Terça-feira, 25 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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Software e criatividade

Por Ethevaldo Siqueira em 28/02/2012 na edição 683
Reproduzido do Estado de S.Paulo, 26/2/2012

Software é uma ferramenta tecnológica a serviço da inteligência humana. Ou melhor, da criatividade profissional, como é o caso dos aplicativos do tipo CAD 3D (sigla do inglês, Computer-Aided Design 3D), que nos permitem projetar com mais confiabilidade e rapidez desde um simples parafuso ou uma peça minúscula até motores avançados, automóveis incríveis, aviões de todos os tamanhos, refinarias de petróleo, naves espaciais, satélites ou edifícios futuristas. E já não precisam ser rodados em mainframes, como no passado. Rodam até em desktops ou laptops.

É um equívoco pensar que o CAD em geral seja tecnologia ultrapassada ou obsoleta, pois ele evolui permanentemente e, em muitos casos, representa o que há de mais avançado em matéria de tecnologia digital. Por isso, utilizo aqui a designação de softwares de projetos em lugar de CAD. Vale lembrar que, com esses aplicativos 3D, podemos visualizar todas as faces e ângulos do futuro produto, simular a solidez tridimensional, seja de produtos industriais, seja de objetos de arte ou de puro entretenimento. Para o usuário, ele dá uma sensação particularmente gratificante ao lhe permitir criar objetos, máquinas, edifícios ou conteúdos artísticos.

Empresas e produtos

Dezenas de empresas surgiram no mundo na área de software de projeto ou CAD, nas últimas quatro décadas, entre as quais, a Autodesk, Dassault, UGS (Siemens), PTC, Bentley Systems, Intergraph, Nemetschek, Cocreate e Think3. Essas empresas fornecem ferramentas tão conhecidas quanto o AutoCad, SolidWorks-3D, Catia, Pro-Engineer, Inventor e Microstation. E ainda há outras soluções avançadas de Gerenciamento de Dados de Produto, chamadas PDM (sigla de Product Data Management). Ou soluções de Gerenciamento do Ciclo de Vida do Produto, chamadas PLM (de Product Lifecycle Management).

A chegada dos softwares de projeto tridimensionais (3D) nos últimos anos não significa que o 2D esteja ultrapassado, mas que a tendência inexorável é a evolução para as soluções 3D, pelos recursos que elas possibilitam. Além da confiabilidade que oferecem, os softwares de projeto 3D impressionam por sua facilidade de uso. O usuário não precisa ter praticamente maiores conhecimentos de software. Basta dominar procedimentos simples. Tudo nesses aplicativos é extremamente amigável.

Outro aspecto surpreendente é a velocidade com que evoluem os softwares de projeto em todo o mundo. É bem provável que, em cinco anos, a maioria desses aplicativos esteja hospedada na nuvem, especialmente com a popularização dos softwares abertos (open source). Para usá-los, bastará baixá-los nos websites especializados.

Essas tendências de evolução dos softwares de projeto foram um dos grandes temas debatidos por quase 6 mil participantes presentes ao evento mundial SolidWorks World 2012, realizado de 14 a 16 deste mês, em San Diego.

Colaboração

Uma das marcas mais interessantes da indústria mundial de software de projetos é a colaboração entre empresas de todos os tamanhos, mesmo num ambiente altamente competitivo. Para designar essa característica, foi até criado o neologismo inglês coopetition – que indica a dupla situação de cooperação e de competição. Essa foi uma das características destacadas pelo evento SolidWorks World 2012, como ressaltou, em entrevista exclusiva a esta coluna, Bernard Charlès, presidente e CEO da francesa Dassault Systèmes. Para ele, um dos melhores casos de colaboração tem sido o relacionamento entre sua empresa e a gigante americana Boeing. Tudo começou no final dos anos 1980, quando Charlès se encontrou em Seattle com Alan Mulally, então engenheiro-chefe do projeto do Boeing 777 (hoje Mulally é CEO mundial da Ford).

Naquele primeiro contato, Bernard Charlès apresentava à Boeing a versão mais avançada de seu software de projeto Catia, da Dassault Systèmes, que foi utilizado posteriormente no projeto de modernização do Boeing 747-400, aeronave que foi remodelada ao longo dos anos 1990, com a introdução de um grande número de avanços em relação às gerações anteriores. Além disso, a Boeing tinha planos de substituir o modelo físico (mockup) por um modelo virtual no projeto dos novos aviões.

Bernard Charlès conta que, como resultado da colaboração e do diálogo entre ambas as empresas, Alan Mulally convenceu a diretoria da Boeing a criar, então, o primeiro avião do mundo a partir de um projeto 100% digital. Para consegui-lo, a empresa mobilizou quatro mil engenheiros, num trabalho intenso de cinco anos, com investimentos totais de US$ 10 bilhões de dólares. Hoje, na Ford, Alan Mulally usa intensamente softwares de projeto para criar os novos modelos da empresa.

Aquisição estratégica

Bernard Charlès conta também como adquiriu a SolidWorks, em julho de 1997, quando ela era uma empresa de apenas 50 pessoas, faturava apenas US$ 9 milhões e estava no vermelho: “Avaliei seus produtos o ofereci US$ 320 milhões. Mesmo assim, levei 9 meses para convencer fundador da empresa, Jon Hirschtick, a aceitar a oferta. Meus acionistas acharam que eu estava louco, mas eu os convenci da importância estratégica e do futuro da tecnologia 3D. E o resultado foi o melhor possível.”

***

[Ethevaldo Siqueira é colunista do Estado de S.Paulo]

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