Terça-feira, 22 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº955

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A rede que devora suas crias

Por Sergio da Motta e Albuquerque em 17/04/2012 na edição 690

O enorme valor pago pelo Facebook por um aplicativo de compartilhamento de fotos que virou moda ressuscitou uma tendência notória na mídia: comparar o valor de mercado de companhias da mídia digital com o do New York Times. Por que o New York Times? Por que sempre o New York Times? Não será o caso de um reconhecimento tácito da enorme importância deste periódico na mídia mundial? A comparação entre um programa da moda e um jornal com a tradição do New York Times não cabe aqui. O jornal nova-iorquino não precisa provar longevidade. E este é um valor que faz uma falta gigantesca no mundo digital.

Poucas publicações conseguiram escapar a esta armadilha do óbvio que ficou no caminho para o entendimento do por que da compra e por que Zuckerberg não só pagou um bilhão de dólares, entre dinheiro e ações, para comprar um pequeno aplicativo de edição e compartilhamento que caiu nas graças do povo, mas saiu de cena preocupado com os rumos de sua companhia. As primeiras abordagens foram sinópticas, e apenas descreveram, espantadas, o valor do negócio. Sempre a comparar o valor do programa como o New York Times. O periódico foi recentemente avaliado em 950 milhões de dólares. Menos 50 milhões que o Instagram, o programinha da moda que o Facebook comprou. O Next Web (09/04) teve o cuidado de explicar que não conseguiu compreender a matemática que chegou a um preço tão alto.

No dia seguinte, a notícia foi publicada pela R7 notícias (9/4) e no Correio do Estado no dia subsequente. O caso do Instagram, programa criado por Kevin Systrom e o “brasileiro” Mike Krieger, foi comentado pelos dois informativos. Os dois erraram e apontaram Krieger como único autor do software. Ele esteve no centro da maior e mais espetacular transação feita no Vale do Silício e nas páginas de várias publicações especializadas no mundo inteiro. Isoladamente, foi o caso de maior sucesso na história da indústria digital. Sua ascensão meteórica não deixou tempo para mais do que interrogações sobre quanto vale realmente uma companhia pequena e iniciante na web.

O fim para muitas pequenas empresas

Em termos proporcionais, seus criadores foram mais bem sucedidos do que qualquer grande agente da mídia digital contemporânea em qualquer negócio. O sucesso espetacular desviou a atenção da mídia do principal: por que o Facebook pagou tanto por algo que obviamente nunca vai render o que custou? No dia 11 de abril, o Financial Times publicou uma reportagem de maior alcance. Explicava que esta compra do Facebook estabelecia um precedente perigoso. Afinal, se o Instagram vale um bilhão, quanto valeria o Pinterest, outro concorrente famoso em compartilhamento de fotos? Ou qualquer aplicativo que acabasse tornando-se um modismo irresistível, com milhões e milhões de usuários? Zuckerberg teria que comprá-los todos?

Ele mesmo declarou em 2010 que, se fosse investir dinheiro naquele momento, investiria em telefonia móvel, e não em redes sociais. Porque ele sabe que é muito mais lucrativo inventar um pequeno aplicativo que rode dentro delas do que mobilizar a quantidade de recursos e pessoal para administrar o dia-a-dia de uma rede social. Ele lembra o que aconteceu com a Yahoo e AOL, outrora grandes companhias, quando se imaginou que os portais seriam a base de um novo modelo para a web. Hoje, as duas valem uma fração do que valiam nos anos de 1990. O gosto do público é volátil e imprevisível. Quanto tempo até que alguém se distraia para longe do Facebook, para algum aplicativo da moda?

Nenhuma companhia está a salvo, explicou John Gapper, do Financial Times. Para permanecer no mercado, elas devem estar constantemente investindo em inovações. Na mesma semana, a Microsoft pagou igual valor (um bilhão de dólares) por patentes antigas da AOL, apenas por prevenção, para não esbarrar em inventos de outros em seus próprios projetos. Mas o autor também assinala que o Facebook está fazendo uma aquisição de um produto ainda não totalmente maduro. “E isso diz bastante sobre a internet”, explica o periodista. “A associação entre poucas barreiras de entrada, distribuição digital, capitalistas excitados, engenheiros de software ambiciosos e a oportunidade de fazer milhões trouxe a hipercompetição.” Benefício para o público, mas o fim para muitas pequenas empresas que vão ficando pelo caminho.

Longevidade é o segundo nome do NYT

A web tem o triste hábito de devorar suas crias, assinalou o jornalista. O Facebook tem evitado maiores danos “revertendo seus erros rapidamente para não alienar usuários”. Mesmo assim vem perdendo usuários nos Estados Unidos. A rede não quer acabar como o Yahoo, que em 18 anos passou de sensação ao esquecimento. O Facebook quer ser eterno. Por isso aceitou auditorias de um órgão americano (FTC-Comissão Federal de Comércio) até 2032. Assinar o acordo com o governo americano foi uma espécie de garantia de longevidade endereçada ao mercado, instável e desconfiado das aplicações financeiras em geral. Principalmente das firmas da web, tidas por muitos investidores como instáveis demais.

Pois longevidade é o segundo nome do velho New York Times. O velho jornal é parte da vida da cidade. É um patrimônio local e parte da cultura da cidade. Infelizmente, para o Facebook e seu programa sobrevalorizado, vai ser muita sorte se ainda estiverem aqui em vinte anos.

***

[Sergio da Motta e Albuquerque é mestre em Planejamento urbano, consultor e tradutor]

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