Terça-feira, 22 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº955

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A quarta internet

Por Luli Radfahrer em 24/04/2012 na edição 691
Reproduzido da Folha de S.Paulo, 23/4/2012; intertítulo do OI

No princípio era o verbo. As redes eram poucas, fechadas, criptografadas, baseadas em comandos de texto. Seu conteúdo, acadêmico e militar, não chamava a atenção de quem não devia. Usá-las demandava paciência, computadores gigantescos, comunicações lerdas e muito conhecimento técnico. A mãe de todas as redes nasceu, como toda tecnologia, grande, frágil e de abrangência duvidosa. Isso não impediu que estruturasse protocolos e serviços que continuam válidos até hoje, como os fóruns de discussão e o bom e velho e-mail.

Dessa internet ninguém fala mais a não ser em círculos técnicos e aulas de história dos meios de comunicação. Muitos a confundem com uma de suas redes, a World Wide Web, surgida no início da década de 1990 como tentativa de classificar o conteúdo disposto da rede em “páginas”. A facilidade de acesso e a interface gráfica atraíram multidões para aquela que chamavam de “supervia da informação”, uma grande biblioteca de consulta pública. Hoje chega a ser divertido pensar que tão pouco tenha causado tanto impacto, mas naquela época a perspectiva de ler instantaneamente um conteúdo escrito do outro lado do mundo tinha ares de ano 2000.

O milênio acabou, levando com ele o bug e o estouro da bolha pontocom. Os escombros da euforia digital (e da “nova economia” surgida com ela) levantaram suspeitas em investidores que, com a crise pós-11 de Setembro, desistiram de investir na rede. Ninguém falava em Google ou Facebook naquela época. A Amazon não fabricava nada do que vendia, e a Apple fazia computadores.

A internet das coisas

Mas a banda larga e, com ela, a conexão perene, chamaram a atenção de um público leitor, telespectador da rede, convidando-o a escrever, palpitar, contribuir, interagir com o conteúdo lido e, dessa forma, fazer parte dele. Na época, ninguém sabia ao certo onde isso iria dar. Mesmo hoje, bilhões de dólares depois, as certezas ainda são poucas. As mídias sociais se multiplicaram, popularizaram o conteúdo online e trouxeram de volta os investimentos. Essa rede onipresente, onisciente e onipotente continuou a se chamar, como suas antepassadas, internet.

Hoje se vive em uma quarta fase. Ela não tem praticamente nada de acadêmica, textual ou aberta como eram as redes anteriores. A estrutura que interage com parte significativa da vida pessoal e profissional de cerca de 2 bilhões de pessoas é feita de ambientes restritos, incomunicáveis, que colocam em prática o projeto original imaginado pela antiga America Online, criando “jardins murados” para proteger seus usuários indefesos da escuridão e das maldades variadas a que estariam sujeitos se ficassem perdidos na rede. Os condomínios fechados do Twitter, do Facebook, do Google, da Apple, do ClubPenguin e tantos outros não têm compromisso algum com a internet em que habitam. Propriedades privadas, eles fazem o que quiserem com os dados em suas bases. Para censurá-los basta uma conversa rápida, como aquela que o governo chinês teve com o Google, e as liberdades de seus usuários se foram.

Correndo a uma velocidade exponencial, logo entraremos em uma quinta fase, a internet das coisas. Nela estaremos cercados de objetos que, como um iPhone ou um Kindle, terão a propriedade dividida entre seus donos e os donos de seus dados. E, como o nome da rede não mudou, muitos acreditarão que nada mudou.

***

[Luli Radfahrer é colunista da Folha de S.Paulo]

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