Terça-feira, 17 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

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Novo boom de fibra óptica lembra bolha

Por Anton Troianovski em 17/04/2012 na edição 690
Reproduzido do Valor Econômico, 10/4/2012; intertítulos do OI

Bob Sellenriek, um empreiteiro de serviços telefônicos, comprou recentemente três escavadeiras enormes e as equipou com acessórios que estavam pegando poeira em seu depósito há mais de dez anos. Os acessórios são especiais para enterrar cabos. Sellenriek precisava deles para algo que ele tinha feito muito pouco desde que a bolha das pontocom estourou e varreu US$ 2 trilhões em valor de mercado das bolsas mais de 10 anos atrás: instalar quilômetros de novos cabos de fibra óptica. Após anos se lamentando, e com muito da capacidade instalada de fibra óptica dos Estados Unidos ociosa, a indústria de telecomunicações do país está entrando numa nova fase de expansão.

Uns 30 milhões de quilômetros de fibra óptica foram instalados nos EUA no ano passado, mais do que em qualquer outro ano desde o pico da bolha, em 2000, segundo a firma de pesquisas CRU Group. A Corning Inc., grande fabricante de fibras, vendeu volumes recordes no ano passado e está comunicando a novos clientes que não pode garantir que seus pedidos serão entregues. A RWF Bron, fabricante canadense de máquinas especializadas para enterrar cabos – como as de Sellenriek – afirma que os últimos seis meses foram os mais corridos em dez anos. E a ferrovia Norfolk Southern Corp. informa que está finalmente vendo interesse nos tubos plásticos vazios que enterrou ao longo de seus trilhos no fim dos anos 90, apostando que companhias telefônicas iam pagar para passar fibras ópticas por eles.

É o início do que alguns no ramo de fibras ópticas estão chamando de um novo boom para sua atividade nos EUA, há tanto tempo enfraquecida. A demanda está sendo inflada pelo tráfego estratosférico de vídeo na internet, pedidos do setor financeiro por conexões cada vez mais rápidas para suas transações e forte alta no uso de celulares – que têm de ser ligados a redes fixas. Até o plano de estímulo do governo americano, que em 2009 alocou US$ 7,2 bilhões para projetos telefônicos, está ajudando.

O mercado de cabos submarinos

Enquanto no Brasil a rede instalada de fibra óptica é considerada escassa e as empresas envolvidas com o setor esperam incentivos do governo para aumentar a velocidade da internet no país, nos EUA há capacidade ociosa – tanto que já há alguns pessimistas questionando se realmente existe demanda suficiente para justificar novos investimentos. Embora firmas financeiras de plataformas eletrônicas estejam dispostas a pagar um prêmio por conexões mais rápidas, há quem tema que possíveis regulamentações novas para operações de alta frequência possam aleijar o mercado. Os céticos também questionam se uma disparada no tráfego móvel vai mesmo acontecer, dado o alto custo de distribuir dados via celular.

A Cisco Systems Inc. prevê que o tráfego de dados sem fio vai quase dobrar anualmente até 2015. Mas Andrew M. Odlyzko, professor de matemática da Universidade de Minnesota que alertou uma década atrás para o crescimento da internet abaixo do esperado, diz que as previsões para uma disparada no tráfego via celular parecem excessivamente otimistas: pode sair caro demais aumentar a largura de banda móvel, diz ele. Cada conexão de dados via celular geralmente é transmitida da torre de uma telefônica para uma rede fixa de telefonia.

Também há bastante capacidade ociosa disponível nos EUA, segundo a TeleGeography, uma firma de pesquisa do setor de telefonia. E a capacidade deve aumentar, conforme engenheiros encontram novas maneiras de espremer dados num único cordão de vidro. “Muitos de nós olhamos o atual crescimento da construção e questionamos se a história pode estar se repetindo”, disse Will Hughs, o principal executivo nos EUA para a gigante telefônica australiana Telstra Corp., que vende serviços de longa distância para clientes americanos. No mercado de cabos submarinos, disse ele, “a possibilidade de excessos no sistema é ainda maior” do que há uma década, por causa de avanços tecnológicos que fazem com que novos cabos sejam feitos mais rapidamente.

A “fibra escura”

Construtores de telefonia dizem que é a localização, e não a capacidade, das redes de fibras ópticas que está causando a demanda. As redes não estão onde são necessárias – em torres de celulares, em edifícios comerciais afastados dos centros urbanos e em centros de dados remotos, por exemplo. Telefônicas que prezam confiabilidade querem rotas alternativas. E também estão surgindo novos usos, como pregões de alta frequência, que requerem novas rotas.

De fato, a demanda por fibra pode explodir se a transmissão de vídeos on-line continuar a decolar, dizem algumas companhias e analistas. Empresas como Netflix Inc., Apple Inc., Hulu e Amazon.com Inc. entregam filmes e programas de TV aos consumidores via Web. Mas executivos de comunicações observam que a ampla adoção de tais serviços poderia sobrecarregar a infraestrutura de internet existente. Até fins do ano passado, a Netflix representava quase um terço do tráfego de pico da internet em direção ao consumidor final nos EUA, uma alta de mais de 10% ante o início do ano, segundo a firma de gerenciamento de rede Sandvine Corp. A Cisco espera que o volume de conteúdo de vídeo que cruza a Web quintuplique até 2015, em relação a 2010.

“Quando houver fibra para vários bilhões de lares ao redor do mundo daqui a alguns anos, vamos olhar para traz e ver que hoje é só o começo”, disse um porta-voz da Netflix.

Em sua maioria, os novos projetos não são iniciados enquanto não houver clientes. Mas alguns especuladores estão instalando “fibra escura” ainda a ser iluminada para clientes, levantando temores de que os construtores possam estar novamente exagerando na aposta.

Apostando que a demanda existe

A Bluebird Network LLC, cliente de Sellenriek na escavação de Excelsior Spring, está construindo este ano mais de 2.000 quilômetros em novas redes de fibras ópticas no estado de Missouri, na região central dos EUA, com ajuda de US$ 47 milhões em verba de estímulo do governo. As clientes da Bluebird são operadoras de celular que estão mudando de cobre para fibra óptica as conexões, ou links, de suas torres; ou que querem oferecer internet mais rápida para usuários de linha fixa. Ela também está instalando fibra escura. “Graças a Deus pelo Facebook”, disse Sellenriek, que tem 40 anos e é um veterano da indústria, enquanto seus empregados cortavam a terra perto da cidade com um trator e um escavador que juntos pesavam 26 toneladas.

Veteranos do colapso de 2001 insistem que estão cientes das lições que aprenderam e estão sendo muito mais cuidadosos sobre onde instalam cabos. “Estamos muito mais espertos agora do que 10 ou 15 anos atrás”, diz James Crowe, diretor-presidente da Level 3 Communications Inc. Sua empresa ajudou a definir o crescimento da telefonia ao construir sua própria rede de costa a costa dos EUA, começando em 1998. Ela perdeu mais de 90% de seu valor de mercado um ano depois de chegar a seu pico em março de 2000, mas foi uma das poucas que sobreviveu ao estouro do bolha.

Nos últimos meses, pela primeira vez desde 1990, Crowe começou a estender a rede de fibra óptica da Level 3 para áreas onde ele ainda não tinha nenhum cliente, apostando que a demanda de que ele precisa para ganhar dinheiro existe.

Pessimismo também persiste

Outra corrida de fibra óptica está acontecendo sob o Atlântico. Desde os anos áureos de 1998 a 2003, quando investidores otimistas construíram dez sistemas diferentes de cabo entre a América do Norte e a Europa, a rota não tinha nenhuma construção nova. Talvez por um bom motivo: o preço de enviar dados entre Nova York e Londres caiu 25% desde 2007, já que uma tecnologia de laser melhorada fez a capacidade dos cabos entre as duas cidades aumentar mais do que a demanda.

Mas agora há quem argumente que a demanda já justifica novos sistemas. Um grupo, o Hibernia Atlantic, dono de um dos sistemas de cabo transatlântico existentes, disse em janeiro que havia assinado contratos para uma nova ligação Nova York-Londres de US$ 300 milhões.

Só que o pessimismo também persiste. “Estamos muito, muito longe [da euforia da bolha] hoje, mas foi uma experiência tão dolorosa que as pessoas ainda tremem em pensar que podemos estar no mesmo caminho”, disse John Hodulik, analista de telecom do UBS AG.

***

[Anton Troianovski, doWall Street Journal de Excelsior Springs, Missouri]

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