Segunda-feira, 17 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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A censura privada

Por José Luiz Almeida Costa em 21/02/2012 na edição 682

A mídia tem publicado vários artigos que ditam regras de conduta para funcionários e candidatos a emprego se comportarem nas redes sociais. O que seria uma cartilha de bons modos, na verdade, fere o direito de livre manifestação do pensamento assegurado pela Constituição Brasileira.

A revista Veja, por exemplo, publicou um guia onde adverte que “as informações publicadas no perfil (dos sites de relacionamento) podem influenciar diretamente a imagem profissional do usuário”. A revista de gestão HSM circulou com um artigo onde afirma que “as empresas têm adotado como prática a consulta aos perfis dos candidatos como parte do processo seletivo de contratação”, concluindo que “a entrevista de emprego começa nas mídias sociais”.

As redes sociais são ambientes de relações informais e descontraídas. A tese de relacionar o comportamento profissional ao que se posta nas redes equivale a dizer que as empresas levam a sério as banalidades ditas entre amigos num bate-papo de boteco. A cartilha da Veja censura as fotos em que se possa “parecer alcoolizado”. Significa que postar fotos de carnaval e de churrascos no Facebook pode comprometer o emprego. A fronteira que separa a vida privada da profissional deve ser preservada. A livre circulação de manifestações individuais é uma árdua conquista da sociedade civil. No entanto, Veja afirma que “as redes sociais romperam de vez a barreira entre carreira e vida pessoal”. É impor o que se posta na rede como atestado de boa conduta, uma volta aos tempos da ditadura. Talentos serão desperdiçados.

Situação surreal

O empresário Roberto Marinho, apesar de apoiar o regime militar, dizia aos arapongas de plantão: “Dos meus comunistas cuido eu!” Recentemente, o escritor Monteiro Lobato teve suas opiniões ditas no passado vasculhadas por questões ideológicas. Narizinho quase foi banida das bibliotecas escolares. A Nasa contratou o engenheiro Von Braun não pelos seus préstimos ao nazismo, mas pelos seus conhecimentos aeronáuticos. O fato de Joseph Ratzinger ter sido ex-integrante da juventude hitlerista não o impediu de ser Bento 16.

Aliás, é interessante observar como pessoas inteligentes deixaram-se submeter a Hitler. Algumas regras de bons modos, aparentemente bem intencionadas, podem se transformar em objeto de manobra de massas. Muitas cartilhas de instrução para o trabalho em equipe pregam que devemos abrir mão do “eu”. Na prática é a anulação das individualidades. Foi assim que Goebbels, ministro da Propaganda do nazismo, conseguiu manobrar a sociedade alemã. O que está na rede é de conhecimento público, porém o fato das empresas patrulharem as opiniões individuais cria uma situação surreal que se supunha existir somente no livro 1984, de George Orwell.

Após ler este artigo, se você trabalha numa empresa que bisbilhota as redes sociais, recomenda-se não marcar a opção “curtir”.

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[José Luiz Almeida Costa é consultor em inovações]

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