Sexta-feira, 18 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

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A curadoria de conteúdo e os prosumers

Por Cleyton Carlos Torres em 03/04/2012 na edição 688

Ao mesmo tempo em que o jornalismo digital se debruça sobre estudos e procura mapear como os usuários altamente conectados usufruem das redes sociais, o tema curadoria de conteúdo pode ter seus significados profundamente alterados. No cenário massivamente reconhecido como a era da colaboração, direcionar a arte de curar conteúdo somente a uma parcela específica da sociedade vai contra o que o chamado conhecimento 2.0 propõe.

Se por um lado a sociedade digital precisa de curadores de conteúdo, ou seja, aqueles profissionais responsáveis por inserir informações da web em determinados contextos e disponibilizá-las de forma mais “amigável” para com os usuários, uma legião de curadores “não profissionais” está agindo de forma paralela, atingindo segmentos próprios e direcionando conteúdos específicos a determinados grupos consumidores de informação.

As redes sociais dão o furo, mas o jornalismo contextualiza. Tal premissa é fortemente defendida por muitos profissionais e especialistas, dando a entender que um dos principais papéis do jornalismo digital seria o de se firmar como um curador de conteúdo com credibilidade frente a um mar agressivo no que diz respeito ao volume de informações disponibilizadas na rede a cada segundo.

O jornalismo – ainda – mantém sua credibilidade, é fato. Mas a curadoria de conteúdo passa, necessariamente, somente por vias profissionais? Dezenas de milhares de usuários realizam o trabalhado de seleção, filtragem e segmentação de informações todos os dias. Muitas vezes tais curadores amadores conseguem atingir de forma mais satisfatória determinados públicos, sendo mais eficazes até do que grandes veículos de comunicação ou os profissionais autodenominados curadores de conteúdo.

Como observador

Variando conforme o ponto de vista, todos nós curamos conteúdo durante as 24 horas do dia. Quase tudo que lemos, ouvimos e vemos já foi pré-formulado por algum curador e cabe a nós o papel de aceitar ou não aquela informação. É possível procurar novos curadores de conteúdo mais alinhados aos nossos costumes e hábitos ou, ainda, curar conteúdos para que o nosso círculo-alvo informacional seja atingido por aquilo que julgamos ser uma informação contextualizada relevante.

Com isso, onde entra o jornalismo nesse contexto? Em um mundo onde todos passam a ser produtores de conteúdo e, agora, curadores de conteúdo, cabe ao jornalismo digital a tarefa de se diferenciar ainda mais das curadorias que são realizadas quase de forma inconsciente pelos usuários, certo? Errado. Um dos maiores erros do jornalismo é crer que precisa ser uma instituição isolada da sociedade, com linguagem e posições únicas.

Acontece que o jornalismo está inserido em uma determinada sociedade e vai muito além de seus limites editoriais. Ao propor uma curadoria própria de forma fechada o jornalismo declara que não quer participar de um contexto colaborativo maior. A curadoria “profissional” pode e deve andar lado a lado da curadoria “amadora”, realizada diariamente pelos usuários comuns. É como o jornalismo que quer falar de redes sociais e não está, de fato, nas redes sociais. Atua como observador, e não ativista. Isso cabe perfeitamente na curadoria de conteúdo.

Pelo retrovisor

O jornalismo deve ser mais um curador, possuindo, sim, ferramentas e contextos próprios, mas sem jamais deixar de utilizar como referência a curadoria realizada pela própria rede. Se alguns curadores amadores inseriram um determinado vídeo caseiro em um contexto de rede, não cabe ao jornalismo o papel de realizar uma nova filtragem só por questões “pessoais”. Cabe ao jornalismo fazer parte desse movimento e disponibilizar, lado a lado, suas “seleções”.

Na era do compartilhamento, a curadoria de conteúdo não é papel somente do jornalismo. Assim como tudo que rodeia o significado do termo “colaboração”, se o jornalismo não participar do contexto propriamente dito acabará como mero observador. Quem sabe, até, sendo visto apenas pelo retrovisor.

***

[Cleyton Carlos Torres é jornalista, pós-graduado em assessoria de imprensa, gestão da comunicação e marketing e pós-graduado em política e sociedade no Brasil contemporâneo]

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