Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

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Pane em Wall Street põe algoritmo na berlinda

Por Michael Mackenzie e Arash Massoudi em 07/08/2012 na edição 706
Reproduzido do Valor Econômico, 3/7/2012; intertítulos do OI

A Knight Capital, a formadora de mercado (market maker) que está no centro do mais recente problema de funcionamento das negociações eletrônicas de ações, se autodenomina “a ciência dos negócios [com títulos], o estandarte da confiança”. Mesmo assim, a confiança do público nos mercados de ações dos Estados Unidos está sendo duramente testada no momento. Depois dos problemas técnicos que atrapalharam as aberturas de capital do Facebook e da Bats Global Markets este ano, houve na quarta-feira (1/8) erros em negociações com 148 ações listadas na Bolsa de Valores de Nova York (NYSE).

Mais uma vez, investidores e operadores do mercado de ações americano ficam desnorteados por outro episódio de descontrole de um sistema de negociação algoritmo, ou “algo”. Decorridos mais de dois anos depois do crash relâmpago de maio de 2010 – quando a NYSE caiu centenas de pontos em questão de minutos –, isso demonstra o quanto o mercado de ações dos EUA na verdade opera no piloto automático. Também serve de lembrete de que corretoras, bolsas e autoridades reguladoras ainda enfrentam grandes desafios para salvaguardar a maneira como as ações são negociadas em um ambiente de negócios super-acelerado.

O mercado como um todo não foi afetado pelo “problema tecnológico” da Knight, sugerindo que as reformas regulatórias e de negociação implementadas desde o crash relâmpago ajudaram a impedir uma situação de pânico, mas o episódio reavivou uma antiga discussão sobre os benefícios e perigos da dependência de sistemas de computador complexos.

Um erro de programação

Grande parte das negociações de ações compreende hoje algoritmos sofisticados que são criados para que as negociações sejam realizadas de maneiras específicas, reagindo a mudanças nos preços, setores, volatilidade, dados econômicos e outros parâmetros através do ambiente de negociações fragmentado. Mas ao replicar a maneira como os operadores de carne e osso decidem quando os investidores querem comprar e vender ações, os algoritmos emitem uma torrente de ordens, sendo que muitas delas são rapidamente canceladas antes da execução dos negócios, tudo isso em frações de segundo.

Desde o advento desses negócios, na década passada, o tamanho médio dos negócios caiu de 1.000 para 200 ações. Alguns participantes do mercado e observadores temem a possibilidade de um “algo” sair fora de controle. “Ainda somos vulneráveis a todos os tipos de falhas. Não importam as mudanças realizadas e as precauções tomadas, sempre haverá um cenário não antecipado”, afirma James Angel, professor-associado da Universidade Georgetown.

No caso da Knight, que sofreu uma perda de US$ 440 milhões, Tom Joyce, seu presidente-executivo, disse ontem (1/8) à Bloomberg que a implementação do novo software continha um erro de programação que enviou ordens erradas para o mercado. “Assim, acabamos com uma grande posição errada que tivemos que assimilar no balanço do dia”, disse ele.

Custos substanciais

Operadores disseram acreditar que uma grande ordem para uma série de ações foi executada em cinco minutos, em vez de um período mais longo de um ou até cinco dias. A escala das ordens levou os preços muito para cima ou para baixo, e desarmou a liquidez do mercado. Também desencadeou negociações frenéticas com os fundos negociados em bolsa; o Vanguard Utility ETF experimentou um volume de 4 milhões de papéis, bem acima dos 128.000 normalmente negociados a cada dia.

Desde o crash relâmpago, o mercado implementou circuit breakers, elaborados para limitar grandes oscilações nos preços das ações além de uma alta ou queda de 10%, durante um período de cinco minutos. No total, pelo menos 40 das 148 ações afetadas pelos negócios da Knight também experimentaram uma mudança de mais de 10%, uma vez que os circuit breakers só entram em ação 15 minutos após o início dos negócios no dia e refletem a volatilidade, e não o fluxo de ordens.

Entre as ações que desencadearam os circuit breakers na quarta-feira estavam Molycorp, CoreLogic, Kronos Worldwide, China Cord Blood Corporation e Trinity Industries. As mudanças nos preços de suas ações foram de bem mais de 10%, com a ação da China Cord subindo até 151%, voltando a cair depois. “O setor está bem ciente dos defeitos nos circuit breakers”, afirma o professor Angel. Enquanto isso, apenas os negócios com seis das 148 ações foram posteriormente cancelados pela NYSE. Isso deixa a Knight potencialmente diante de custos substanciais e levanta questões mais amplas. “Isso não é um problema apenas para a Knight, e sim obriga as autoridades reguladoras a lidar com uma coisa nova e pode levar os investidores a perder a confiança no mercado”, afirma um analista de Wall Street.

Transparência e preços mais competitivos

Para alguns, a noção de interromper negócios enfatiza o problema do uso e grande dependência da tecnologia de computador de alta velocidade. Uma vez executado um negócio, isso rapidamente desencadeia uma sequência de posições cuja interrupção fica muito cara.

“Não há um dispositivo de interrupção; assim que você aperta o botão ‘enviar’ em um algoritmo, ele está correndo e você não pode pará-lo”, afirma Ken Polcari, diretor-gerente da ICAP Equities. “Talvez tenhamos que refletir sobre onde está a linha entre os seres humanos e os computadores.”

Defensores das negociações eletrônicas afirmam que elas reforçaram a transparência e proporcionam preços mais competitivos e justos para os investidores. Os críticos apontam para as falhas e o aumento da volatilidade. “Há um velho adesivo que diz: errar é humano, mas para estragar realmente tudo é preciso um computador”, afirma o professor Angel.

***

[Michael Mackenzie e Arash Massoudi, do Financial Times]

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