Domingo, 16 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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Criar programas, agora, não é tarefa apenas dos geeks

Por Barrett W. Sheridan e Brendan Greeley em 07/02/2012 na edição 680

A reação na internet contra o projeto de lei dos Estados Unidos chamado “Pare a Pirataria On-Line”, idealizado para combater, fora do país, distribuidores de filmes e músicas protegidos por direitos autorais, seguiu as linhas da própria internet: foi descentralizada, anárquica e poderosa o suficiente para ajudar a persuadir o líder da maioria democrata no Senado americano, Harry Reid (do Estado de Nevada), a engavetar o projeto, em 20 de janeiro. Não havia um slogan oficial para a reação pública contra o que foi visto com uma intromissão do governo na internet, mas o lema não oficial poderia ter sido a manchete que apareceu na revista on-line “Motherboard”: “Caro Congresso, já não é aceitável ignorar como a internet funciona”.

Um número cada vez maior de pessoas acha que não apenas o Congresso deveria saber como um software é feito, mas o mundo todo. Estilistas, economistas, médicos e outros profissionais sem conexão direta com o mundo da tecnologia vêm aprendendo linguagens de programação como forma de avançar em suas carreiras, automatizar tarefas tediosas ou apenas como aperfeiçoamento pessoal, um tipo de lazer como aprender espanhol ou fazer palavras cruzadas. E eles têm à disposição um universo em expansão de manuais de instrução gratuitos oferecidos na internet por vários sites, desde os fornecidos por empresas iniciantes até os de universidades como Stanford ou o Massachusetts Institute of Technology (MIT). A programação está se tornando “uma parte muito mais fundamental do conhecimento, similar à leitura ou escrita”, diz Andy Weissman, sócio da Union Square Ventures, de Nova York, que encabeçou uma rodada de investimento de US$ 2,5 milhões no Codecademy, site que ensina técnicas básicas de programação.

Tudo gratuito

A computação, impulsionada pela aura cativante do filme A Rede Social, de 2010, e o crescimento exponencial dos smartphones e tablets, voltou a ficar na moda. O número de estudantes universitários em cursos de ciências da computação aumentou 14% entre 2007 e 2009, de acordo com os números mais recentes disponíveis da Associação de Pesquisas em Computação, dos EUA.

Fora do ambiente dos campi, um número bem maior de pessoas começa a acessar novos recursos como o Codecademy. A empresa foi fundada em 2011 por dois ex-estudantes da Columbia University, quando Zach Sims, estudante de ciências políticas, decidiu que queria aprender habilidades técnicas e pediu ajuda ao amigo Ryan Bubinski, formado em ciências da computação e biofísica. A Codecademy oferece manuais interativos gratuitos que guiam as pessoas enquanto escrevem e testam linhas de programação JavaScript diretamente nas janelas de seus navegadores de internet. “Queríamos espelhar a experiência pelas quais os programadores costumam passar, aprendendo na prática”, diz Sims.

Em 1 de janeiro, Sims e Bubinski criaram um site em que encorajavam as pessoas a ter como promessa de Ano Novo aprender linguagem de programação. Em 24 de janeiro, mais de 360 mil pessoas haviam feito a promessa e aceitaram receber da Codecademy novas aulas – basicamente a lição de casa – a cada semana. “Há uma legião de centenas de milhares de pessoas que estão aprendendo ao mesmo tempo”, diz Sims. “E, no fim do ano, eles estarão fluentes [o suficiente] para programar aplicativos básicos na internet e sites. É extraordinário.”

Universidades como Stanford e o MIT começaram a produzir vídeos e materiais para algumas de suas turmas que estão disponíveis já há alguns anos no YouTube e na loja virtual iTunes; os cursos de ciências da computação estão entre os mais populares. “A classe de introdução à computação tem, só no YouTube, mais de 2 milhões de acessos”, diz o professor Mehran Sahami, que ensina ciências da computação em Stanford e ministra o curso. “Não são vídeos curtos. Há aulas de uma hora de duração. É realmente interessante ver que se consegue esse tipo de procura constante por algo tão intensivo, em tempo e profundidade de estudo.”

No quarto trimestre, Stanford levou a ideia mais adiante e realizou dois cursos de ciências da computação inteiramente on-line. Não se trataram apenas de vídeos de instrução, mas também de fazer perguntas aos professores, receber notas pela lição de casa e de fazer provas – tudo grátis e disponível ao público.

Sistemas de registro

Sebastian Thrun, professor de ciências da computação e pesquisador do Google que supervisiona o projeto do site de buscas para construir carros que não precisam de motoristas, foi coprofessor de um dos cursos, sobre inteligência artificial. Não era para qualquer um; os estudantes tinham de atualizar-se em assuntos como teoria das probabilidades e álgebra linear. O outro professor, Peter Norvig, estimou que mais de mil pessoas iriam inscrever-se. “Sou conhecido como um louco otimista, então disse 10 mil estudantes”, diz Thrun. “Tivemos 160 mil adesões e, então, ficamos assustados e encerramos as inscrições. Teriam sido 250 mil se tivéssemos deixado em aberto”.

Muitos desistiram, mas 23 mil estudantes concluíram todas as tarefas, durante 11 semanas. Thrun, entretanto, abandonou seu cargo para concentrar-se no trabalho no Google e para criar a Udacity, uma empresa iniciante que, assim como a Codecademy, oferece cursos gratuitos de ciências da computação pela internet.

Um dos estudantes de Thrun foi Selene Liszka, que não é especialista em tecnologia. Liska estudou psicologia na University of Pittsburgh e agora é assistente encarregada de ala pré-cirúrgica no New York Downtown Hospital. A aluna, de 28 anos, entrou no curso de programação para entender melhor a carreira do marido, programador no Foursquare, site baseado em recursos de localização geográfica. Desde então, ela usou as novas habilidades para automatizar algumas das tarefas rotineiras de seu trabalho, como registrar que pacientes precisam de acompanhamento antes de uma cirurgia. O conhecimento também a ajudou a comunicar-se com os especialistas em tecnologia da informação que instalam os sistemas de registros médicos digitais no hospital onde ela trabalha.

Ajudou até a melhorar a forma como ela lida com amigos, familiares e pacientes. “Quando há problema em um software, é preciso ser bem específico sobre isso, descrevendo o comportamento esperado e o comportamento real”, diz ela. “Pouca gente gasta tempo fazendo isso. A forma como os softwares ajudam a entender a vida é diferente da maneira como muitas pessoas encaram a vida.”

***

[Barrett W. Sheridan e Brendan Greeley, da Bloomberg Businessweek ]

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