Terça-feira, 11 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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Sobre necessidades e inovações tecnológicas

Por Valério Cruz Brittos e Rosana Vieira de Sou em 28/02/2012 na edição 683

Do ponto de vista das mudanças sociais e econômicas que marcaram as últimas décadas, pode-se dizer que o capitalismo monopolista foi caracterizado pelo acúmulo de propriedade física como forma de distinção, em termos de capital e poder. Já no capitalismo contemporâneo desenvolvem-se formas intangíveis de poder e capital, ligadas aos ativos intelectuais e à centralidade das tecnologias da informação e da comunicação (TICs). Há um crescimento exponencial da oferta de bens culturais, tendência à personalização e à flexibilidade do consumo. Em outras palavras, o paradigma tecnoinformacional assume o lugar do paradigma industrial, sendo uma variável essencial mesmo nos setores tradicionais da indústria, ainda responsáveis pela maior parte do Produto Interno Bruto (PIB) das nações.

Maneiras distintas de produção de riqueza passam a operar por meio de renovações técnicas aceleradas, deixando para trás o protagonismo da produção em larga escala, característica da lógica industrial moderna. No que se refere às relações de consumo, estas transformações significam, de um lado, extensa oferta de inovações tecnológicas e supervalorização dos recursos de mobilidade, convergência digital e midiática, interatividade e portabilidade. Do lado da demanda, implicam a adoção acelerada das novas mídias, reconfiguração das práticas sociais e a emergência da inteligência social e da personalização como valores contemporâneos desejáveis, bem como a sensação geral de que é cada vez mais difícil imaginar a vida cotidiana sem a intervenção de determinados dispositivos tecnológicos.

Experiências de uma época distante

Considerando a força estruturante das TICs na vida dos cidadãos deste século 21, é interessante observar os atuais reality shows históricos televisivos. Em 2004, o canal a cabo GNT exibia, no Brasil, A casa de 1900 (The 1900 House), um reality show inglês, originalmente veiculado em 1999 no Reino Unido (Wall to Wall/Channel 4). O programa tinha como objetivo expor o cotidiano de uma família comum inglesa em uma residência adaptada aos hábitos e costumes do início do século 20, sendo os participantes transportados da era da informação para a era vitoriana e convidados a mergulhar na experiência de viver, durante três meses, sem os luxos e facilidades tecnológicas da vida moderna: sem gás central ou eletricidade e, portanto, sem micro-ondas, telefone celular ou internet. O planejamento minucioso das tarefas domiciliares constituía pré-requisito para a organização diária.

Já em Colonial House (2004), outra produção do gênero mas de origem norte-americana e mais ambiciosa, são contadas as dificuldades vividas pelos colonizadores do início do século 17. Ao recriar a vida cotidiana de famílias de colonizadores da época, os participantes eram levados a viver, por cerca de seis meses, sob as regras e condições de então (como rígidos papéis de classe e gênero e leis civis puritanas), bem como a dispor das ferramentas próprias do período para o trabalho diário e para o lazer. Outros exemplos de sucesso do formato reality show histórico são as produções inglesas The 1940 House (2001), The Edwardian Country House (2002) e Regency House Party (2004), assim como as norte-americanas Frontier House (2002), Manor House (2003), Texas Ranch House (2006) e Coal House (2007), entre outras produzidas no Canadá, Austrália, Alemanha e Nova Zelândia.

Estas produções têm em comum, além de compartilhar um dos gêneros televisivos que mais cresceram na última década, o fato de apresentarem pessoas tendo de abdicar de um modo de vida onde a tecnologia exerce um papel estruturante. Trabalham com o mesmo argumento sensível à curiosidade de uma audiência tipicamente moderna e dependente dos confortos materiais propiciados pelo capitalismo global, fruto da crença no ideal de progresso e desenvolvimento tecnológico neutro ou instrumental. Tais produções apresentam pessoas comuns vivendo experiências de imersão na cultura material de uma época distante, evidenciando como elas lidam com a cotidianidade quando removidas de tudo que lhes é familiar e aparentemente necessário. Passam a enfrentar-desfrutar outros tempos de vida.

Necessidades, inovações e paradoxos

A despeito da retórica mercadológica que ajuda a disseminar a crença de que há uma clara distinção entre desejos (culturalmente construídos) e necessidades (supostamente inatas), mesmo estas últimas não devem ser analisadas sem a devida contextualização sócio-histórica. A dificuldade de viver sem os recursos tecnológicos atuais reside na dificuldade de retirar a cultura material, os objetos físicos que caracterizam o estilo de vida de uma época e sociedade. Contudo, é consideravelmente mais desafiadora a tarefa de desconstruir e reconstruir o modelo mental de um período distinto. Em outras palavras: uma coisa é viver fisicamente conforme o modo de vida de uma sociedade em um dado momento histórico; outra, bem distinta, é internalizar a visão de mundo típica de uma pessoa daquele período.

São valores, crenças e hábitos que dão sentido às regras, obrigações e deveres de uma sociedade e que, em última instância, ajudarão a definir o que é ou não necessário à sobrevivência ou manutenção de um estilo de vida e mesmo o potencial de determinadas ferramentas ou tecnologias para promover a noção de bem-estar. Isso porque nem sempre as inovações tecnológicas promovem felicidade nas sociedades afluentes. A tensão entre a tendência da tecnologia para resolver problemas e seu potencial para criar outros tantos revela uma de suas facetas paradoxais. As inovações tecnológicas não promovem apenas liberdade, controle e eficiência, mas igualmente geram paradoxos com os quais os indivíduos, de uma forma geral, terão de lidar: controle e caos, liberdade e escravidão, novo e obsoleto, competência e incompetência, eficiência e ineficiência, satisfação e necessidade.

Inovações tecnológicas não são neutras, como se fossem meras instrumentalidades. Tampouco representam o veículo de uma cultura de dominação à qual os indivíduos estão deterministicamente condenados, como demonstram tantas experiências alternativas envolvendo mecanismos tecnológicos. Contudo, as escolhas e as decisões acerca dos padrões tecnológicos que deverão vingar em uma sociedade, dos dispositivos disponíveis à escolha do consumidor, do que é ou não necessário, são contingentes aos arranjos singulares que se estabelecem e que envolvem interesses e estratégias de instituições políticas e de corporações específicas. Entender como estes processos se articulam sem desconsiderar o papel dos indivíduos nessa construção ainda constitui um dos grandes desafios das Ciências Sociais.

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[Valério Cruz Brittos e Rosana Vieira de Souza são, respectivamente, professor titular no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da Unisinos e doutoranda no mesmo programa]

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