Quinta-feira, 21 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
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A alma do novo hacker

Por Somini Sengupta em 27/03/2012 na edição 687
Reproduzido do New York Times / Folha de S.Paulo, 26/3/2012; intertítulos do OI

Em 1988, um pós-graduando da Universidade Cornell, Robert Tappan Morris, soltou um vírus de computador na então incipiente internet. Ele disse que era para ser uma experiência, mas o código que ele produziu fugiu ao controle, afetando quase 50 mil computadores conectados à rede. Morris se tornou um dos primeiros hackers a ser condenado. Em seguida vieram baderneiros, pichando sites para se gabarem. O crime organizado descobriu que poderia hackear bancos. E aí chegaram os hackativistas.

Denominando-se Anonymous, eles invadiram teleconferências entre agentes do FBI (em janeiro) e violaram as redes do Vaticano. Ficou impossível determinar quem ou o que o Anonymous quer atingir. Críticos e defensores discutem até que ponto sua ação deve ser tratada como protesto político – ou estritamente como crime. Acéfalo, multinacional e conhecido pelas onipresentes máscaras de Guy Fawkes, o Anonymous é movido por uma série de causas, da repressão na Tunísia aos direitos dos animais no Tennessee, passando pela defesa do site dedo-duro WikiLeaks. Qualquer que seja a causa, sua mensagem é amplificada pelo alcance da própria internet, assim como seu impacto.

Numa época em que a vida, o comércio e a política se tornaram digitais, os hackativistas podem ameaçar governos, assim como podem simplesmente jogar na internet os números dos cartões de crédito de pessoas inocentes. “A arma está muito mais acessível, a tecnologia está mais sofisticada”, disse Chenxi Wang, vice-presidente encarregado de segurança da Forrester Research. “Tudo é online – a sua vida, a minha vida –, o que torna isso muito mais letal.”

Quadrilhas de espionagem digital

O Anonymous já gerou várias derivações. Qualquer um pode ser Anonymous. E qualquer um que se diga Anonymous pode realizar um ataque em seu nome. Algumas facções do Anonymous usam a força bruta para derrubar sites na sua mira. Outras invadem sistemas e furtam dados. Eles já ameaçaram derrubar os servidores-raiz da internet – parte da infraestrutura básica da web – no Dia da Mentira, 1° de abril, o que na prática tiraria a internet do ar no mundo todo.

Mary Landesman, pesquisadora de segurança, hoje na Cisco, acompanha os crimes cibernéticos desde os seus primórdios, quando os criadores de vírus se expunham em fóruns de mensagens e hackers desfiguravam sites pornôs por diversão. Em dezembro de 2000, Landesman leu um lamento: uma criadora de vírus perguntava num fórum aonde seus colegas haviam ido. Landesman viu nisso um mau presságio: os criadores de vírus haviam começado a trabalhar para pessoas que podiam pagá-los e ficavam quietos.

No começo da década de 2000, uma ágil rede criminosa internacional começou a se formar. Os hackers trocavam softwares maliciosos e se valiam de contas alheias. Logo as quadrilhas de espionagem digital já conseguiam roubar códigos-fonte. Hackers politicamente motivados começaram a aparecer no final da década de 1990. Os da China e de Taiwan duelavam entre si. Ativistas antinucleares desfiguraram um site do governo indiano depois que a Índia realizou testes nucleares.

Resposta impossível

O Anonymous reescreveu a cartilha hackativista. Ele começou a desafiar uma ordem política e econômica bem mais ampla. “Isso realmente é uma guerra cibernética e eu não uso esse termo de forma sensacionalista”, afirmou Richard Power, autor de um livro sobre a criminalidade digital nos anos 1990. “Você não está vendo só um caso particular. [O Anonymous] está atacando toda a estrutura de poder. Ele envolve algumas críticas centrais.”

A primeira ação abertamente política do Anonymous aconteceu em 2008, quando ele se voltou contra a Igreja da Cientologia. O grupo logo virou um movimento global com múltiplos propósitos. Alinhou-se a causas populares entre os jovens, como o movimento Ocupe, a Primavera Árabe e o combate internacional à censura na internet. Os hackers raramente conhecem a identidade offline dos colegas. Isso significa que raramente sabem quem pode ter virado um traidor da causa. A antropóloga Gabriella Coleman, que estuda a cultura hackativista, descreveu o Anonymous como um “golpista” moderno, às vezes brincalhão, às vezes aterrorizando as pessoas. “É muito difícil entendê-los, colocar o dedo neles sociologicamente.”

A possibilidade de proliferar está provavelmente no cerne do sucesso do Anonymous. Alguns de seus críticos também veem nisso a semente da sua queda. “O Anonymous deu à luz algo que ou vai implodir e pronto, ou então eu não sei”, disse Landesman. Saber a resposta, porém, é impossível.

***

[Somini Sengupta, do New York Times]

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