Sábado, 25 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

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É preciso pensar (muito) grande

Por Luli Radfahrer em 21/04/2015 na edição 847
Reproduzido da Folha de S.Paulo/UOL, 14/4/2015; intertítulo do OI

O período de transição que começou mais ou menos na virada do século não dá sinais de perder o fôlego. Novas tecnologias e serviços revolucionários surgem a cada instante, chacoalhando carreiras e certezas de tradição centenária ou milenar.

Mudanças que antigamente levavam décadas ou séculos para se consolidar hoje são assimiladas em pouco menos de um ano. É difícil conceber um tempo em que se viva sem celulares, GPS, WhatsApp, Facebook, Google, Wikipédia e YouTube. Não há mais emprego completamente imune a bases de dados, robôs e serviços disruptivos variados.

É natural que muitos tenham vontade de correr para o meio do mato e se esconder em alguma choupana, ouvindo modas de viola que façam referência a uma época serena. Mas não adianta fechar os olhos e tampar os ouvidos, feito criança assustada, acreditando ser invisível até que a ameaça passe. É preciso encarar de frente a novidade, compreender o que ela tem de bom e demandar um uso seguro e benéfico para todos.

Isso raramente acontece. Médicos, advogados e professores viram as costas para a Internet, tablets e celulares, se esquecendo que estes, se bem direcionados, podem ser ótimos assistentes. A IBM percebeu isso ao chamar de Watson – e não Sherlock – o supercomputador que venceu o jogo “Jeopardy” e hoje se dedica a devorar bases de dados médicas e jurídicas.

Boa parte da tecnologia surge para democratizar o acesso e corrigir distorções. Da mesma forma que ninguém leva a sério médicos que não acreditam em tomografias ou advogados que preguem a vingança, ninguém pode se dizer satisfeito com o atendimento de profissionais que mal olham para seus clientes, entregam soluções engavetadas e diagnosticam exatamente o que foi dito pelo dr. Google, agindo como despachantes de luxo de uma burocracia cartorial que ajudam a perpetuar. O dia em que seus empregos forem varridos pela automação, ninguém chorará.

Há pouco mais de quatro séculos Shakespeare se perguntava, no famoso monólogo de Hamlet, se era mais nobre para o espírito suportar as pedras e lanças de um destrino ultrajante ou levantar os braços contra um mar de problemas e, opondo-se a eles, vencê-los. Depois de pensar alto por um pouco, Hamlet chega à conclusão que o medo do desconhecido acovarda e torna melancólicos aqueles que tentariam se aventurar, fazendo-os suportar os males que tem.

Danos colaterais

A solução para os problemas de uma tecnologia normalmente aparece com mais tecnologia. Os primeiros aviões caíam o tempo todo e ninguém parou de voar. Os primeiros carros eram bólidos perigosos e ninguém deixou de usá-los. O raio X matou muita gente por intoxicação radiativa e não foi abandonado. Muito pelo contrário, novas ideias foram desenvolvidas para domesticar e popularizar a inovação.

O medo da incerteza é o maior inimigo do progresso. Nesse ambiente o máximo que pode ser feito é cortar gorduras e fazer pequenos ajustes administrativos. Qualquer estratégia que demande perdas a curto prazo para chegar a objetivos maiores é rejeitada em nome da “cautela” que defende um sistema que celebra ganhos imediatos e até tolera estagnações, mas condena qualquer iniciativa que não possa ser comprovada.

O curioso é que a estabilidade dos tempos passados, de que todos parecem sofrer uma nostalgia não vivida, é uma invenção recente. Até a revolução industrial, poucos empregos que não estivessem no governo ou na igreja eram vitalícios. O resto era composto por autônomos, que precisavam trabalhar muito e construir sua reputação com esforço e relacionamento cotidianos.

No final do século 19 um grupo de jornalistas dos Estados Unidos perguntou a 74 eminentes cidadãos como seria a vida em um século. Eles imaginaram quase tudo, de novas armas de destruição em massa a formas elétricas de comunicação global. Só não conseguiram pensar na utilidade de um invento patenteado um pouco antes, o motor a explosão de Karl Benz, essencial para o crescimento da motorização em massa e seu enorme impacto social e urbano. Hábeis em prever vagamente um “futuro” que resolveria todos os males e talvez causasse novos problemas, eles não pareciam capazes de compreender a cadeia de eventos tecnológicos, comerciais, sociais e políticos que levariam a ele.

A popularidade da ficção científica vem do fato de refletir, em parte, uma narrativa de visão grandiosa e compartilhada. Ela mostra que há grandes recompensas para quem desafie as insanidades de um situação que, em retrospecto, parece insanamente perigosa e instável, por mais que o romantismo da comodidade das visões de passado insista em camuflar.

Mas elas não virão sem uma boa dose de esforço e alguns danos colaterais pelo caminho.

***

Luli Radfahrer é professor-doutor de Comunicação Digital da ECA da USP

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