Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

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Google vira referência para BCs

Por Aki Ito e Alisa Odenheimer em 07/08/2012 na edição 706
Reproduzido do Valor Econômico, 3/7/2012, tradução de Sérgio Blum; intertítulos do OI

Margo Sugarman passou meses em 2011 pesquisando via Google aparelhos domésticos para montar a cozinha de seus sonhos, vasculhando a internet em busca de informações sobre os mais modernos fornos duplos e mixers silenciosos. Essas consultas não só orientaram a moradora de Mond Tel, Israel, a encontrar as melhores ofertas para a reforma que lhe custou cerca de US$ 17 mil, como também ajudaram o Banco de Israel, que utiliza essas buscas para aferir o estado da economia do país, com um PIB de US$ 243 bilhões.

O banco central está na vanguarda da caça mundial a novos indicadores econômicos, analisando as contagens de palavras-chave de todo tipo, de aulas de aeróbica a frigoríficos – reportados pelo Google quase imediatamente após as buscas serem realizadas – para estimar a demanda dos consumidores antes mesmo da liberação de estatísticas oficiais. O Fed (Federal Reserve, banco central dos EUA) e os bancos centrais da Inglaterra, Itália, Espanha e Chile também produziram seus próprios estudos para verificar se os volumes de buscas refletem tendências nas suas economias.

O que está em jogo é a capacidade dos guardiões de implementar reações mais ágeis de política econômica. Melhores previsões podem fazer a diferença entre uma desaceleração e uma recessão, entre uma recuperação e um boom inflacionário, segundo Erik Brynjolfsson, membro do Conselho Consultivo Acadêmico do Federal Reserve Bank de Boston.

Desacelerações e recessões da economia

“Ao examinar dados tradicionais, os bancos centrais estavam olhando, fundamentalmente, para o espelho retrovisor”, disse Brynjolfsson, professor no Massachusetts Institute of Technology, em Cambridge. O estudo publicado em dezembro de 2009, do qual ele foi coautor, prevendo as vendas de casas nos EUA usando volumes de buscas foi citado por três estudos dos bancos centrais. “Se o Fed tivesse tido acesso a essas informações, teria condições de fazer previsões melhores sobre o que estava acontecendo no mercado imobiliário e conhecido mais rapidamente a profundidade do problema” durante a recessão de 2007-2009, disse ele.

Tudo começou com um palpite em Mountain View, Califórnia. Na esteira do desenvolvimento de um novo site que divulgava com que frequência os usuários pesquisavam certas palavras-chave, Hal Varian, economista-chefe do Google, disse ter se perguntado se esses dados poderiam prenunciar o que relatórios econômicos tradicionais revelariam posteriormente. Então, ele processou os números.

O resultado foi um documento de 23 páginas, de cuja redação ele participou em abril de 2009, demonstrando como os dados reportados pelo serviço Google Trends melhoraram as previsões sobre vendas de automóveis, de casas e em pontos varejistas nos EUA. Tanya Suhoy, um economista-sênior no Banco de Israel, divulgou um documento três meses depois concluindo que os novos dados ajudaram a prever desacelerações e recessões da economia local.

Abrir ou fechar a torneirinha

Economistas do Banco Central do Chile ao Banco da Inglaterra logo começaram a fazer indagações similares: o crescimento do número de pessoas que fazem buscas sobre automóveis permite prever um aumento das vendas de carros? O aumento nas buscas sobre seguro-desemprego é um indício de que as pessoas estão perdendo seus empregos?

Tanto Varian como Brynjolfsson, do MIT, se dizem surpresos com que técnicos de bancos centrais se mostrem particularmente interessados nessa técnica: uma das dificuldades na formulação de política econômica está na fixação de taxas de juros com base em informações econômicas atrasadas.

O Google disponibiliza os dados três dias após os usuários terem realizado suas buscas. O Departamento de Comércio dos EUA publica normalmente seu relatório mensal sobre vendas no varejo na segunda semana do mês seguinte. “Com política monetária, você pode abrir ou fechar a torneirinha em poucos segundos”, disse Varian, em cujo elenco de ex-alunos em mais de três décadas de carreira docente está o presidente do Fed, Ben Bernanke. “Para ser mais ágil, é preciso ter informações atualizadas.”

“Mais pesquisas são necessárias”

Essa é a filosofia subjacente às análises do Banco de Israel, lideradas por Suhoy, que começou a estudar os dados do Google por sugestão de Stanley Fischer, o presidente do banco central israelense. Usando volumes de buscas em vez de estatísticas governamentais ainda não disponíveis, os técnicos computam um índice mensal que reflete a saúde corrente da economia. Os números são então apresentados a Fischer e à sua comissão de política econômica, antes de estipularem a taxa de juros de referência nacional.

Sem dúvida, os estudos que buscam estabelecer uma relação entre previsões econômicas e as contagens de buscas via Google – totalizando 119 bilhões em todo o mundo em junho, segundo levantamento da ComScore, empresa de pesquisas na internet – ainda estão em estágios iniciais. Até mesmo os maiores defensores do instrumento citam motivos para cautela. Os números remontam apenas a 2004, limitando comparações com estatísticas mais antigas. E, como a amostra é limitada aos usuários da internet, os volumes podem não refletir as compras das pessoas que gastam menos tempo online: os idosos e os menos ricos.

“Usar o Google pode ser interessante, mas no momento suas previsões sobre variáveis macroeconômicas não são confiáveis”, disse Lucrezia Reichlin, ex-diretora de pesquisas no Banco Central Europeu e atualmente professora na London Business School. “O Google é atraente e alguma coisa pode resultar disso, porém mais pesquisas são necessárias.”

Prever o afluxo de turistas

Mesmo com essas limitações, o Banco da Inglaterra (BOE) é outro BC que compila pesquisas realizadas via Google. A popularidade de termos de buscas como JSA, abreviatura britânica para jobseeker’s allowance (subsídio para quem busca emprego), ajudou a prever dados de desemprego, segundo um estudo publicado em junho 2011 de autoria dos pesquisadores Nick McLaren e Rachana Shanbhogue, ambos do BOE.

Contagens de buscas “tendem a se tornar uma fonte cada vez mais útil de informações sobre o comportamento econômico”, escreveram eles. Chris Shadforth, um porta-voz do BOE, recusou-se comentar mais detalhadamente.

No Banco da Espanha, Concha Artola e Enrique Galan analisaram buscas relacionadas com viagens no Reino Unido em artigo divulgado em março. A conclusão: as buscas permitiram prever o afluxo de turistas britânicos à Espanha com antecedência de quase um mês.

***

[Aki Ito e Alisa Odenheimer, da Bloomberg]

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