nada a dizer.

Segundo Janistraquis, este é excelente exemplo da utilização perfeita do verbo flagrar: ‘Pois é, considerado; Waldomiro é tão suspeito, mas tão suspeito, que não pode ser apenas ‘surpreendido’ quando vai às compras; um cabra desses será sempre apanhado em flagrante’, festeja meu secretário, numa prova de que não ‘persegue’ a indispensável, como dizem alguns; afinal, o talento está acima de tudo.

Errei, sim!

‘SERIADO FATAL – Depois de ler as matérias sobre assassinatos por encomenda em todo o Estado de Alagoas, Janistraquis se chegou com uma idéia: ‘Considerado, a coisa é tão impressionante que dá até seriado de televisão!’. Em seguida, telefonou para Serjão Motta Mello, da competente TV-1, e sugeriu – ‘em vez de Gente Que Faz, que tal uns 200 capítulos de Gente Que Manda Fazer?’. É bem pensado.’ (julho de 1993)’



BORGES CRÍTICO
Correio Braziliense

‘O lado crítico de Jorge Luis Borges’, copyright Correio Braziliense, 13/04/04

‘Jorge Luis Borges viveu muito e escreveu muito. Dedicou-se à literatura como um monge, escreveu o tempo todo e, quando ficou cego, passou a ditar. Vida longa, arte longa, de modo que este Jorge Luis Borges – Textos recobrados 1956-1986 (Emecé, 400 páginas, R$ 100,00) pode ser considerado como uma magnífica raspa do tacho. O volume é o terceiro da série Textos recobrados – os dois primeiros abrangem os períodos de 1919-1929 e 1931-1955. Destaque-se o capricho, com as datas e veículos de publicação de cada escrito, índices temáticos e alfabéticos, notas explicativas.

Como é normal nesses casos, há textos de importância variável. Há desde uma esplêndida análise do último capítulo do Quixote, parágrafo a parágrafo, até uma simples curiosidade, como o manifesto de apoio ao povo cubano, contra a ditadura, assinado por ele e outros intelectuais argentinos. Não, não se trata de um abaixo-assinado contra Fidel Castro. Data de 1959 e condena a ditadura de Fulgêncio Batista – que, eles não sabiam, àquela altura estava com os dias contados.

Mas, em termos de curiosidade, para brasileiros, nada supera o artigo venenoso dedicado à adaptação que Carlos Hugo Christensen fez do conto de Borges A intrusa, história de dois irmãos que partilham a mesma mulher. Christensen foi um cineasta argentino que se radicou no Brasil a partir de 1954, aqui trabalhou e morreu em 1999. Na revista Somos, edição de dezembro de 1981, Borges deplora a versão de Christensen sob o título significativo de Sí a la censura.

Acontece que o filme, produzido no Brasil, com elenco brasileiro e trilha de Astor Piazzolla, foi censurado na Argentina por atentado ao pudor. Borges diz que a censura deve ser deplorada, mas nem sempre (grifos dele), ‘porque a proibição do indecoroso muitas vezes induz à ironia, obriga o esforço para dizer as coisas de um

modo indireto e não de maneira bruta’.

Pelo livro, ficamos sabendo também que James Joyce não faz parte da galeria de heróis de Jorge Luis Borges: ele teria errado ao tentar escrever romances, sendo a poesia a sua vocação. Assim, Música de câmara, livro de poemas do irlandês, seria melhor que Ulisses e muito superior a Finnegan’s wake.

A peça mais rica talvez seja Análisis del último capítulo del Quijote, em que Borges analisa, passo a passo, a preparação literária de Cervantes para a morte do seu herói. Temos aqui não apenas o Borges escritor, mas o notável professor de literatura, dono da ferramenta do seu ofício, um senhor anatomista do texto alheio. No caso, o texto básico da língua castelhana. Quixote é o livro dos livros para Borges, que o menciona em toda parte.

JORGE LUIS BORGES – TEXTOS RECOBRADOS 1956-1986

Terceiro volume da série Textos Recobrados, compilação de escritos do autor argentino produzidos entre 1956 e 1986. Lançamento: Emecé (400 páginas, preço sugerido: R$ 100,00).’

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