Sexta-feira, 23 de Agosto de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1051
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Vilão viral

Por Heloisa Lupinacci e Alexandre Matias em 20/03/2012 na edição 686

No dia 5 de março, entrou no ar, no canal da ONG Invisible Children, no YouTube, o vídeo Kony 2012. Em seis dias, ele já tinha sido visto 100 milhões de vezes. É o maior viral da história.

Com meia hora de duração (uma eternidade, se comparado à duração de outros virais), o curta apresenta uma campanha cujo objetivo é capturar e levar ao Tribunal Penal Internacional o criminoso de guerra ugandense Joseph Kony , líder do Exército de Resistência do Senhor, que há mais de vinte anos, sequestra crianças, transformando-as em escravas sexuais ou soldados.

O objetivo da campanha é fazer que o maior número de pessoas saiba quem é Joseph Kony e, a partir disso, cobre das autoridades medidas para capturá-lo e levá-lo a julgamento. Para tanto, propõe que o expectador peça a celebridades e autoridades que apoiem a causa, sugere a doação de “uns dólares” e a compra de um kit de mobilização, com pôsteres, adesivos e braceletes. Mas acima de tudo, pede a quem vê o filme que o mostre ao maior número de pessoas. Basta “compartilhar” no Facebook.

Além dos 100 milhões de visualizações em seis dias, esgotaram-se kits vendidos pela ONG a US$ 30 cada um. E, na mesma velocidade que se tornava popular, o vídeo recebia críticas.

Críticas de todos os lados: de questionamentos sobre os reais interesses da ONG a acusações de desinformação. E a cada nova crítica publicada, surgia uma nova defesa. A própria ONG, em seu canal no Vimeo, começou a responder aos questionamentos em vídeos conduzidos pelo CEO da organização, Ben Keesey, que termina o vídeo pedindo “pergunte qualquer coisa”. Basta twittar a pergunta, em inglês, com a hashtag #askICanything.

Além de artigos e ensaios escritos por jornalistas e intelectuais ocidentais, houve também forte reação vinda de Uganda, país escolhido pela ONG como área de atuação, embora Joseph Kony não esteja mais lá – o seu exército hoje encontra-se espalhado pelo Sudão do Sul e pela República Centro-Africana. Um vídeo da blogueira Rosebell Kagumire, postado no dia 7, foi visto mais de 500 mil vezes até sexta, 16 – mesma quantidade de views que a versão legendada em português do vídeo Kony 2012 teve.

Uma projeção ao ar livre em Lira, cidade na região norte de Uganda, gerou revolta entre as vítimas das atrocidades do Exército da Resistência do Senhor. “Se as pessoas lá fora realmente se preocupam com a gente, elas não deveriam usar camisetas do Joseph Kony em nenhuma hipótese. Isso é celebrar nosso sofrimento”, diz um homem que foi raptado pelas forças de Kony. A reportagem pode ser vista no canal da Al-Jazira no YouTube.

Pró

Em quase todas as críticas à campanha, no entanto, é feita uma ressalva: apesar de todos os problemas, uma coisa é fato, o vídeo trouxe à pauta global um assunto que é sempre deixado de lado. Em uma semana, o mundo tomou conhecimento da existência de Joseph Kony, que, enfraquecido ou não, em Uganda ou no Sudão do Sul, é acusado pelo Tribunal Penal Internacional de 12 crimes contra a humanidade e 21 crimes de guerra.

Contra

Por outro lado, é muito fácil confundir as pessoas online. Principalmente quando a forma usada para divulgar a causa simplifica questões sérias para ter maior alcance. Ainda não estão claros quais são os interesses da ONG, além de transformar Kony em celebridade. E tudo fica mais confuso depois da prisão do narrador do vídeo, Jason Russell na quinta-feira, durante um surto. É preciso ter calma e não se deixar levar pela emoção, que é o alvo deste tipo de campanha.

Leia também

O dilema da imprensa no drama das “crianças invisíveis” em Uganda– Carlos Castilho

***

[Heloisa Lupinacci e Alexandre Matias, do Estado de S.Paulo]

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