Segunda-feira, 22 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1033
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Jornalismo líquido e o futuro da notícia

Por Anelise Rublescki em 31/01/2012 na edição 679

O jornalismo é uma prática social, onde se observa que os formatos jornalísticos resultam de modelos históricos de desenvolvimento da cultura, da economia, da política e da tecnologia. É sob este olhar que deve ser analisado o jornalismo líquido onde as práticas sociais propiciadas pelas redes digitais ultrapassam o conjunto de regras dos modelos recentes de jornalismo. [O artigo deriva da tese de doutorado da autora, defendida no PPGCOM da UFRGS com o título “Jornalismo líquido: mediação multinível e notícias em fluxos”, 2011.]

O jornalismo se baseia no pressuposto de que é possível transmitir uma mesma notícia para a maior audiência possível, sempre mediada pelos jornalistas, que definem quais fatos e por quais enquadramentos alguns acontecimentos merecem ser alçados à visibilidade, via noticiário. A ruptura da exclusividade do polo de emissão, a passagem de uma era de monopólio dos profissionais para práticas sociais com acesso público aos meios de publicação insere o jornalismo em outra ecologia de mídia. Configura-se um sistema comunicacional integrado por nós e conexões, caracterizado por um fluxo permanente de notícias e de relações entre interagentes a partir de vários subsistemas jornalísticos, sendo particularmente marcado pelo declínio dos discursos verticalizados.

Os sites institucionais e a adesão dos interagentes às mídias sociais e às redes sociais que estas abrigam estão entre as iniciativas que mais crescem na web, inclusive para ações de viés noticioso. Propiciam práticas jornalísticas desvinculadas das redações profissionais, não necessariamente com o intuito de competir com essas; embora o façam, no mínimo quanto ao tempo e a atenção do leitor, dois bens escassos e não renováveis.

Se pensado pelo viés da construção da atualidade, potencializa-se a possibilidade de que acontecimentos jornalísticos sejam publicizados por indivíduos, por entidades coletivas de interesse social (associações comunitárias, entidades filantrópicas, sindicatos, organizações não-governamentais), por organizações de comunicação independentes (Slashdot, OhmyNews), bem como pelas tradicionais fontes oficiais ou personalidades (artísticas, políticas, desportivas), dependendo do número de seguidores e da visibilidade que este ou aquele site detém, e do próprio valor-social de notícia que a postagem agrega.

Repaginação do jornalismo

A produção das notícias está em franco processo de repaginação, a partir da porosidade entre leitor, jornalista e fonte como instâncias de enunciação, onde processos que escapam às redações profissionais efetivamente se inserem no circuito da notícia. Trata-se, do ponto de vista puramente jornalístico, de uma mudança por justaposição de procedências e adoção de novos formatos de notícias que passam a ser aceitos e praticados também no âmbito das redações profissionais.

É este cenário que permite cogitar que mensagens sumárias como as divulgadas pelo Twitter, por exemplo, possam ser consideradas notícias; inclusive porque se aproximam do formato sintético das notícias radiofônicas ou das manchetes dos jornais. Cumprem a mesma função informativa dos teasears [o termo teaser refere-se ao trecho de texto que é apresentado antes da tag “leia mais”, devendo o leitor clicar em um link ao final do teaser para ter acesso ao texto completo]e dos títulos: buscam captar a atenção, direcionar e fomentar a leitura da matéria na íntegra, através do simples clique no link de um tweet. Isso não significa que o jornalismo possa ser exercido em apenas 140 caracteres. Trata-se, antes, de um sistema de seleção e filtragem de conteúdo; que se soma a outros três vieses: como espaço de atuação, como fontes para pautas e como feedback e/ou caixa de ressonância das notícias.

Como fonte para novas notícias, amplia-se exponencialmente o acesso a dados ou informações que podem virar notícias. Como espaço de atuação, observa-se que também os veículos de referência têm investido fortemente na utilização do Twitter. O portal G1, a revista Veja e os jornais impressos diários aparecem nas pesquisas como os que mais enviam tweets como forma de atrair leitores para a íntegra das matérias disponibilizadas nos respectivos sites. São apenas superados pelos jornalistas-colunistas-blogueiros, recordistas como grandes disponibilizadores de notícias em 140 caracteres, o que apenas reforça que os meios tradicionais também buscam sua inserção na lógica interna das micromídias.

É importante salientar, contudo, que não é a ferramenta utilizada que configura o modelo de jornalismo e, sim, o seu contrato de comunicação com o leitor, já que esse define as características do discurso. Não é por utilizar uma ferramenta que surgiu como mídia social e que foi inicialmente utilizada apenas por usuários que o jornalismo das redações se torna menos consolidado. O que se percebe claramente é que no jornalismo líquido surgem variados modelos de construção de conteúdo, onde o reaproveitamento, a re-mistura e a combinação dos dados disponíveis em sites e mídias diversas circulam intensamente, sejam esses profissionais ou amadores. E isso acarreta um novo desafio também para as empresas consolidadas: já não basta mais publicar uma notícia, ela precisa ser recomendada, filtrada, retuitada. É um processo que propicia uma sucessão de mediações e reenquadramentos da notícia original. No jornalismo líquido, o binômio emissor-receptor tem menos relevância do que a dinâmica da circulação pelo tecido social.

Circulação das notícias

A abordagem, contudo não é nova. Robert Park, em sua obra clássica News as a Form of Knowledge: A Chapter in the Sociology of Knowledge, já pontuava que é na circulação pelo tecido social que as notícias realmente se realizam. No jornalismo líquido é justamente através dos fluxos, do trânsito no tecido social entre os diversos jornalismos online que se configuram na web, que a notícia adquire visibilidade, relevância, discussão social. Notícias precisam ser recomendadas para circular, o que escapa ao controle dos profissionais do jornalismo e os obriga a olhar além dos muros das redações.

Esta é a força do Twitter que, apesar de limitado por 140 caracteres, demonstra grande potencial de circulação, nos variados perfis dos sites que o utilizam. É utilizado para spots noticiosos do mainstream (revistas semanais e jornais diários, por exemplo), para fins promocionais (divulgação da campanha de Barack Obama, nos Estados Unidos, em 2008), cobertura de situações pontuais (atentados em Mumbai, na Índia); e mesmo na cobertura e na mobilização de redes de cooperação como na problemática em torno das chuvas torrenciais no Rio de Janeiro, em janeiro de 2010, quando diversas redes no Twitter noticiavam os trechos interrompidos, os desabamentos das encostas e os pedidos de ajuda de locais ilhados.

O índice de utilização da ferramenta no país supera em muito a média mundial, chegando a merecer uma matéria na revista Time que buscou entender “porque o Twitter é tão popular no Brasil”. Aparentemente, predomina o uso informacional, baseado em recomendações das redes sociais, seja de amigos, colegas de trabalho ou aficionados do mesmo tema. Sistema de circulação baseado no retuitar, acarreta que os acessos que uma notícia recebe em sua versão original dependem do número de vezes que ela é recomendada.

Esta penetrabilidade faz com que as notícias espalhem-se para outros espaços da web, já que, não raro, a maioria dos usuários brasileiros utiliza diversas mídias sociais. Além disso, como as redes sociais são diferentes mesmo considerando-se um único interagente, o valor da notícia obtida em uma mídia social (e dentro desta, numa dada rede social) e replicada para outras redes e se multiplica. São ferramentas que gradativamente vão sendo valorizadas pela qualidade, credibilidade e instantaneidade de suas informações, a partir da credibilidade de quem enuncia ou recomenda. Vale lembrar que o próprio ato de recomendar a leitura já sinaliza uma mediação e um juízo de valor.

Contudo, apesar da possível constatação ligeira de que os leitores têm contato direto com os fatos do cotidiano, prescindindo da mediação dos jornalistas sobre os conteúdos, não há indicações de que o modelo jornalístico ora em configuração prescindirá dos jornalistas nas funções de mediação e interpretação dos conteúdos do cotidiano. Mesmo porque, ao menos por enquanto e em situações de normalidade, os tópicos que mais reverberam na rede não são aqueles postados por celebridades ou bloggers com milhões de seguidores, mas sim pelo mainstream.

O jornalismo líquido sinaliza que as redações profissionais, que detêm a obrigação do fornecimento de notícias de interesse social e com periodicidade regular, seguirão existindo e atuando na construção da atualidade, gradualmente adaptadas à nova configuração midiática. Além da necessidade social de filtrar, analisar e interpretar a avalanche informativa que caracteriza a sociedade atual, vale lembrar que o jornalismo é uma atividade profissional cara e que rara vezes pode prescindir de uma infraestrutura para sua produção sistemática.

***

[Anelise Rublescki é jornalista, doutora em Comunicação e Informação pela UFRGS, pós-doutoranda no PPGCOM da Universidade Federal de Santa Maria]

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