Terça-feira, 17 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

E-NOTíCIAS > NOVAS PLATAFORMAS

Do papel à web, a transição em curso

Por Paulo Silvestre em 22/03/2005 na edição 321

Passada uma década desde que empresas de comunicação brasileiras fizeram suas primeiras incursões na internet, os meios online no país ainda vivem um período de definições. Os formatos gráficos e editoriais alternam movimentos de brilhantismo de uma elite que está de fato criando uma nova mídia com iniciativas norteadas pelo deslumbramento e pela ignorância tecnológica.

As páginas noticiosas na web são exemplo da afirmação anterior. A identificação com o formato do jornalismo impresso é imediata: primeiras páginas com chamadas em profusão (apenas mais telegráficas, para despejar mais links no menor espaço), remetendo aos textos – ou o que é pior: levando o incauto leitor a uma ‘segunda primeira página’.

O conteúdo traz uma ou outra foto (que pode ser eventualmente exibida com algum recurso de animação, ‘para ser diferente dos outros’), manchete abaixo do título da publicação, fio-data… Por pouco não se coloca o preço sugerido para banca.

A grande e real inovação nesse modelo não é privilégio e nem foi invenção dessas empresas de comunicação: o hiperlink (ou simplesmente link), característica essencial da web e um dos responsáveis pela popularização da internet. Graças a ele, o leitor não precisa selecionar um caderno ou abrir em uma página para finalmente procurar a matéria desejada entre todas as retrancas. É só clicar e pronto.

Tirando os links, sobra o formato do impresso. É muito desperdício de recursos! Basta olhar para a indústria de games, que, apesar de seu produto final destinar-se à diversão, trabalha e pesquisa muito seriamente, e reinventou-se com o advento da internet comercial.

Identificaram uma demanda de mercado – no caso, pessoas jogarem entre si e não mais solitariamente com a máquina – e viram que esse novo mundo online finalmente viabilizava técnica e economicamente esse desejo.

Investir mais

Essa é a lição que as empresas de comunicação precisam estudar com carinho. Naturalmente esse ‘pulo do gato’ não nasce da noite para o dia. São necessários investimentos para pesquisa, muita massa cinzenta e disposição para correr riscos – três bens que as companhias possuem cada vez menos: o dinheiro virou artigo de luxo nesses tempos bicudos, os poucos profissionais que foram mantidos nas redações estão sobrecarregados com o dia-a-dia e não podem parar para criar, e os veículos se acovardaram na mesmice de fórmulas consagradas, ainda que cada vez mais anacrônicas, ultrapassadas ou mesmo erradas.

Qual é a ‘demanda de mercado’ associada ao jornalismo online? Arriscaria dizer que não é a ‘notícia de último segundo’, um golpe de marketing que levou à publicação histérica de um volume absurdo de textos, em detrimento de pilares do jornalismo, como apuração cuidadosa. Muito mais importante que isso, o leitor deseja comodidade para encontrar o que quer de maneira fácil, rápida, ampla e confiável.

Para que isso seja atingido, alguns paradigmas precisam ser quebrados. O primeiro, o de que não é possível a um único veículo – ou mesmo toda uma empresa – produzir todo o necessário para satisfazer plenamente o leitor, que tem à disposição o conteúdo virtualmente ilimitado da internet. Nenhuma empresa pode concorrer com tal volume de informação, especialmente porque a maioria delas está disponível irrestritamente e de graça.

Por outro lado, há muita bobagem disponível na ‘grande rede’, fontes pouco ou nada confiáveis oferecidas em pé de igualdade com renomados veículos de comunicação, instituições ou fontes de referência consagradas.

O que as empresas de comunicação precisam aprender a fazer é transformar essa desvantagem aparentemente instransponível em uma aliada. As companhias não devem encarar a internet como uma concorrente, e sim como uma fonte riquíssima de informação complementar a seus produtos. Cabe ainda ao jornalista separar o joio do trigo, ajudando o leitor a ampliar seus horizontes nos assuntos desejados, lançando mão de recursos de hiperconectividade para outras fontes confiáveis de informação.

A idéia tradicional de que se estaria ‘perdendo’ o leitor para outra fonte de informação é típica de quem desconhece os recursos tecnológicos disponíveis e não confia no seu próprio trabalho. Até então, empresarialmente, o jornalismo como ‘uma janela para o mundo’ poderia ser entendido como tratar de oferecer ‘a melhor janela’ para conquistar o mercado. Com as possibilidades oferecidas pela internet, ele precisa ser atualizado como ‘muitas janelas para o mundo’ – ou, melhor ainda, ‘uma janela para as melhores janelas’.

Como já foi dito, o leitor deseja comodidade para encontrar o que quer de maneira fácil, rápida, ampla e confiável. Os grandes portais, que no Brasil ganharam ares mais jornalísticos que em outros países, precisam investir mais na facilidade de acesso e na confiabilidade das informações. Quem conseguir oferecer isso de maneira consistente e sistemática criará um veículo robusto na cabeça de seu público.

Criar o modelo

É uma oportunidade de ouro para redefinir a maneira como as pessoas consomem jornalismo, a possibilidade de se quebrar um paradigma como há décadas não era visto. Com a hiperconectividade, o usuário (que deixa de ser apenas um passivo ‘leitor’) participa ativamente da construção de sua experiência informativa, que será tanto mais gratificante quanto mais possibilidades lhe sejam oferecidas. E as pessoas mais e mais querem tomar parte nesse processo.

Trata-se de um belo desafio para os profissionais que atuam no caçula dos meios de comunicação de massa. Só recentemente vêem-se colegas chegando ao mercado já com o foco no ambiente online. Até então vinham de outras mídias, notadamente do jornalismo impresso. Esse grupo pioneiro ainda domina as redações digitais, como não podia deixar de ser, pois experiência em ‘jornalismo puro’ é necessária. Mas é necessário libertar-se dos antigos conceitos, que se prestam mal a essa nova realidade, e aproveitar o momento.

É algo semelhante ao vivido pela televisão nos anos 1950 e 1960, quando os formatos –quando existiam – ainda eram tímidos e buscavam seu espaço. O que for feito agora pode criar um modelo que dure por décadas, até que uma nova onda surja. Oportunidade única para bons profissionais se destacarem. Mas para isso o jornalista saber deve saber ousar.

******

Jornalista, gerente de produtos da America Online (www.aol.com.br), de Jornalismo Digital na Universidade Metodista, de São Bernardo do Campo (SP)

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem