Sábado, 25 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

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UOL vai apagar memória de sites pessoais

Por André Azevedo da Fonseca em 07/08/2012 na edição 706

Esses dias recebi uma mensagem fúnebre. Não posso deixar de reconhecer que foi escrita de forma bem profissional, eficiente e quase gentil. Mas não havia engano: era uma sentença de morte. A mensagem era assim:

“Informamos que o serviço UOL Sites Pessoais será desativado em 09/08/2012.
Se você possui um site pessoal no UOL veja como fazer o backup dos seus arquivos, pois a partir desta data todas as informações serão excluídas dos nossos servidores sem possibilidade de recuperação.

Conheça outros produtos para hospedar seu site em http://sites.uol.com.br.
Todos os nossos canais de atendimento estão disponíveis para esclarecimentos:

Capitais e regiões metropolitanas: 4003 9011

Demais localidades: 0800 881 9011

Atenciosamente, Equipe UOL”

Como dizem que acontece na hora da morte, passou um filme em minha cabeça. No começo do século 21, no já distante ano de 2003, quando eu era um jovem estudante de Jornalismo, decidi fazer uma assinatura no UOL para hospedar meu portfólio pessoal. A internet ainda era uma novidade relativamente restrita e cara, sobretudo nas cidades do interior. Para fazer um site, mesmo utilizando um software gráfico como o Dreamweaver, era preciso ter noções básicas de html e decifrar alguns de seus códigos secretos. As fotos tinham que ser cuidadosamente manipuladas para que a baixa resolução não atrapalhasse a qualidade. Eu tinha que fazer os uploads depois da meia-noite: se fizesse as atualizações durante o dia, pagaria por pulso em horário comercial. Blogs não eram populares ainda. O Blogger Brasil tinha sido lançado em 2002 e ainda não me entusiasmava.

Endereço original

Criei meu site pessoal em http://azevedodafonseca.sites.uol.com.br e coloquei toda a minha produção jornalística estudantil: entrevistas com escritores (Zuenir Ventura, Roberto Drummond, Affonso Romano de Santana, Marina Colasanti, Alcione Araújo etc.) que publiquei no jornal-laboratório da Universidade de Uberaba (MG), as reportagens sobre patrimônio histórico finalistas na Expocom/Intercom, as crônicas que participaram do Set Universitário da PUC-RS, o artigo que me deu o primeiro lugar no Prêmio Escritor Universitário da CIEE/ABLe todos os textos que produzi nesses tempos.

Formei-me em Jornalismo e deixei esse arquivo disponível para consulta, mesmo sem atualizá-lo. E foi assim que, durante toda a primeira década do século 21, muitos estudantes da cidade, estimulados por seus professores, passaram a utilizá-lo como fonte de seus trabalhos. Também é comum receber notícias de pesquisadores acadêmicos que utilizam alguns desses textos como fontes primárias em seus estudos. Aquelas entrevistas com escritores são frequentemente citadas em pesquisas, como nessa dissertação em Estudos da Linguagem da Universidade do Estado da Bahia, que estudou a obra de Marina Colasanti, ou nessa dissertação em Letras da Universidade Federal de São João del Rey, que analisa a produção de Roberto Drummond. Há muitos exemplos.

Como qualquer pesquisador sabe, toda citação deve ter a sua referência bibliográfica exata. A ideia é que qualquer pessoa tenha acesso à fonte original para verificar a citação e aprofundar-se no assunto. Esses pesquisadores citaram o endereço eletrônico original das entrevistas, conforme consultaram. Mas a partir de 9 de agosto, esses endereços serão desabilitados e as referências bibliográficas serão inúteis.

Os sites “bacanas”

Particularmente, tenho condições de migrar meu arquivo pessoal para outro servidor e esperar que o Google o encontre. Por isso, não lamento por mim. Mas o caso exige algumas reflexões. Qual é a responsabilidade dos provedores comerciais para a memória da internet? Será que a internet vai continuar sempre repetindo o equívoco das TVs que apagavam (e apagam) a sua história para reutilizar as fitas VHS ou o espaço em HD? Dizem que o Facebook armazena até mesmo os posts deletados de seus 955 milhões de usuários. Esses sites pessoais do UOL são um peso tão insustentável assim? Imagino que não. É evidente que o motivo para essa decisão empresarial é uma economia básica, periférica, aliada à oferta de novos serviços pagos de hospedagem de sites.

Segundo o próprio UOL História –ironia de lado, trata-se do site dedicado à memória do UOL –, o serviço de hospedagem “gratuita” aos assinantes começou em setembro de 1997: um ano e meio depois da criação do próprio UOL e cerca de dois anos depois do início da internet comercial no Brasil. Assim, temos consciência de que a formatação desses sites pelo UOL tem o caráter de um verdadeiro historicídio. Em um só dia, será destruído um conjunto relevante de sites pessoais pioneiros que registraram as reflexões cotidianas dos primeiros internautas ativos na web.

Na prática, não se trata apenas de um caso de desapropriação no ciberespaço, onde os assinantes são sumariamente expulsos de seus endereços digitais, mas de um extermínio digital. Alguns sites como “Usos e Costumes” das comunidades Yorubás de Ilê-Ifé”, por exemplo, conseguiram fugir a tempo para o WordPress e outras plataformas. Mas o UOL deve saber que a maioria daqueles sites pessoais construídos sob a rubrica de um domínio tão incômodo era produzida por voluntários que optaram por não registrar seus domínios por questões econômicas. Este era o meu caso, um estudante de Jornalismo que fazia uma marmitex virar almoço e janta (sem drama), mas não deixava de pagar em dia o boleto do provedor de internet. Na época em que estimulava seus usuários a produzir sites pessoais, o UOL chegou a criar uma sessão chamada “Sites Bacanas” para promovê-los. Sou obrigado a admitir que deixei escapar um breve sorriso orgulhoso quando, em março de 2005, mês do meu aniversário, o meu já inativo portfólio estudantil também foi considerado “bacana” pelo UOL. Será que hoje o UOL não tem dó de exterminar tantos sites “bacanas”?

Informações históricas

Pois bem. Em centenas de cidades do interior, esses sites ainda são referência básica para diversos temas cotidianos de suas comunidades. Se o acesso é pequeno na contagem mensal e desprezível no raciocínio utilitário da grande escala, no acumulado dos anos essas informações não deixam de prestar bons serviços às memórias locais. Cidades pequenas reúnem poucas condições para o registro de sua história. Em geral não há universidades, pesquisadores e instituições preocupadas com a produção de conhecimentos históricos em nível local. Por isso, é particularmente criticável formatar esses dados, “sem possibilidade de recuperação”, e exterminar informações de sites pessoais como o “Projeto Volta Redonda: cidade da música” ou o site da Comissão Maranhense de Folclore (atualizado pela última vez em 2001), entre milhares de outros sites literários, religiosos, educativos, ativistas, artísticos e tudo o mais que se possa pensar.

Se alguém argumentar que a maior parte desses sites não merece ser guardado, bem, eu diria que esse indivíduo não é um historiador. Uma boa fonte de informação pode ficar latente por anos até que um pesquisador atento o descubra. E os critérios para se estabelecer o que é digno de ser lembrado não coincidem com interesses comerciais de curto prazo. Basta mencionarmos a Arqueologia: fragmentos de vasos de cerâmica soterrados por milhares de anos oferecem informações decisivas no esforço para a compreensão histórica de um período. O que dizer de centenas ou milhares de sites pessoais de internautas brasileiros do início do século 21? Dependendo do questionamento que o historiador faz, esses dados podem revelar muito sobre o espírito do tempo em que foram criados.

Em termos históricos, a qualidade do conteúdo nem sempre é o elemento principal da fonte. Por exemplo, se um conjunto de usuários criou determinados sites temáticos que, na pior das hipóteses, apenas copiaram informação de outro site, o historiador tem condições de firmar diversas interpretações interessantes sobre esse fenômeno. Ou seja, o fato de existirem sites com conteúdo copiado também carrega informações históricas relevantes sobre a intenção desses agentes. Ainda são experimentais os métodos de pesquisa histórica ou linguística que empregam computadores capazes identificar padrões em grandes quantidades de informação. Para isso, contudo, é preciso que o documento esteja lá. Sites como o Internet Archive ajudam, mas não armazenam tudo.

Análogo à incineração

Certamente, a maior parte desse material jamais foi impresso. E nada garante que os usuários estejam interessados, dispostos ou mesmo vivos para reconstruírem seus sites em outros domínios. Além disso, é muito provável que a maioria nem saiba que seus sites serão apagados. A revista Pandora, por exemplo, publicou um número sobre “Narrativas infantis e memória” em julho de 2012 e programou o lançamento da próxima revista sobre Georges Battaile para agosto de 2012! Creio que, se ninguém os avisar, eles serão surpreendidos pela formatação de seus arquivos.

Provavelmente devido a algum constrangimento de quem sabe que não está agindo de forma correta, o UOL não fez um anúncio amplo dessa decisão, mas apenas um comunicado discreto – para mais tarde argumentar que todos foram avisados. Recebi um único e-mail na minha conta do UOL (que raramente uso) no dia 6 de julho e há uma mensagem lacônica no UOL Sites pessoais.

No dia 9 de agosto de 2012, parte significativa da memória dos primeiros internautas da internet comercial brasileira vai ser destruída. É preciso ficar claro que a formatação dos milhares de sites pessoais do UOL é um procedimento análogo a uma grande incineração de documentos históricos.

PS: É provável que, em termos legais, o UOL tenha se precavido. Em geral, nos contratos de serviço dessa natureza há aquela cláusula coringa dizendo que a empresa “se reserva o direito de modificar as regras acima a qualquer momento, a seu exclusivo critério, independente de prévia notificação”. Contudo, notamos que isso não é registrado na sessão “Política de hospedagem em UOL Sites e Disco Virtual” nas regras do UOL (http://regras.uol.com.br). E aí, advogados?

***

[André Azevedo da Fonseca é doutor em História pela Unesp, pesquisador visitante no Programa Avançado de Cultura Contemporânea (PACC) da UFRJ e professor e pesquisador no Centro de Educação, Comunicação e Artes (CECA) da Universidade Estadual de Londrina (UEL)]

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