Terça-feira, 25 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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Euforia com Facebook reforça temor de “bolha”

Por Jeff Sommer em 07/02/2012 na edição 680
Reproduzido do Estado de S.Paulo, 6/2/2012, tradução de Augusto Calil

Talvez o sistema financeiro não esteja na sua melhor forma, mas por que perder tempo pensando nisso? O preço das ações está aumentando e a euforia das ofertas públicas iniciais (IPOs) está no ar. Na semana passada, o Facebook deu a Wall Street algo que esta realmente gosta: uma estimativa de como será feita a maior oferta pública inicial de ações da história da indústria da tecnologia.

Bilionários e milionários estão surgindo de uma hora para a outra – ao menos no papel – e há uma grande fartura de riquezas para aqueles que puderem aproveitá-las. A ganância está aumentando no mercado e, para os investidores experientes, há a inquietante sensação de já ter visto este filme antes.

“É como se estivéssemos finalmente superando uma espécie de inverno nuclear dos IPOs, mas parece que esquecemos nossa história”, disse Harold Bradley, diretor de investimentos da Fundação Kauffman e ex-executivo do fundo mútuo American Century. “Se não começarmos a prestar atenção, logo estaremos cometendo os mesmos erros estúpidos de antes.”

Trata-se de uma história longa, colorida e importante, que remonta no mínimo à fundação da Companhia Holandesa das Índias Orientais, em 1602 – uma oferta pública inicial que expandiu o comércio global e levou à colonização da ilha americana onde fica Wall Street.

Nos seus melhores momentos, os IPOs são a encarnação da essência do capitalismo – especificamente, a alocação de mercado do capital para usos produtivos, e a transformação de empreendimentos privados em públicos. Mas as ofertas mais quentes muitas vezes fomentam os piores excessos do capitalismo – manias, bolhas e, por fim, quebras, resultantes da exploração de investidores ingênuos.

Preço alto

Segundo Jay Ritter, especialista em IPOs da Universidade da Flórida, parecemos estar num estágio inicial do ciclo dos IPOs. O preço atribuído ao Facebook parece excessivo, mas é “possivelmente justificável”, disse ele.

“Não diria neste momento que o preço reflete uma bolha – mas, para que o preço estipulado faça sentido, tudo precisa correr bem para a empresa durante um período de anos.” Ritter diz que o Facebook está sendo avaliado com base na premissa de que a empresa irá imitar a trajetória do Google. “Isso é possível”, observou, “mas não pretendo comprar essas ações”.

No estágio atual, a abertura de capital do Facebook tem o disforme poder de atração de um bloco de argila nas mãos de um escultor que ainda não revelou suas intenções. Ainda restam importantes incógnitas, como o preço inicial das ações, e detalhes como as suas dimensões de US$ 5 bilhões podem ser revisados. Não surpreende que a documentação S-1 – a papelada que o Facebook submeteu à SEC (a Comissão de Valores Mobiliários americana)- costuma ser chamada de “prospecto preliminar”.

Como uma estratégia para afastar cães farejadores do seu encalço, o objetivo da empresa pode ser ganhar tempo para que seus subscritores defendam os próprios interesses.

No seu meteórico crescimento inicial, o Facebook se assemelha a várias empresas donas de tecnologias que promoveram grandes transformações: Microsoft e Netscape, além do Google. Cada uma delas é única, é claro.

Na documentação apresentada na semana passada, Mark Zuckerberg, cofundador, diretor executivo e principal acionista do Facebook, destacou a “combinação única de alcance, relevância, contexto social e envolvimento” proporcionada pela rede social aos seus usuários – e oferecida por ela aos anunciantes por uma quantia definida.

O Facebook é também a plataforma usada por jogos como o Farmville, da Zynga, e por serviços como o Spotify, que oferece músicas. O documento revelou que a Zynga respondeu sozinha por 12% da renda do Facebook no ano passado. As ações da Zynga foram valorizadas em 17% no dia seguinte à entrega da documentação relativa ao Facebook.

Envolvimento

Thomas Vandeventer, gestor do fundo Tocqueville Opportunity, tem comprado ações restritas do Facebook em mercados secundários nos últimos 12 meses e espera continuar a comprá-las quando a oferta pública inicial ocorrer, algo esperado para daqui a alguns meses. O grande envolvimento dos usuários do Facebook com o site não foi plenamente reconhecido pelo mercado, e nem teve o seu valor devidamente calculado, diz ele.

O Facebook também encontra espaço para crescer globalmente. Todos esses motivos o levam a dizer que o Facebook, como o Google, é “o tipo de ação que procuramos comprar logo no começo e conservar no portfólio durante anos”. Os fundos T. Rowe Price e Fidelity também possuem ações da empresa.

Há opiniões mais céticas. Karen North, diretora do Programa Annenberg para Comunidades Online, da Universidade do Sul da Califórnia, diz que muitos usuários do Facebook já se sentem afastados por aquilo que é visto como uma crescente e agressiva comercialização da rede social.

“Existe uma tensão entre a intimidade do serviço e os esforços no sentido de torná-lo mais lucrativo”, disse ela. “Não parece óbvio que o Facebook seja capaz de manter o crescimento exponencial do seu lucro.” Por outro lado, muitos daqueles mais fiéis ao Facebook podem se interessar por uma fatia do bolo. Os cofundadores do Google usaram um leilão para levar suas ações às mãos do público, em lugar de deixar que os subscritores de Wall Street controlassem totalmente a distribuição.

Na documentação entregue na semana passada, Zuckerberg não deu indícios de estar pensando num procedimento semelhante.

***

[Jeff Sommer, do New York Times]

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