Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

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Nova desigualdade na era digital

Por Matt Richtel em 12/06/2012 na edição 698
Reproduzido da Folha de S.Paulo/The New York Times, 11/6/2012; intertítulos do OI

Nos anos 1990, surgiu o termo “divisão digital” para descrever a diferença entre os que têm e os que não têm acesso à tecnologia. Ele inspirou iniciativas para colocar as últimas ferramentas de computação nas mãos de todos os americanos, especialmente os das famílias de baixa renda.

Esses esforços diminuíram a divisão. Mas criaram um efeito colateral imprevisto, que perturba os pesquisadores e o governo.

As crianças das famílias pobres gastam mais tempo do que as de famílias mais abastadas usando seus televisores e dispositivos eletrônicos para assistir a programas e vídeos, jogar e conectar-se a sites de rede social.

Essa crescente lacuna de “perda de tempo”, segundo políticos e pesquisadores, é reflexo da capacidade de monitoramente do uso da tecnologia pelos pais.

“Não sou contra a tecnologia em casa, mas ela não é uma solução”, disse Laura Robell, diretora do Elmhurst Community Prep, um colégio público na área de baixa renda de East Oakland, na Califórnia, que há muito tempo duvida do valor de se colocar um computador em cada casa sem supervisão adequada. “Com frequência, os pais nos procuram e dizem: 'Não tenho ideia de como monitorar o Facebook'.”

Potencial educativo

A nova divisão é causa de preocupação para a Comissão Federal de Comunicações (FCC, na sigla em inglês), que avalia a proposta de gastar US$ 200 milhões para criar um corpo de alfabetização digital. Esse grupo de centenas e até milhares de treinadores se espalharia pelas escolas e bibliotecas para ensinar usos produtivos dos computadores aos pais, alunos e candidatos a empregos.

Esses esforços complementam um punhado de projetos particulares e estatais que visam pagar treinadores digitais para ensinar tudo, desde o uso do teclado e processamento de texto a como se inscrever em empregos on-line ou usar filtros para impedir que as crianças vejam pornografia.

“A alfabetização digital é importante”, disse Julius Genachowski, presidente da comissão, acrescentando que superar a divisão digital significa “dar aos pais e alunos as ferramentas e o conhecimento para usar a tecnologia para educação e treinamento profissional”.

Autoridades da FCC e outros políticos dizem que querem colocar os equipamentos de computação nas mãos de todos os americanos. Segundo a comissão, 65% dos americanos têm acesso à banda larga em casa, mas esse número é de 40% nas casas com renda anual inferior a US$ 20 mil. A metade de todos os hispânicos e 41% dos lares afro-americanos não têm banda larga.

Um estudo publicado em 2010 pela Fundação Família Kaiser, um grupo que estuda políticas de saúde nos EUA, revelou que as crianças e adolescentes cujos pais não têm diploma superior passavam 90 minutos a mais por dia expostas à mídia do que crianças e famílias de maior nível socioeconômico. Em 1999, a diferença era de 16 minutos.

O estudo também mostrou que as crianças de pais sem ensino superior passam 11,5 horas por dia expostas à mídia, incluindo televisão, computadores e gadgets. É um aumento de 4 horas e 40 minutos por dia desde 1999.

Filhos de pais mais instruídos -considerados como de status socioeconômico mais alto- também usam amplamente seus equipamentos para diversão. Nas famílias em que um dos pais tem educação superior ou um diploma avançado, segundo a Kaiser, as crianças usam dez horas de multimídia por dia, 3,5 horas a mais em comparação a 1999.

“Apesar do potencial educativo dos computadores, a realidade é que seu uso na educação ou criação de conteúdo significativo é minúsculo, comparado com seu uso para pura diversão”, disse Vicky Rideout, autora do estudo da Kaiser. “Em vez de reduzir a lacuna de realização, eles estão ampliando a lacuna de desperdício de tempo.”

Notas ruins

As preocupações ganham vida em famílias como as de Markiy Cook, um jovem pensativo de 12 anos em Oakland. Em casa, onde o dinheiro é limitado, sua família tem dois laptops, um Xbox 360 e um Nintendo Wii. Ele tem seu próprio telefone. Ele utiliza os equipamentos para acessar o Facebook e o YouTube e para jogar e escrever mensagens.

Markiy gosta especialmente de jogar nos finais de semana.

“Fico acordado a noite toda, até as 7 da manhã”, disse, rindo timidamente. “É por isso que fico tão cansado na segunda-feira.” Suas notas estão ruins, abaixo da média. Ele disse que quer ser biólogo quando crescer.

***

[Matt Richtel, do New York Times]

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